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Irene, a potiguar que transformou o luto em luta por moradia

Ocupado desde 2016, o antigo prédio do INSS na Avenida 9 de Julho, em São Paulo, é hoje uma das ocupações modelo no país. Abandonado na década de 1970, o prédio já foi palco de inúmeras reintegrações de posse e ocupações. Atualmente 120 famílias vivem no prédio. São aproximadamente 450 trabalhadores e trabalhadoras de baixa renda, brasileiros e imigrantes que, dia a dia, transformam um local antes abandonado, depredado e sem função social, em um lar organizado, com capacidade residencial e produtiva.

Em meio a essas pessoas, uma potiguar: a aposentada Irene da Silva, de 66 anos. Natural de Sítio Novo, cidade com pouco mais de 5 mil habitantes no Agreste do Rio Grande do Norte, ela tem uma história de vida com muitos trechos comuns aos milhares de nordestinos que fizeram e ainda fazem a travessia em busca de uma vida melhor em São Paulo.

De família de agricultores, dona Irene viveu até os 16 anos na zona rural. O pai era vaqueiro, trabalhava para fazendeiros da região. Sem alternativa de emprego, ela e os quatro irmãos foram para a pequena cidade de Sítio Novo, onde a mãe arrumou emprego como empregada doméstica na casa do prefeito. A jovem seguiu para Natal e, repetindo o destino da mãe, também foi trabalhar como “doméstica”. Alguns anos se passaram e, após uma passagem por Manaus, chegou em São Paulo:

“Nessa época ainda tinha emprego. Os nordestinos que chegavam se ocupavam rápido na construção civil, como porteiro, cozinheiro, manobrista…Eu fui ser empregada doméstica novamente. Morei por três anos no meu primeiro trabalho aqui ”, conta.

Ocupação 9 de julho transformou antigo e abandonado prédio do INSS num lar para 450 pessoas

Dona Irene casou, teve duas filhas e viveu uma vida simples e digna na maior metrópole do país, sempre trabalhando. Foi também ASG, costureira, office-boy e cuidadora. O marido, de Maceió, era garçom. Com as duas rendas eles sustentavam a família e pagavam aluguel, sempre no centro da cidade. Mas os anos passaram, o Brasil mudou e, muitas crises econômicas depois, Dona Irene, já viúva e idosa, se viu sem condições de pagar aluguel.

Foi então que, através de uma sobrinha envolvida com o Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC), surgiu a oportunidade de se mudar para uma das ocupações:

“Eu só não vim antes porque eu tinha medo, e não era dos outros moradores não. Eu tinha medo da polícia, de ser expulsa, de sofrer algum tipo de violência junto com as minhas filhas durante uma possível reintegração de posse. Mas criei coragem e vim. Morei primeiro na Ocupação do antigo Hotel Cambridge e estou aqui na Ocupação 9 de julho há cerca de um ano”, explica.

“Eu só não vim antes porque eu tinha medo, e não era dos outros moradores, não. Eu tinha medo da polícia, de ser expulsa, de sofrer algum tipo de violência”

A filha mais nova vive com ela e a mais velha, casada, também mora na Ocupação 9 de julho, em outro apartamento.

Hoje Irene espera ansiosamente para realizar o sonho da casa própria. Em até dois anos deve ser contemplada com um imóvel desapropriado que agora integra o programa de empreendimentos populares da Prefeitura de São Paulo. Mas garante que, independentemente disso, vai continuar militando:

– “Aprendi muito e aprendo todos os dias aqui dentro. Aqui são as mulheres que lutam. No último dia 8 de março, um grupo de mulheres ocupou um prédio para mostrar aos nossos governantes o que mulher sabe fazer. Minha vida deu uma reviravolta, mas não há mal que não venha para o bem. Cheguei nova em São Paulo, trabalhei, trabalhei e nunca consegui comprar minha casa. Chegava na Caixa Econômica Federal e dava com a cara na porta. Agora, com a ajuda do movimento, vou realizar esse sonho e o melhor: sem sair do Centro”, orgulha-se.

“A gente vive em vários Brasis”

A baiana Carmem Silva é uma das lideranças da Ocupação 9 de julho

A Ocupação 9 de julho é coordenada pelo Movimento Sem Teto do Cento (MSTC), que organiza também outras cinco ocupações na região central de São Paulo.  A sigla faz parte da Frente de Luta por Moradia (FLM), que agrega outros movimentos sociais do qual fazem parte cerca de 25 mil famílias espalhadas pelos quatro cantos da cidade. A missão principal é mobilizar e organizar cidadãos que estão na luta por moradia digna. O movimento promove ações e debates, junto ao governo e à sociedade civil, para que o direito constitucional de acesso a moradia seja cumprido pelo Estado.

A baiana Carmen Silva é a líder do MSTC. Nascida em Santo Estevão, no Recôncavo Baiano, filha de um militar e de uma empregada doméstica, ela casou aos 17 anos na tentativa de escapar do machismo do pai. A tão sonhada liberdade seria apenas ilusão. “Só fiz transferir o problema. Fiquei casada por quase 16 anos e aos 32 vim para São Paulo. Sofri muita violência doméstica até conseguir tomar as rédeas da minha vida”.

Vítima de violência doméstica, Carmem enfrentou e conquistou São Paulo

Carmen acredita ter sido salva pela política:

– “A gente vive em vários Brasis. Os governantes fazem questão de estabelecer essa gentrificação territorial para nos dividir. É uma estratégia da minoria dominante que nos separa culturalmente e nos enfraquece. Enfrentei muito preconceito quando cheguei, fui parar nas ruas, depois em um albergue e lá fui apresentada aos movimentos sociais. Quase três décadas depois, posso dizer que também sou cidadã paulistana porque conheço essa cidade como poucos e adquiri a compreensão geopolítica necessária para discutir políticas públicas de direito à cidade”, conta antes de explicar o papel do movimento na Ocupação:

“O papel do MSTC é organizar trabalhadores para cobrar do Estado. Se a gente ocupa é porque está abandonado e sem função social. O cidadão de menor renda não precisa ficar isolado em glebas, nas periferias extremas. Ele pode sim viver no coração da cidade e ter acesso a tudo o que ela oferece. Em todas as capitais brasileiras existem vazios urbanos – empreendimentos erguidos apenas para fins especulatórios. Enquanto isso, os governos não desenvolvem políticas públicas eficientes no âmbito da moradia. É aí que entram os movimentos sociais. A gente toca a luta pelo direito de existir”.

Almoços de domingo tamanho família

Almoços mensais na Ocupação 9 de julho têm programação cultural ativa e é aberto à população

Tem luta e sobretudo alegria e afeto. A gestora cultural Laura Maringoni faz parte do Aparelhamento, um grupo que desde 2017 atua em parceria com o MSTC na Ocupação 9 de julho. Eles montaram uma cozinha industrial no prédio, que é utilizada exclusivamente durante ações coletivas. Uma das principais é o almoço mensal. Aberto ao público, o evento é considerado hoje a principal vitrine do movimento. Chama atenção para a causa e estreita laços com uma parcela privilegiada e influente da população paulistana.

“Essa troca é muito importante até mesmo para desconstruir a ideia que as pessoas tem dos moradores de ocupações. Imagem inclusive que é fomentada pela grande mídia. Aqui não tem bagunça, não tem bandido. São famílias. Cidadãos que não tiveram as mesmas oportunidades que eu tive, por exemplo, e que merecem ter direito à moradia”, conta.

Artistas como Otto, Zeca Baleiro, Chico César e Anelis Assumpção já se apresentaram na Ocupação 9 de julho

O que era apenas comida farta, foi ganhando corpo com o passar do tempo e se transformou em um grande acontecimento cultural. A movimentação artística é intensa. Cantores como Otto, Zeca Baleiro, Chico César e Anelis Assumpção já se apresentaram por lá. Além da música, tem oficinas, exposições e todo tipo de intervenções artísticas. Cultura é palavra de ordem e as ações nesse sentido não acontecem apenas durante o evento. Semanalmente, por exemplo, os moradores participam de uma oficina de desenho.

“Quando se fala em direito à moradia, não significa apenas um espaço físico, um teto sobre a cabeça. Morar é ter acesso à saúde, à educação, ao transporte público, à saneamento básico e, claro, à cultura. Trazendo as pessoas de fora aqui para dentro, a gente cria um cordão afetivo em volta desse lugar e isso se transforma em proteção para a causa”, justifica.

Laura reforça o viés político do movimento. Para ela, quem se envolve de qualquer forma está se posicionando:

– “Só podemos pensar em uma sociedade melhor, mais justa e mais equânime se a gente descruzar os braços, se unir e trabalhar. É preciso lutar juntos, de forma prática, por uma sociedade diferente da que temos hoje. Mais que nunca, precisamos resistir”, explica.

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