CIDADANIA

Isolamento social ainda é a melhor maneira de combater a Pandemia

Por Thays Teixeira*, do LAIS

O isolamento social tem comprovado sua eficiência, tanto que os prognósticos iniciais apontados nos modelos matemáticos dinâmicos já apresentam cenários diferentes em razão das atitudes tomadas.

Quando uma pessoa se cura da Covid-19 em meio à crise sanitária enfrentada no mundo é motivo para comemorar. No entanto, as estatísticas em torno das curas do ponto de vista da Saúde Pública, nesse momento, não tem um valor absoluto. Isso porque o cuidado deve ser direcionado às pessoas que se internam, sofrem e morrem em virtude da doença.

A preocupação das entidades de saúde e dos pesquisadores é conseguir manter um equilíbrio e condições mínimas para a atenção na rede hospitalar que irão receber as pessoas infectadas e que apresentem sintomas. São esses pacientes que de fato precisarão utilizar os recursos da saúde pública e é importante que eles não estejam colapsados.

“A questão dos curados só tem uma importância. É quando esse quantitativo chega a 70% da população absoluta da comunidade, se eles tiverem imunizados realmente, isso vai constituir uma barreira para que a epidemia continue. É o que chamamos de imunidade de rebanho. Mas estamos muito longe disso ainda”, explica o pesquisador do LAIS e epidemiologista da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Ion Andrade.

O pesquisador ressalta, ainda, que não se pode analisar isoladamente o número de pessoas que estão curadas por conta de vários fatores que interferem na análise, como falta de testes e as subnotificações. Muito dos infectados que não desenvolveram sintomas poderiam ser tecnicamente considerados curados. “Isoladamente isso não tem valor nenhum. Na verdade, todas as pessoas que não vierem a falecer ficarão curadas”, reitera Andrade.

Com a ausência de vacinas ou um tratamento eficiente, a expectativa de controle definitivo para a Covid-19 é essa formação de imunidade de rebanho. Contudo, o epidemiologista alerta que essa imunidade deva ser alcançada com o alongamento da curva epidêmica (alongamento do tempo de contágio), já que a curva explosiva ameaça os serviços de saúde, gerando o colapso. Isso faz com que pesquisadores, cientistas e profissionais da saúde defendam a estratégia do isolamento social.

Existem vários modelos matemáticos de projeção dos infectados. Ion Andrade cita o modelo desenvolvido pelo professor do Departamento de Física da UFRN, José Dias, e destaca como os números variam conforme as estratégias adotadas e revelam pistas para a compreensão da realidade da doença onde não há testagem em massa.

“O modelo do professor José Dias considera que cada óbito projeta um determinado quantitativo de pessoas contaminadas. Então eles se utilizam dessa pista para saber quantos contaminados poderia ter em uma dada população de acordo com o primeiro óbito. A única forma de se ter esse dado de forma absoluta é a testagem em massa, mas essa não é uma realidade do Brasil”, relata Andrade.

Naqueles locais ou países onde existe a testagem em massa (que todas as pessoas da comunidade são testadas independente de apresentarem sintomas ou não) é possível uma apreciação de qual é o contingente da população que efetivamente está infectado ou contaminado.

Como ação, nesse momento, os cientistas defendem o controle social da doença, a informação da população feita com qualidade e a ampliação da curva epidêmica para evitar o colapso na saúde pública.

Modelo matemático de compreensão da Covid-19

O modelo matemático apresentado pelo astrofísico e professor do Departamento de Física da UFRN, José Dias, explica cenários possíveis sobre o comportamento do coronavírus em relação a densidade populacional do Rio Grande do Norte e considera fatores como a quantidade óbitos, medidas de políticas públicas e comportamento da população com ações sanitárias e isolamento social.

Esses indicadores mostram mudanças na curva de prognóstico de mortes, o que reforça a tese de que é vital a existência de tais ações, como o isolamento social, para o controle da letalidade da doença e o não colapso do sistema de saúde. Na ausência dos testes em massa, os modelos são as únicas formas de fato de entender melhor o sistema dinâmico que se apresenta na pandemia. As projeções vão se atualizando conforme os dados do comportamento da doença se modificam.

“Esses modelos apresentam também evidências reais do impacto do isolamento social nas curvas de óbito e de crescimento dos casos. Por tanto, sem a testagem de grande parte da população, os modelos matemáticos agem como uma bússola, uma lanterna que pode clarear o futuro e as ações que já foram feitas”, comenta o professor José Dias, em material divulgado em seu canal no Youtube.

José Dias destaca que é vital o cuidado na análise e divulgação das informações contidas nesses modelos para não gerar pânico na população. O pesquisador salienta, ainda, que eles são recursos matemáticos e científicos para compreender cenários sociais em suas relações dinâmicas.

“Precisamos de um pouco mais de tempo para entender a dinâmica e ajudar o nosso estado a atravessar por essa crise, sobretudo em explicar a importância de se ter o isolamento social e de uma forma mais ampla combater essa desinformação que circula pelas redes sociais, atrapalhando as ações de saúde pública”, diz o físico.

Ele reforça que o prognóstico inicial que era assustador e pessimista se modificou porque parte população aderiu ao isolamento e ações de saúde pública foram tomadas.

“O Brasil não é o país da inação, existe uma parte da população que entende o que é a palavra de um médico, de um cientista. Temos pessoas que são conscientes cientificamente. E isso faz a diferença”, comenta.

Pessoas curadas e o trabalho voluntário

A situação de pandemia gera temor em parte da população. Sabe-se que muita gente enfrenta dificuldades das mais diferentes para conseguir manter a subsistência em virtude do isolamento necessário. Nesse momento ações de solidariedade fazem a diferença.

Há uma possibilidade de que as pessoas que fiquem curadas se tornem imunes ao vírus, como acontece em outras viroses. Se isso de fato acontece a solidariedade pode ser um caminho a seguir.

Em alguns lugares essas pessoas, após o restabelecimento da imunidade, estão sendo convidadas a atuar em trabalhos voluntários, como apoio a doentes e nos locais onde se necessita de recursos humanos que não irão mais adoecer ou que possuem menor risco. Estar curado não quer dizer que a epidemia, que a Covid-19, ficou para trás. “Pode significar que essa pessoa mudou de papel. Ela pode ter um papel mais ativo na solidariedade que precisa acontecer”, reforça o infectologista Ion Andrade.

Thays Teixeira é doutora em Estudos da Mídia pelo Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

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