OPINIÃO

Ivermectina, sopa, sorvete e lambedor de gengibre

Muita gente, eu incluso, pensou que a Ivermectina tanto preconizada e ministrada pelo prefeito de Natal Álvaro Dias desde meados da pandemia, não passava de uma peça de campanha eleitoral, uma tentativa de conseguir reeleição e que uma vez obtendo êxito, o que aconteceu, Álvaro se livraria desta narrativa como quem troca de roupa ou aposenta um placebo que não tem mais eficácia.

Engano meu. No dia seguinte à reeleição (em primeiro turno com 56,58% dos votos, ou 194.764), Álvaro voltou a defender a distribuição da Ivermectina, entre outros medicamentos sem comprovação científica para, na cabeça dele, o controle do coronavírus. Segundo o prefeito, em entrevista neste mesmo day after, Natal venceu a primeira onda da pandemia, mas não citou qualquer dado.

Tal como na canção de Chico onde a moça “que brincava de princesa, acostumou na fantasia”, Álvaro tanto brincou de “salvador da pátria que salvou Natal da Covid” que passou a acreditar no conto de carochinha de campanha. Se na campanha ele navegou na crença do seu comitê e dos médicos apaixonados pela Ivermectina, após a eleição não deixa de ser surpreendente, ou chocante, que ele ainda invista em um vermífugo como solução para uma doença que vem dizimando estadunidenses e europeus. Poque diabos Álvaro e Fernando Suassuna não mostram a Trump e a Europa a eficácia da Ivermectina e se consagram mundialmente – até com chances de um Nobel de Medicina – é um mistério para mim, como já comentei aqui.

Em outro texto aqui neste Saiba Mais escrevi que em uma semana paguei três motoristas de Uber que disseram ter tomado Ivermectina e que não tinham contraído Covid. Pensei em dizer que eu estava tomando sopa e lambedor de gengibre e que não havia contraído também. E que meu filho tomava sorvete todos os dias. Como nem eu nem ele fomos infectados poderia deduzir que sopa, sorvete e lambedor também evitavam a doença.

Mas, o argumento irônico era inútil. Os três já haviam dito que votariam em Álvaro. Que havia vencido, antes das eleições, a batalha da narrativa. Ainda que Ivermectina sirva tanto para contar o vírus quanto sorvete.

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