OPINIÃO

Jagunços urbanos

Na série Onde nascem os fortes exibida pela Rede Globo vemos um Brasil nordestino contraditório. O mesmo torrão moderno, opulento e urbano convive com hábitos de servidão e violência. Como na vida real, o Pedro Gouveia empresário da trama é o tipo de uma elite do mando, do exibicionismo e das benesses do Estado. Tem capangas, policiais e a força do dinheiro para decidir quem deve viver ou morrer. É o pai preocupado com a doença da filha e macho alfa, simultaneamente, com esposa e amante.

Tudo isso com a aceitação dos moradores da pequena cidade de Sertão. Mas eis que o acaso coloca em seu destino a destemida Maria. Irmã gêmea de Nonato e uma Joana D’arc das terras do Recife e que muito cedo aprendeu a combater servidões e injustiças. Maria cruza o destino de Pedro através de seu filho, o jovem paleontólogo Hermano, por quem se apaixona. Destacam-se ainda os personagens Ramiro -juiz e primo de Pedro- e o seu filho Ramirinho, a Shakira do Sertão.

O microcosmo da ficção expressa um ethos no qual os pedros gouveias ditam as regras da cidade. Como um jagunço ilustrado e endinheirado faz do outro um objeto para a sua serventia. Os Jagunços urbanos são mimados e agem como Alex, de Laranja Mecânica. Iniciam seus atos de violência a partir de um pequeno nada. Batem ou atiram nas pessoas como se ouvissem a uma melodia trágica. É verdade que violentam não ao som de sinfonias, pois não têm gosto apurado para um Bethoven, como Alex. O que impera em suas preferências musicais é o breguismo de duplas como Simaria e Simone, a sofrência melódica de Marília Mendonça ou, ainda, acordes e uma estética padronizada de um Wesley Safadão e Aviões do Forró.

Na ficção, como no Brasil, o comportamento do Jagunço se expressa pelo machismo diante da mulher, pelo preconceito aos homossexuais e pela ojeriza às cotas para negros e pobres nas universidades. Violentar o outro é uma questão de sua vontade. As vítimas são caçadas e podem pagar com a vida. Como a própria Maria na trama ou quando vimos o Acampamento Lula Livre, em Curitiba, ser alvejado.

Os Jagunços urbanos têm espírito de massa de acossamento. São grupos armados e sabem a quem matar. O mais brutal disso tudo é o comportamento leniente da justiça e da mídia. Matar ou espancar petista e lulista se resume a cenas de episódios televisivos. Bonner, Moro, Dodge e Carmem Lúcia poderiam compor a trama Os fracos não têm vez. Assistem à barbárie como se fosse ficção. Mas nos resta a ira das Shakiras do Sertão e das Marias, como esperança sísifa.

Artigo anteriorPróximo artigo
Alex Galeno
Alex Galeno é cientista social, professor da UFRN e escreve às terças-feiras para a agência Saiba Mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *