DEMOCRACIA

Janot humilha Henrique Alves em livro de memórias; ex-deputado reage

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No livro de memórias “Nada a menos que tudo”, o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot dispensa pelo menos três páginas para narrar episódios envolvendo o ex-deputado federal do Rio Grande do Norte Henrique Alves (MDB). Ele ironiza, faz chacota e humilha o parlamentar que ocupou a presidência da Câmara dos Deputados e exerceu 11 mandatos consecutivos como deputado federal.

Janot afirma que Henrique Alves “também se esforçou muito para ficar de fora da lista de investigados”. O ex-procurador conta que aceitou receber o potiguar em pelo menos três audiências e, numa delas, Alves teria chorado ao perceber que um inquéritos que o investigara havia sido arquivado por falta de provas.

Na segunda audiência entre os dois, assim que entrou no gabinete de Janot, Henrique recebeu o famoso “envelope pardo” onde geralmente o PGR colocava os ofícios comunicando políticos e agentes públicos sobre a decisão de prosseguir com o inquérito ou pedir o arquivamento da investigação. Como agradecimento, Alves teria enviado uma garrafa de cachaça de presente para Janot, que desdenha do presente no livro:

“Ali estava o conteúdo da minha decisão. Ele (Henrique) pareceu hesitante em abrir e ler a mensagem. Por fim, quando o fez, baixou a cabeça e começou a chorar. Tentou dizer algo, mas não conseguiu e foi embora. O nome dele estava na lista, mas na dos que teriam o pedido de inquérito arquivado. Era só mais um despacho regular, com base na lei, mas Alves ficou exultante. Alguns dias depois, me mandou uma garrafa de cachaça de presente. Era uma cachaça especial, e eu, seu mais novo amigo na praça, saberia apreciar melhor que ele. Ok, a cachaça está guardada. Dias depois, ele me escreveu uma carta de próprio punho para agradecer, “agora de forma racional”, meu gesto “de correção, ética e, sobretudo, justiça”, pelas informações reservadas que tinha transmitido a ele. Ora, o envelope pardo com o aviso sobre estar ou não sendo investigado era uma regra, não uma decisão excepcional. (…) Não demorou muito para ele descobrir que a cachacinha, a carta e as promessas de amizade sincera não criaram efeito vinculante. No decorrer das investigações, o nome de Henrique Alves surgiu em várias delações. Numa delas, ele aparece como destinatário de propinas em contas no exterior num esquema do ex-deputado Eduardo Cunha. Por causa das delações, Alves teve que ser afastado do Ministério do Turismo e acabou preso por decisões de Varas Federais do Rio Grande do Norte e de Brasília”.

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No inquérito arquivado, Alves havia tido o nome mencionado na delação do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto da Costa, que afirmara que o potiguar teria feito “gestões em favor de Paulo Roberto Santos, um dos sócios da estatal na termelétrica TermoRio”. O ex-presidente da Câmara, também segundo Janot, teria visitado várias vezes Jorge Zelada, outro diretor da Petrobras, também denunciado por corrupção. Por falta de provas, no entanto, a investigação não foi adiante.

Rodrigo Janot conta que havia um modus operandi entre os parlamentares que o procuravam e cita as audiências com o ex-deputado potiguar para dar o exemplo:

“Ele (Henrique) me pediu uma audiência e eu concordei em recebê-lo. Chegou tenso, com o semblante carregado. Não me lembro das palavras exatas dele nos minutos seguintes. Sei que seguiu o padrão dos demais políticos que me visitavam com propósitos parecidos. Eles não dizem abertamente: ‘Por favor, não me investigue’ ou ‘Por favor, me exclua dessa investigação’. O texto é outro. Em geral, dizem que têm biografia limpa, um nome a zelar e, por isso, não suportariam encarar mulher, filhos e amigos se tivessem que passar pelo constrangimento de uma investigação. A regra também era dizer que as acusações eram vagas, infundadas, frutos de uma vingança ou de um descuido qualquer do delator. O ex-presidente da Câmara (Henrique) seguiu essa linha”, narra no texto.

O ex-procurador-geral não poupa Alves no livro. Até o escândalo pessoal envolvendo uma conta no exterior com 15 milhões de dólares, fato que custou a candidatura dele a vice-presidente da República em 2002 na chapa com José Serra, é lembrado por Janot.

“Se fizermos a atualização, era uma soma ainda maior que a montanha de 50 milhões encontrada num apartamento do ex-ministro Geddel Vieira Lima em Salvador, em janeiro de 2018. Os tropeços do passado, embora retumbantes, não impediram uma progressão na carreira”, destacou o autor.

Rodrigo Janot também usa Henrique Alves como exemplo dos efeitos de uma investigação levada adiante pela PGR citando a demissão no ministério do Turismo do ex-parlamentar, ainda no governo Dilma. O detalhe observado pelo ex-PGR: Henrique apoiara Aécio Neves, na reeleição da petista, e mesmo assim ganhou de presente um ministério:

“Olhando em retrospecto, o caso de Henrique Alves é didático sobre o funcionamento do poder e do alcance de uma investigação da Procuradoria-Geral. No início de 2015, a presidente Dilma Rousseff tinha deixado o comando do Ministério do Turismo reservado para o ex-deputado. Ele só seria indicado para o cargo se seu nome não estivesse na “lista de Janot”. Era o que diziam os jornais. Aliado de Temer e Cunha, ele teria obrigado a presidente a esperar o resultado da apuração preliminar do nosso grupo de trabalho para se impor como ministro. Detalhe: na campanha eleitoral, Alves tinha apoiado o senador Aécio Neves, adversário de Dilma. Depois de nomeado ministro, ele perdeu o cargo por causa da investigação sobre contas abastecidas com dinheiro de propina”, disse.

Henrique Alves chama Janot de mentiroso

Numa série de Pelo twitter, o ex-deputado federal Henrique Alves (MDB) atacou o ex-procurador geral da República Rodrigo Janot. Sem citar os trechos do livro, o potiguar disse que não reconhece os encontros relatados no livro por Janot:

– Depois de orquestrar delações para atingir seus objetivos políticos, o ex-PGR Rodrigo Janot se aposenta e escreve um livro. Hoje, nos primeiros vazamentos dessa publicação para a imprensa, é relatado diálogo mentiroso de que jamais participei, de momento que não condiz com a História, usando palavras e pleitos que não refletem minha forma de agir, me expressar e muito menos ouvir. Parece que o sr. Janot não se aposentou da prática de agredir os fatos e a verdade. Seguirei com fé que ela prevalecerá”, escreveu.

 

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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