ENTREVISTA, Principal

João Amoêdo: “Sempre que o Estado distribui renda, ocorre uma concentração”

O candidato a presidente da República João Amoedo (Novo) não parte do princípio de que o Estado deve ter um papel importante na redução da desigualdade social. Pelo contrário. Para ele, o poder central tem a capacidade de deixar a riqueza ainda mais concentrada caso institua políticas equivocadas, como foi, ao seu ver, a prática de subsidiar juros para empresários, via BNDES.

Ou seja, o Leviatã distribui muito menos com benefícios sociais do que concentra com supostas políticas de desenvolvimento.

Porém, ele considera positivo e defende um programa como o Bolsa Família, instituído no governo Lula e é considerado uma das maiores marcas do governo petista.  Não é exatamente uma contradição. Economistas liberais como o americano Milton Friedman já defendiam, há mais de 50 anos, a necessidade de políticas compensatórias para amortecer as disfunções do capitalismo.

Amoêdo declarou à Justiça Eleitoral em patrimônio de R$ 425 milhões, o maior entre todos os candidatos à presidência da República. Metade desse montante está aplicado em renda fixa.

Cumprindo agenda em Natal nesta quarta (19), João Amoedo concedeu entrevistas e, em seguida, foi para uma concentração no estádio Arena das Dunas. Sua mãe, Maria Elisa, é natalense e a família é proprietária de alguns empreendimentos como o Hotel Vila do Mar (cujo cálculo estrutural foi feito por Amoedo no seu começo de carreira como engenheiro) e a financiadora Companhia Hipotecária Brasileira (CHB).

Confira, abaixo, alguns dos principais trechos da entrevista:

Agência Saiba Mais: Um dos maiores problemas do Brasil é a sua desigualdade social. O senhor tem dito que, mais importante do que diminuir a desigualdade é, antes de mais nada, a geração da riqueza. Mas Delfim Netto tinha o mesmo pensamento nos anos 70, quando falava que “É preciso, primeiro, fazer o bolo crescer. Depois dividir”. Porém o crescimento daquele período foi concentrado, favorecendo apenas os mais ricos. Se não houver, deliberadamente, projetos de distribuição de renda, não corre-se o risco de acontecer o mesmo na atualidade?

João Amoêdo: Sempre que se colocar o Estado para fazer distribuição de renda, ocorre uma concentração. E o Brasil é um exemplo disso. Tenho defendido termos de atacar a pobreza, pois atacando somente a desigualdade corre-se o risco de deixar todo mundo pobre. Dou o exemplo de países como o Japão e Afeganistão, onde o primeiro é bem mais desigual que o segundo, porém tem uma qualidade de vida maior.

No Brasil, temos vários exemplos da atuação estatal atuar como uma concentradora de riqueza. O Estado gasta R$ 29 bilhões com o Bolsa Família, que é um programa bom, positivo e a gente apoia. Em compensação, gastou mais de R$ 140 bilhões somente no diferencial de taxas de juros para grandes grupos empresariais, tudo subsidiado pelo BNDES. O poder público dá pouquinho para quem precisa e muito para quem não tem essa necessidade.

Quando o Estado remunera o fundo de garantia do trabalhador menos do que a poupança e empresta a grandes grupos por uma taxa de juros menor do que a de mercado está concentrando renda.

Outro caso foram as séries de desonerações fiscais que não se reverteram em aumento dos postos de trabalho. Assim, deixa-se de gastar nos serviços públicos para favorecer o empresário.

Investir muito mais em educação superior do que em nível básico, deixando de nivelar as oportunidades na largada da escolarização é mais um exemplo de concentração.

Se o senhor assumisse a presidência da República hoje, qual seria o primeiro problema atacado?

Equilibrar as contas públicas. E, para isso, é necessário fazer a Reforma da Previdência, que é um grande buraco. Em seguida, melhorar a liberdade para as pessoas poderem empreender. O Brasil tem uma carga tributária muito elevada, trabalhamos de cinco a seis meses somente para pagar impostos, temos uma burocracia enorme, enfrentamos uma série de licenças para abrir um negócio, mesmo pequeno. As regras são bem difíceis.

Então começaríamos equilibrando as contas públicas, cortando privilégios e benefícios e melhorar o ambiente de negócios.

Os países que possuem a maior renda per capta são justamente aqueles com maior liberdade econômica e o Brasil está na posição 153, dentro de 185 neste ranking. É nessa linha que iremos trabalha para melhorar.

Como praticamente todo o Brasil, o Rio Grande do Norte enfrenta um grande problema fiscal e ainda não pagou nem o 13° salário do ano passado. O que a União pode fazer para reverter esse problema?

A União já andou vendo a possibilidade de ajudar os Estados e ela pode ser estudada. Mas as unidades federativas tem de fazer o seu papel. Todos eles têm um endividamento muito elevado. Deve valer, localmente, a mesma política de cortar privilégios e mordomias da classe política.

Com os quatro vereadores que o Novo elegeu, economizamos, cortando privilégios e benefícios, R$ 16 milhões em quatro anos de mandato. Lembrando que no Brasil temos quase 58 mil vereadores. Então tem muito espaço para fazer cortes.

No combate à pobreza, existe um plano específico para a região Nordeste?

Sim, a primeira grande vantagem competitiva do Nordeste é o turismo. Ele não se desenvolve mais em virtude da insegurança e da infraestrutura ruim da região. Em segundo lugar, temos um povo muito empreendedor por aqui, mas é necessário diminuir a burocracia para se abrir uma pequena empresa. E, finalmente, o Nordeste tem enorme potencial no campo da energia limpa (eólica e solar), havendo espaço para fazer um sistema mais integrado.

João Amoêdo pertence a uma família de empresários de Natal (RN), proprietários do hotel Vila do Mar.

O sistema penitenciário é muito importante no contexto para uma melhora da segurança pública. Que análise o senhor faz de nossa rede carcerária?

O sistema está falido, vide as inúmeras rebeliões vistas por todos os cidadãos país afora. Os presídios são uma máquina de criminalidade. Entendo que a melhor forma de resolver esse problema é fazer parcerias com a iniciativa privada. Existe uma experiência muito boa de ressocialização em Ribeirão das Neves (MG) e uma reincidência menor no crime. Tudo isso nos leva a crer que vale a pena expandir um pouco mais esse tipo de parceria.

O senhor acredita em uma possibilidade de mudança da polarização entre os candidatos Jair Bolsonaro e Fernando Haddad?

Quando montamos o Novo, em 2010, o objetivo era fazer uma renovação na política. E eu não vejo, em nenhum dos dois, por motivos diferentes, a capacidade de fazer uma boa gestão pública.

O PT pelo histórico de corrupção e decisões erradas que nos trouxe para a maior recessão da história brasileira. E agora não podemos correr o risco de ver o futuro chefe da nação, caso Haddad seja eleito, ser comandado por alguém que está preso.

Quanto a Bolsonaro, falta capacitação demonstrada em seus anos de atuação parlamentar. Mesmo na área de segurança, não vi nada de interessante. Ele é deputado federal pelo Rio de Janeiro há 29 anos, um dos estados mais violentos do país e não fez nada para ajudar. Por que votou contra o Plano Real? Por que foi contrário a uma série de monopólios?

Por isso, vamos trabalhar bastante nos próximos 18 dias para mostrar que somos, realmente, a única novidade no cenário político brasileiro. Nosso único desafio é, de fato, nos tornarmos mais conhecidos e conseguir galgar uma disputa no segundo turno.

O senhor contempla a possibilidade de apoiar Jair Bolsonaro no segundo turno?

Vamos trabalhar bastante para ir ao segundo turno e acreditamos que iremos. Qualquer tipo de apoio feito pelo Novo será sempre em cima de ideias, propostas e valores. O histórico de Bolsonaro não me anima. E, certamente, o do PT também não. Precisamos trabalhar mais para chegar lá. Pode acontecer muita coisa em 18 dias.

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