OPINIÃO

Jornalismo em rota de fuga da realidade

Para encerrar a semana em que enterramos a Previdência Social no cemitério de direitos da Câmara Federal, um episódio corriqueiro, uma conversa incidental entre um porteiro e um morador contém todos os ingrediente para pensar, mais uma vez, sobre a falta que o jornalismo faz em tempos de pós-verdades.

Quem viu, ouviu ou leu o noticiário essa semana deve saber que a “reforma” da previdência foi “amplamente” “debatida”, que ela era realmente “necessária” e que, sem ela, o “país continuaria parado”. Era preciso “acabar com os privilégios” para garantir o “direito à aposentadoria” de todos. O jornalismo trabalhou para convencer trabalhadores a aceitarem a destruição do patrimônio da previdência, atuou para convencer os trabalhadores mais pobres que era preciso que eles perdessem 83 de cada 100 reais “economizados” pela proposta em tramitação na câmara, fez malabarismo com palavras para gerar manchetes positivas para explicar que cada um vai ter que pagar mais, trabalhar mais e receber menos no final da vida.

Tudo isso para deixar o trabalhador desinformado o suficiente para não entender nada do que está acontecendo.

Eis que, com o jornal do dia na mão, o porteiro curioso – que apenas lê as manchetes da capa e assiste aos noticiários da Globo na TV ao lado do monitor com as câmeras de segurança – parou o morador para perguntar o por quê do RN ter ficado fora da reforma. Ele não conseguia entender como havíamos escapado das mudanças. Mal sabia ele que os únicos que, por enquanto, estavam ilesos eram os servidores públicos estaduais – que ainda amargam o prejuízo dos salários atrasados e de um calendário de pagamentos incerto.

Não precisou de muito papo para que o companheiro porteiro ligasse os pontos.

Depois de entender que nenhum de nós – ele pelo INSS, eu pelo regime dos servidores públicos federais – havíamos escapado, logo me recomendou procurar um banco para fazer uma previdência privada – tarde demais ele entendeu que não era para “economizar” coisa nenhuma. Eram os bancos que queriam mais clientes.

A democracia de meia tigela que somos (ou fomos) nunca avançou no campo da comunicação. Um cenário recheado de vinculações políticas e econômicas que sempre colocou o direito à propriedade privada, à “livre” iniciativa e os direitos econômicos acima de qualquer direito fundamental. Para o jornalismo brasileiro o direito à vida, à dignidade, ao trabalho não estavam na pauta. Foi assim no combate ao governo João Goulart, no apoio ao golpe militar e à ditadura, no silenciamento das Diretas Já, nas eleições de 1989, na cobertura do massacre de Eldorado dos Carajás, da chacina da Candelária, nas notícias sobre o Governo Lula, na ocupação do morro do Alemão, na “crise” do Governo Dilma, na cobertura da Lava Jato. Informar nunca foi o objetivo principal. Editar um telejornal, uma revista semanal, sempre foi mais próximo da composição de um manifesto político, reunindo os fatos e interpretando à luz dos interesses privados do momento.

Claro que haviam exceções, quase sempre heroicas e marginais, quase sempre de curto alcance e vida limitada, como Pasquim, a revista Caros Amigos, ou a Carta Capital – efêmeras estrelas cadentes no horizonte estrelado da mídia nacional. Ou os pontuais episódios em que a Veja e a Folha cumpriram seu papel e entregaram bom jornalismo para seus leitores – fugazes asteroides nessa parábola astronômica.

A reforma da previdência passou e a mídia brasileira, mais uma vez, garantiu a passividade do cordial povo brasileiro diante dos dilaceradores de direitos.

Talvez leiamos editoriais de desculpas quando as coisas estiverem trágicas demais.

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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