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Jornalista potiguar revê “esperança no meio do caos” 1 ano após morte do irmão vítima de covid-19

Por Concita Alves

Luiz, Daniel, Francisco, André,

Elizete, Aderbal, Raimunda, Seu Sobral

Cleytinho, Raquel, Sebastião, Vandinho,

Lucas, Joiran, Indira, Ana Clara, Zé Neguinho,

Otávio, Nonato, Maria do Rosário e Sâmara.

Poderia continuar o exercício da memória, ou abrir alguns arquivos pessoais pra rememorar o nome e a história de mais pessoas queridas e amadas que atravessaram o arco íris pro órun em um ano de pandemia, no Rio Grande do Norte, depois de uma batalha doída e dramática contra covid-19. A dor não é individual, o mundo tá de luto.

Me desculpe, deixe eu me apresentar. A primeira pessoa da lista acima é meu irmão que partiu no dia 2 de abril de 2020 vitimado pela covid 19, depois de 8 dias internado. Tudo foi muito rápido e ainda está mais veloz em 2021, por isso as recomendações sanitárias continuam.

Luiz Alves de Brito Sobrinho, 48 anos, enfermeiro, pai de Bia e irmão querido, me ensinou a ler, dançar e a ter esperança no meio do caos. Éramos os caçulas da casa. Um ser iluminado, alegre e trabalhador que gostava de cuidar e de se doar, que virava noites em plantões e amanhecia o dia em outra cidade para novos plantões. Isso é comum na área da saúde e da educação. Foi um choque receber a noticia que meu irmão tinha perdido essa luta. Além dele, também perdi um tio, uma tia, um cunhado e vários amigos.

Quando nos encontrávamos nas férias de janeiro, em Tibau, ele tinha o costume de acordar cedo, comprar uns grudes e pegar a balsa em Peixe Gordo (RN) para um plantão no hospital em Areia Branca, de lá pegava o carro e ia pra Mossoró, mais uma vez trabalhar. Foi assim por vários anos. Nos fins de semana gostava de cozinhar, era muito caseiro, fazia uns caldos e uns pães deliciosos, e quando menos esperávamos ele chegava com um bolo. Que saudade. Éramos os 13 filhos de Maria e João, mas nunca conseguimos juntar todos em uma única foto, pois as agendas não permitiram.

“Luiz Alves de Brito Sobrinho, 48 anos, enfermeiro, pai de Bia e irmão querido, me ensinou a ler, dançar e a ter esperança no meio do caos”

Luiz Sobrinho era enfermeiro e foi o terceiro potiguar a perder a batalha para a covid-19 / foto: acervo pessoal

É triste admitir que depois de um ano de pandemia, depois de tantas mortes, sejamos o centro dos piores cenários mundiais por perdas de vidas, e ainda ter gente duvidando da morte. Alguém aí teve um irmão que cuidou de seu resguardo e de suas filhas?

Eu tive.

Em um ano ouvi o choro de muitas pessoas amigas, rezas, orações, lutas e verdadeiros milagres acontecerem no correr dos meses. Acompanhei a exaustão de muitos e sofri com a minha. Tive covid. Assisti cientistas se desdobrando incansavelmente para produzir uma vacina, lutei com os jornalistas contra as fake News, escrevi notas com os movimentos, espalhei notícias com as recomendações de saúde, e penso que a informação teve um importante papel nesse contexto da conjuntura política, nos salvando de um cenário pior.

No ultimo mês o país bateu as maiores médias de mortes por covid, alcançando a triste marca de mais de 300 mil mortes em um ano. O tratamento frio com os números dessa pandemia, as inúmeras consequências e a política adotada pelo governo federal, repousam na narrativa dos que tem projetos tenebrosos, pois a vida não autoriza tamanha insensatez. A mentira tem sido uma arma de destruição em massa.

Luiz foi uma das pessoas mais solidárias, sérias e honestas que conheci nessa caminhada. Trabalhou no Hospital Sarah Kubishek, em Areia Branca, e no Hospital São Luiz, em Mossoró. E foi o 3º profissional de Saúde no Brasil e a 3ª terceira pessoa do Estado a perder a vida pra covid-19, quando naquele momento no Rio Grande do Norte, apenas 11 municípios potiguares tinham registro da doença. Hoje guardo com carinho os áudio com sua doce fala.

“Assisti cientistas se desdobrando incansavelmente para produzir uma vacina, lutei com os jornalistas contra as fake News, escrevi notas com os movimentos, espalhei notícias com as recomendações de saúde, e penso que a informação teve um importante papel nesse contexto da conjuntura política, nos salvando de um cenário pior”

Luiz entre os irmãos / foto: acervo pessoal

“Pra quem tem licença a porteira do mundo nunca tranca”, já dizia o canto de Glória Bonfim, hoje vejo como foi curta essa nossa brincadeira da vida, e que não foi à toa a escolha da sua profissão. A covid-19 nos separou, e tem aberto crateras imensas nas nossas vidas, deixado vazio, rios caudalosos e mares salgados, “estamos em pleno mar”, diria Castro Alves, e a tempestade ainda vai demorar, pois a dor é coletiva, e como não sofrer, quando quem perde a vida é um irmão?

Não vou dobrar meus joelhos para as ofertas de Pilatos.

Boa Semana Santa.

 

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