DEMOCRACIA, Principal

José Dirceu: “A prisão agora é pior que na ditadura”

“A prisão agora é pior que na ditadura”. Quem vê o ex-ministro da Casa Civil e ex-presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), José Dirceu, viajando pelo Brasil para lançar sua biografia “Zé Dirceu Memórias – Volume 1” não imagina que ainda esteja intranquilo com a condenação em três processos da Lava Jato e do Mensalão. E, de fato, não está. Ele se refere mais à prisão do ex-presidente Lula. Em passagem por Natal na segunda-feira (24), justificou a frase explicando que as prisões políticas atualmente são mascaradas pela luta contra a corrupção. Ele fala ainda sobre cultura de ódio, economia e eleições.

“A prisão sempre é uma indignidade, porque você perde a liberdade e eu particularmente já tinha a experiência durante a Ditadura Militar. Sob o manto da democracia se faz essa infâmia que é impedir Lula de ser candidato. Eleito presidente dia 7 de outubro ele estaria, no primeiro turno”, disse à militância e à imprensa presentes no bar Acabou Chorare, reduto da esquerda natalense no bairro Ponta Negra. Apesar de muito à vontade entre apoiadores, Dirceu sempre recorda o ódio presente lá fora, com a criminalização do PT e que resultou em uma polarização perigosa nas Eleições 2018.

“Vocês se lembram como rasgavam nossa bandeira. A campanha que fizeram contra a Dilma, contra o Lula esses anos todos. Nós nunca alimentamos o ódio na sociedade brasileira.  Quem foi o presidente do diálogo? Quem mais que o Lula criou diálogo no Brasil e criou mesas e conselhos pra negociação com todos os setores da sociedade?”, lembra, ao afirmar que o PT governou para que todos ganhassem mais no Brasil. “Nenhum dos setores saiu perdendo, mesmo quando a Dilma governou”.

José Dirceu diz que sua vida é apenas um pretexto para escrever sobre o Brasil desde o período da ditadura militar, e que fez isso especialmente para a filha caçula, Maria Antônia, de oito anos, mas também para todos os jovens. Dirceu tem ainda outros três filhos e reserva algumas páginas para falar dos amores do passado. Ele garante que abriu sem reservas a caixa das memórias, incluindo alguns segredos guardados até aqui e os motivos que o levaram à prisão.

Juventude, luta contra a ditadura militar, clandestinidade, resistência armada, vida em Cuba, relação com Fidel Castro, treinamento militar, anistia, fundação do PT, mandatos como deputado estadual e federal, candidatura ao Governo de SP, campanha Diretas Já, impeachment de Collor, campanhas de Lula, 30 meses como ministro, cassação pela Câmara e a denúncia no Mensalão estão presentes no livro.

“Fui condenado sem provas. Cumpri a pena e fui indultado em 2016 pelo ministro Barroso. É um capítulo que precisa ser discutido, tratado, até porque o Marcos Valério está fazendo uma delação em que ele diz que não houve compra de voto, que houve caixa dois de empréstimos que as empresas dele tomaram em bancos e repassaram para pagar dívidas de campanha. Isso é parte da história do país, vai haver revisão criminal sobre isso ainda, mas eu não deixo de tratar nada”, avisa ele, que evitou um livro chapa-branca incluindo divergências e erros e que não tem medo de polêmicas, guardando ainda material para o segundo volume da obra, que espera concluir até junho de 2019.

Bar Cultural Acabou Chorare ficou lotado para ver o ex-chefe da Casa Civil do governo Lula

História cíclica

O ex-presidente do PT lembra que é importante recontar a história do país, porque ela repete ciclos trágicos, mas simples de serem identificados.

As eleições de Jânio Quadros e Collor, além da ditadura militar e do suicídio de Getúlio foram grandes episódios dissimulados pelo combate à corrupção e pelo discurso moralista. “Proibir a minissaia é tudo que o Bolsonaro prega”, diz, fazendo referência a Jango.

“Será que o país quer um candidato que diz que não queria uma filha mulher porque é mulher? Um vice que fala que as avós e as mães são o problema do Brasil porque não sabem criar os filhos, é possível isso?”, questiona, colocando em contraponto o que o PT está fazendo durante esta campanha.

“O papel da eleição é principalmente apresentar propostas. Nós queremos fazer reforma tributária, baixar os juros, fazer uma reforma política e queremos mais pluralismo e diversidade da mídia, mas isso não significa censurar ou controlar a mídia, significa que precisamos discutir a mídia no Brasil. A escola sem partido é escola com partido de direita. É isso que é a eleição”.

Ainda sobre o líder nas pesquisas, Bolsonaro, alerta que ele prega o autoritarismo, anuncia uma Constituinte sem povo e apoia a ditadura militar. Segundo Dirceu, as elites convivem bem com a ditadura e é ao povo que interessa a democracia.

“Quando as classes populares trabalhadoras se constituem e agentes políticos formam as suas lideranças, assumem parte do aparelho do Estado, do Governo, os sindicatos e associações ocupam as ruas e formam e executam um programa, no Brasil, historicamente, a repressão se fez presente”, diz, em tom de alerta.

Todas as áreas – mídia, teatro, cinema, música – foram censuradas, havia tortura, prisão em massa, desrespeito à lei. Este último ponto já tem acontecido novamente, na opinião de Dirceu.

Ele critica o Supremo Tribunal Federal, que toma decisões acima da Constituição, e fala de posições do ministro Barroso. “O Supremo manda prender na segunda instância, mas só decisão penal é pra ser executada. Cível, de família, comercial e demais não”, ele critica.

Dirceu também destaca que a aplicação das leis foi relativizada. “A reforma trabalhista viola a Constituição quando permite que mulheres grávidas trabalhem em ambientes insalubres e não houve interferência do Judiciário quanto a isso”, ilustra.

Por que o Brasil não cresce?

Dirceu aponta problemas sociais, de infraestrutura (como saneamento e estradas) e na economia do país e afirma convicto que a nação é rica, mas não progride mais por uma série de distorções estruturais.

O capital está nos bancos públicos, aponta, detalhando a questão. “Se o governo pega R$ 20 bilhões e coloca na Caixa Econômica ela pode emprestar oito vezes mais, R$ 160 bilhões. Essa é a regra internacional. Quem alavanca o crescimento do país é o setor público”, explica, remontando todas as fases de crescimento nacional.

“Na ditadura militar: crédito externo, crédito público. Era Juscelino: crédito público e capital externo que veio para a indústria automobilística. No segundo governo de Getúlio: recursos públicos. Nós conhecemos a história do empresariado brasileiro. Nós éramos escravos externos. Até 1888 éramos império, monarquia, aristocracia rural e escravidão”, diz, lembrando que foram as classes operárias, as camadas médias que romperam o ciclo e conquistaram direitos, constituindo a nação.

Dirceu falou sobre conjuntura política, criticou Jair Bolsonaro e afirmou que a sociedade brasileira tem seu partido político

“Surge a classe operária que conhecemos hoje e elas precisam de partido, de sindicatos, de representação. Tivemos 35 de ditadura”, afirmou.

José Dirceu continua a linha de raciocínio dizendo que quando a classe trabalhadora chegou ao Congresso, por meio de mandatos democraticamente eleitos, acendeu um alerta nas elites, que fizeram as universidades pra formar a burocracia civil militar do país deles. “Nós rompemos isso, a burocracia civil. Não a militar porque é praticamente outro mundo, um problema grave no nosso país”.

A preferência do Nordeste por Lula mostra que o povo tem partido, na opinião do petista.

“Essa história de que o nosso povo é despolitizado… Como é que o povo não tem partido se na metade da campanha Lula já tinha 45%? Claro que o povo tem partido. A sociedade em geral tem. Se o povo não tivesse consciência política não daria 45% dos votos no primeiro turno jamais”, conta, relacionando com o que fizeram com sua imagem nos últimos anos e a consciência coletiva.

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais