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Junho de 2013: o que as eleições presidenciais de 2018 têm a ver com isso ?

A pouco mais de um mês para as eleições presidenciais, indecisos e votos não válidos lideram a disputa. De acordo com o levantamento do Ibope em 22 de agosto, a soma entre aqueles que ainda não tem candidato ou pretendem se anular neste pleito corresponde a 55% do eleitorado na pesquisa espontânea. O número é maior que a soma das intenções de voto de todos os candidatos na disputa, e mais que o dobro dos entrevistados que disseram que votariam em Lula (PT), que obteve 20%, ou em Jair Bolsonaro (PSL), citado por 15% dos eleitores. Lula e Bolsonaro ocupam o primeiro e o segundo lugar, respectivamente.

Para a pesquisadora Isabelle Azevedo, os dados ainda são muito preliminares e tendem a mudar a partir de 31 de agosto, quando começa propaganda eleitoral no rádio e na televisão, mas são o reflexo do avanço de uma narrativa de descrédito na política institucional. Azevedo é doutoranda de Ciências Sociais da UFRN no campo que estuda a relação entre política, sociedade e movimentos sociais. “Olhando para as últimas eleições, percebemos que há uma crescente na ideia do não votar e não participar da política. O processo deste ano ainda está muito no início e a propaganda na TV costuma ajudar os indecisos, mas há uma narrativa muito acentuada de que os políticos são todos iguais e estão ali só para roubar a população”, pondera.

Em artigo publicado na revista Piauí, o professor de filosofia da Unicamp e escritor Marcos Nobre ressalta que “essa crise de legitimidade da ação do Estado é o que produz, em grande parte, a extrema desorientação política em que nos encontramos”. A matéria foi manchete da edição veiculada em junho deste ano e se refere aos protestos de 2013. Ao pensar sobre as manifestações daquele ano, Nobre avalia que a resposta sobre o que aconteceu naquele mês é “simples e complicada ao mesmo tempo: Junho continua acontecendo”.

Neste sentido, sua ideia corrobora com a explicação de Isabelle Azevedo sobre a sucessão de fatos que levaram o Brasil a este cenário de instabilidade política e incerteza frente às eleições. De certa forma, junho de 2013 é um marco não só para o descrédito, como para o aumento do conservadorismo no país e explica a polarização entre Lula e Bolsonaro na pesquisa mais recente sobre intenções de voto. De um lado, o ex-presidente, que conquistou notoriedade por investir em políticas sociais e, do outro, o capitão da reserva, que defende pautas conservadoras e é chamado de “mito” por grupos da extrema direita.

Para Azevedo, o que aconteceu em junho de 2013 mudou o pensamento dos brasileiros sobre os protestos: “A sociedade percebeu sua capacidade de ir às ruas reivindicar seus direitos e foram surgindo pautas muito difusas, colocadas por grupos variáveis”.

A pesquisadora relembra que a onda de protestos começou contra o aumento da tarifa no transporte público, organizado majoritariamente por estudantes, partidos de esquerda e movimentos sociais, mas ganhou a adesão de outros setores da sociedade que, por sua vez, acrescentaram pautas como o combate à corrupção, por exemplo.

Ela pontua que a diversificação desses grupos foi motivada, dentre outros fatores, pela midiatização dos protestos. E relembra que, em seu auge no dia 20 de junho, quando cerca de um milhão de pessoas participaram das manifestações, a Rede Globo interrompeu a novela das 21h, horário mais caro da TV brasileira, para fazer a transmissão dos atos que ocorriam simultaneamente em todo país. Ainda de acordo com Azevedo, apesar de terem perdido força após esse estopim, as mobilizações daquela época deram início a um processo de “abertura societária”, caracterizada pela mudança de pensamento sobre o potencial das manifestações.

Protestos inicialmente pacíficos contaram com repressão da Polícia Militar e ônibus foram incendiados (foto: Ney Douglas)

A socióloga pontua que, no ano seguinte, a eleição presidencial levou Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) a um segundo turno acirrado que teve a petista como vencedora. Ao final da apuração dos votos seu adversário e apoiadores, majoritariamente ligados à grupos de centro-direita, questionaram a validade das eleições, criando um clima de instabilidade entre os lados que polarizam a política.

Já em 2015, ainda movidos pelo sentimento de que os protestos poderiam ser instrumentos de transformação social, os brasileiros voltaram a protestar de forma massiva, dessa vez a respeito do impeachment da então presidente. Segundo Isabelle Azevedo, as mobilizações desse ano, divididas entre pró e contra o afastamento de Dilma, deram início a um processo de rompimento do modelo de conciliação de classes que caracterizou os governos petistas (2002 a 2016).

“Os protestos pró-impeachment em 2015 e 2016 foram uma abertura importante para o processo de reorganização dos grupos ligados à direita. Esses grupos sempre existiram, mas, a partir dessas manifestações, tiveram oportunidade política de estar na esfera pública. Dessa forma, um ciclo de maior organização da direita tem início de forma heterogênea e há um crescimento do conservadorismo”, explica Azevedo.

“Agora, uma coisa muito maior está em jogo”

Movimento “Revolta do Busão”, em Natal (RN), foi a faísca para detonar protestos pelo país (foto: Ney Douglas)

O advogado Hugo Fernandes, 24, participou das manifestações contra o aumento das tarifas desde 2012, quando o grupo chamado “Revolta do Busão” teve suas primeiras aparições entre os meses de agosto e setembro. Quando perguntado sobre onde estão as pessoas que foram às ruas na época, afirma que os militantes continuam nas ruas, mas com o impeachment da presidente Dilma e o crescimento do conservadorismo, uma coisa muito maior está em jogo: o sistema democrático.

“Continuamos lutando contra o aumento das passagens até 2015, embora as pessoas não aderissem de forma massiva. Agora, não que a mobilidade tenha deixado de ser importante, mas com o golpe que tirou o mandato Dilma, a gente vê em risco um bem muito mais precioso, que é a democracia. O preço da passagem se torna uma coisa pequena perto de um bem tão maior que está em xeque”, diz.

E contextualiza: “Hoje o brasileiro enxerga as ruas como um meio de mudar algo independente do que ele quer mudar. Eu, por exemplo, sou contra o impeachment de Dilma, acredito que foi político e errado, mas uma parte da população foi favorável e viu uma forma de pressionar o Congresso, que foi indo para as ruas”.

O próprio Hugo começou a participar das manifestações movido pelo sentimento de indignação e esperança sobre a possibilidade de mudar a questão do transporte público em Natal. “Em horários de pico, você espera o ônibus por até 1h. Às vezes, quando passa, o motorista não pára porque o veículo já está muito cheio. Restos de comida e insetos no chão do ônibus, cadeiras quebradas, relatos de amigos que já passaram mal devido a superlotação… São muitos problemas”, contextualiza.

Movimento iniciado contra o aumento da tarifa de ônibus projetou outras pautas (foto: Ney Douglas)

Ele conta que ainda era estudante de Direito quando viu o chamado para um ato da “Revolta do Busão”, no Facebook. A publicação convocava para o protesto contra o aumento da tarifa de ônibus, que seria reajustada de R$ 2,20 para R$ 2,40. Naquele ano, o grupo realizou protestos entre setembro e agosto conseguindo que a Câmara Municipal aprovasse a revogação do novo preço em uma sessão do plenário que contou com a presença de aproximadamente 200 estudantes.

Aproximadamente oito meses após o episódio, a Prefeitura de Natal anunciou o reajuste de R$ 0,20 mais um vez no dia 10 de maio de 2013. No dia 15 do mesmo mês, a “Revolta do Busão” voltou às ruas em um ato que foi caracterizado pela repressão policial. Hugo, que participou do ato nesse dia lembra que a Polícia Militar utilizou balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes, que seguiam em caminhada na BR-101.

Colega de militância de Hugo, o estudante de Pedagogia André Rodolfo, 26, pontua que, a partir desse ato, os manifestantes começaram a usar celulares e câmeras pessoais para registrar tudo que acontecia nos atos, em contraponto à narrativa utilizada pelos veículos de mídia tradicionais, que considera parciais.

“A mídia criminalizava os protestos e até então a gente não tinha se dado conta de que tinha um artifício muito poderoso contra isso, que eram os nosso celulares e câmeras. O dia 15 de maio foi o estopim da repressão e há muitos registros: pessoas sendo arrastadas, passando mal, de meninas sendo puxadas pelo cabelo, pessoas correndo a pé pelo viaduto para tentar fugir da repressão policial, cenas horríveis… Essas imagens começaram a circular nas redes sociais e mostravam os atos sobre um outro ponto de vista. Eu mesmo mostrei para a minha família: ‘Vocês reclamam de nós, que estamos nas ruas, mas vejam a ação da polícia’. A partir desse dia, tudo que acontecia nos atos, era registrado por nós”, contextualiza.

André e Hugo acreditam que a disseminação dessas imagens forçou a mídia tradicional a mudar a sua narrativa na cobertura das manifestações, levando grupos cada vez mais diversos a aderir aos atos até chegar ao dia 20 de junho, quando afirmam terem se sentido “engolidos”. “Estávamos há um ano apanhando da polícia pela questão do transporte público e, do nada, as pessoas começaram a achar que poderiam resolver todos os problemas do mundo. Por isso, éramos muito resistentes à inclusão de outras pautas que não fossem ligadas à mobilidade. Mas no dia do grande ato, tinha gente protestando sobre tudo, corrupção, ‘PEC do Ministério Público’, Saúde, Educação… Marcamos um ato como sempre fazíamos e acabou virando um grande evento. Até hoje, eu penso sobre isso e não consigo entender o que aconteceu naquele dia”, declara Hugo Fernandes.

Plenária de estudantes da Revolta do Busão (foto: Ney Douglas)

Os colegas de militância relembram ainda que naquele dia a repressão não foi caracterizada pela ação da polícia, mas sim pelas pessoas que haviam acabado de aderir ao movimento e hostilizaram os representantes de partidos políticos. Hugo destaca que o movimento tinha um caráter espontâneo, autônomo e horizontal e tinha uma boa convivência entre partidários e apartidários, apesar de eventuais dissensos. Ele recorda que, no dia 20 de junho, os membros da Revolta do Busão organizaram uma plenária no Campus da UFRN antes do ato e, ao chegar na marginal da BR-101, onde estava marcada a concentração, havia um cordão de pessoas impedindo a adesão daqueles que estavam com bandeiras ou camisas de partidos políticos.

“Esses novos manifestantes tinham a ideia de que os partidários estavam se apropriando do movimento e o protesto que era apartidário se transformou em anti-partidário, mas, nós que estávamos desde o início, sabíamos que os representantes dos partidos de esquerda sempre lutaram ao nosso lado e estavam ali para somar ao movimento. Por mais que algumas pessoas da Revolta do Busão não concordassem com a presença das bandeiras, por exemplo, a gente defende o direito desses grupos de estarem lá. Para nós, não fazia sentido discutir o direito à cidade restringindo a liberdade de expressão”, pondera o advogado.

O relato dos militantes reforça o argumento de Azevedo sobre as tensões que tiveram início naquela época. À medida em que uma parcela desses manifestantes começaram a se consolidar no campo da centro-direita ou da extrema direita, foram surgindo resistências à esquerda ao longo dos últimos anos. A socióloga prevê que, neste cenário eleitoral, a tensão entre os dois grupos que polarizam o cenário político deve se intensificar, mas com um representante mais ao centro e não Bolsonaro como representante da direita.

“Bolsonaro vai ter apenas oito segundos de TV e ainda precisa dizer para população quais são suas políticas para educação e geração de empregos por exemplo e, por isso, tende a cair ao longo do processo”, analisa.

Do outro lado, a candidatura do ex-presidente Lula, preso desde abril pelo caso do Triplex no Guarujá, continua incerta, devido à Lei da Ficha Limpa, que determina a inegibilidade de condenados em segunda instância pelo período de oito anos.

O cenário incerto deixa a sensação que depois de colocado em xeque o sistema que estava em vigor, nada foi colocado no lugar, como avalia Marcos Nobre em seu artigo para a revista Piauí. O filósofo pondera que, apesar da situação atual parecer “desoladora”, não dá para analisar todo esse processo de forma negativa, sem enxergar suas nuances e potencialidades: “Não se trata aqui, de modo algum, de desconsiderar o desalento generalizado em relação à política que se abateu sobre as pessoas. É um desalento fundado em bases muito concretas. Trata-se, antes, de chamar a atenção para esta pergunta e nela insistir: O que está morrendo é uma das formas possíveis de democracia ou é a própria democracia? E trata-se de propor como resposta: Essa questão é o objeto principal das disputas políticas atuais”, aponta.

 

 

 

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