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Juventude ocupa as ruas em defesa da educação em Natal

Estudantes, professores, centrais sindicais e movimentos sociais, com amplo apoio popular, realizaram nesta quinta-feira (30) mais uma manifestação contra o decreto que bloqueou cerca de 30% nos recursos da educação em instituições públicas de todo o Brasil. Esse foi o terceiro ato contra as medidas do governo Bolsonaro, em Natal, desde o início de maio.

A concentração dos manifestantes teve início às 15h, entre as avenidas Salgado Filho e Bernardo Vieira. Por volta das 16h, eles saíram em passeata e seguiram até a árvore de Mirassol, onde o ato foi finalizado com atividades culturais. Segundo os organizadores, cerca de 40 mil pessoas estiveram nas ruas.

De acordo com levantamento feito pela União Nacional dos Estudantes, aproximadamente 1,8 milhão de pessoas foram às ruas em 186 cidades de 22 estados, além do Distrito Federal. A presença maciça de estudantes e professores nas duas primeiras manifestações em defesa da Educação aponta para uma grande mobilização na greve geral do dia 14 de junho, convocada pelas centrais sindicais.

Entre o público majoritariamente jovem, que compunha o cenário do ato com gritos de ordem e cartazes de protesto, estava a estudante de edificações do IFRN de São Gonçalo do Amarante, Maria Eduarda Oliveira. Para a estudante de 17 anos, os cortes promovem a regressão da educação em instituições como o Instituto Federal, que garantem o ensino, a pesquisa e a extensão.

“A educação é transformadora da sociedade. Se de 15 em 15 dias eu tiver que estar aqui pra lutar pela minha educação, eu virei, porque ela transforma. No meu campi ela muda a vida de muitas pessoas da área rural, assim como em áreas mais afastadas por causa do plano de expansão. O IFRN é capaz de mudar a realidade de várias pessoas, e é por isso que eu luto pelo instituto. Os cortes promovem a desmobilização”, critica.

“Se de 15 em 15 dias eu tiver que estar aqui pra lutar pela minha educação, eu virei, porque ela transforma”.

Maria Eduarda Oliveira, estudante

Também do IFRN, a estudante do terceiro ano de programação de Jogos Digitais no Campi Ceará-Mirim, Victória Manuela conta que seu curso já sente os impactos do bloqueio de recursos anunciados pelo MEC.

“Eu e minha colega fomos credenciadas para uma das maiores feiras aqui do Nordeste na nossa área e não poderemos ir por causa dos cortes. Não terá verba“, desabafa.

A aluna trabalha em um jogo digital sobre agrotóxicos, que objetiva educar crianças referente ao seu uso. “O agrotóxico é outro grande problema no nosso país. O jogo educa”, explica.

A estudante, que carregava uma faixa com os dizeres “Não adianta repressão, lutamos pela educação”, diz que representa, além do corpo estudantil do Instituto Federal, diversas outras pessoas que também serão atingidas com os bloqueios.

“Tô aqui defendendo minha pesquisa, meus professores, meus colegas e minha família que faz de tudo pra eu estar na escola todo dia”, conta.

Victória Manuela, aluna do IFRN Ceará Mirim, diz já sentir os impactos da redução de recursos em seu curso

Diversos pais também estiveram presentes no ato, em defesa da educação gratuita e de qualidade dos filhos. Francinalva Dionísio, que é professora, levou o filho José Miguel, de cinco anos. No cartaz azul, o garoto escreveu “tirem as mãos dos meus sonhos.”

“Isso que está acontecendo é muito importante, por isso trouxe o Miguel. Eu quero que ele possa estudar numa universidade pública igual aos meus sobrinhos”, explica.

“Tirem as mãos dos meus sonhos”

José Miguel, estudante de 5 anos

Poucos passos à frente, Ana Paula Sousa também levou o filho para protestar. Com um cartaz branco e moldura vermelha, Lucas, de sete anos, manifestou-se contra os cortes no orçamento das redes de ensino e em defesa da educação pública:

“Fui aluna de escola pública, me formei na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, minha filha estuda no IFRN e eu acredito na educação pública. Os cortes vão impactar na educação. Trouxe a família toda para participar”, conta Ana Paula.

Sozinho no ato, Nicolas, de 16 anos, é filho de empregada doméstica e sonha em trabalhar nas Forças Armadas do Brasil. Os cortes feitos pelo governo também atingem a rede básica de ensino.

“Infelizmente a educação não é essas coisas todas hoje em dia, e o Bolsonaro ainda reduziu mais. Como dizem, o futuro do Brasil ‘é nóis’ , então por qual razão ele está tirando a educação da gente? Meu sonho é fazer concurso para as Forças Armadas, e para isso eu dependo da educação.”

Lucas protesta em defesa da educação

“Meu sonho é fazer concurso para as Forças Armadas, e para isso eu dependo da educação.”

Nicoles, estudante e filho de empregada doméstica

Presidenta da União Estadual dos Estudantes (UEE),  Yara Costa disse que os movimentos não irão parar no dia 30, mas que permanecem até Bolsonaro retroceder com a decisão dos cortes, sem usá-los como chantagem em dar continuidade à Reforma da Previdência, também alvo de críticas durante a manifestação.

“A gente ainda não está no modelo de educação que a gente quer dentro das escolas e das universidades, mas a gente tá num modelo em que a gente tem a liberdade, autonomia e a responsabilidade de ser jovem e estudante defendendo não só os nossos direitos, mas também o dos trabalhadores”, disse, antes de completar: “Nós não vamos cessar a nossa luta. É junto com os trabalhadores, é junto com os sindicatos, é junto com as centrais. Não vamos baixar a cabeça e não vamos desistir dos nossos sonhos.”

“A gente ainda não está no modelo de educação que queremos dentro das escolas e das universidades, mas estamos num modelo em que temos a liberdade, autonomia e a responsabilidade de ser jovem e estudante”

Yara Costa, presidente da União Estadual dos Estudantes

Pedagoga há 29 anos, Gilda Medeiros conta que em quase três décadas de mobilização assídua em defesa da educação, perpassa hoje pelo quadro mais assustador.

“Faz 29 anos que eu trabalho na educação pública e participo de movimentos assim sempre que precisa. Nunca houve uma coisa tão grave como agora, esse retrocesso terrível, animal, grotesco. Que futuro vamos ter sem educação, sem tecnologia, sem ciência? O país vai ser um grande colônia de selvagens? A gente lutou tanto pra quê? Quantas vidas fora ceifadas pra que a gente tivesse melhorias? Pra agora jogar tudo pro ar? Não, vamos lutar”, decretou.

“Nunca houve uma coisa tão grave como agora, esse retrocesso terrível, animal, grotesco”.

Gilda Medeiros, pedagoga

Pedagoga luta há 29 anos em defesa da educação

Representante da União Estadual dos Estudantes (UEE) e do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Brisa Bracchi criticou a fala em que o Ministro da Educação Abraham Weintraub sugere que a manutenção e limpeza das instituições sejam feitas pelos estudantes. A proposta foi apresentada durante uma reunião com os reitores da UFRN, UFERSA e IFRN, na presença da bancada federal do Estado, como sugestão para as unidades se manterem mesmo após os bloqueios. Só no RN, as três instituições somam R$ 108 milhões em recursos cortados.

“Bolsonaro tem medo dos estudantes e é para ter mesmo. Se o presidente não lembra, a gente ocupou as escolas e as universidades em 2016. Se o presidente não lembra, a gente limpava as escolas em 2016. Mas quando a gente está estudando, existe uma categoria pra isso, não é a gente que precisa fazer a limpeza. Se o presidente não sabe o valor da educação, a gente sabe. Se o Ministro da Educação acha que a gente é idiota útil, a gente vai provar que a gente é o presente, que a gente é o futuro desse país, que a gente tem valor, que ninguém vai barrar a educação. Presidente que não valoriza a educação, não pode ser presidente de uma nação.”

Durante o ato, militantes do PSL e alguns manifestantes se provocaram no momeno em que a passeata passava em frente à sede do partido de Bolsonaro. A Polícia Militar, que fazia segurança no local, interviu.

“Se o presidente não sabe o valor da educação, a gente sabe”

Brisa Bracchi, estudante

 

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