CULTURA

Kalaf Epalanga: “A língua é a primeira ferramenta de opressão”

O escritor, músico e produtor cultural angolano Kalaf Epalanga não morre de amores pela língua portuguesa nem pela identidade física do local onde nasceu. Natural de Benguela, cidade de Angola, é um imigrante, no sentido mais amplo traduzido pela palavra. Kalafa, diz, significa “o sucessor”. Para ele, a palavra na língua do colonizador é primeira forma de opressão no mundo:

– O que nos liga está acima da língua. As palavras oprimem, as palavras não são inclusivas. Essa língua que estamos falando não é minha, nem é nossa. Nos foi imposta. E estamos fazendo algo mais bonito do que os colonizadores. Por isso eu adoro como o nordestino e o funkeiro falam. Porque dessa forma estamos desmontando essa língua. A língua é a primeira ferramenta de opressão. Mudaram nossos nomes. Dissera lá atrás que você não se chama mais Quani, agora é João. Isso aconteceu. Língua ? Língua é o caralho”, afirmou para um plateia de maioria negra, feminina e da periferia carioca, no Museu de Arte do Rio.

 Epalanga foi um dos convidados da Festa Literária Internacional de Paraty e também participou nesta segunda-feira (15) do Encontro das Festas Literárias, organizado no Museu de Arte do Rio. Ao lado do antropólogo Hermano Vianna e do escritor e agitador cultural baiano Quinho Ribeiro, ele compôs a mesa “E por falar em placas tectônicas”, que debateu a importância da música na mudança de comportamentos e da noção de centro para o mundo.

Em junho de 2019, a Organização das Nações Unidos divulgou que o número de refugiados ultrapassou, pela primeira vez na história, 70 milhões de pessoas no mundo.

Epalanga frisou que, embora tenham ganhado grande visibilidade, as migrações no mundo não começaram a partir do governo Donald Trump. Aliás, há séculos cidadãos deixam suas casas obrigadas:

– Todos nós somos imigrantes. E trazemos ideias que às vezes a gente se perde porque fica muito preso à retórica. A vida no dia-a-dia é muito mais intensa e é ali que vida acontece. As migrações acontecem não é de agora. Parece que, de repente, esse flagelo é só de agora, mas há séculos acontece. Jesus Cristo era um imigrante, por exemplo”, disse.

Falaf Epalanga ao lado do antropólogo Hermano Vianna: kuduro e funk na mesa. (foto: Rafael Duarte)

Se Hermano tem a trajetória como pesquisador muito ligada ao funk carioca, com teses de mestrado e livros publicados sobre o gênero, Kalaf Epalanga já se debruçou sobre o Kuduro, gênero rítimico africano. Ele foi o líder da banda portuguesa Buraka Som Sistema.

O angolano mora hoje em Lisboa e roda o mundo. É autor dos livros “História para meninos de cor”, “O angolano que comprou Lisboa” e “Também os brancos sabem dançar”, obra que tem entre seus personagens, o baiano Quinho Ribeiro.

Num momento em que o mundo discute com ódio a imigração em razão de guerras e conflitos territoriais, Kalaf Epalanga é um soldado em defesa de suas origens sociais e afetivas. Ele se queixa, por exemplo, de africanos brancos, mas reconhecidos mundialmente, que não encaram a luta contra a discriminação como a pauta merece.

– Digo que Lisboa é a cidade mais africano da Europa não pela quantidade de negros, mas por esses africanos brancos, que não parecem africanos. Aqui no Brasil vocês reconhecem alguns, como José Eduardo Agualusa, de Angola, e Mia Couto, de Moçambique. Mas eles por condição, medo ou preguiça intelectual vivem na sombra, e eu os provoco constantemente. A melhor forma de evoluir é nos incluirmos a todos”, disse lembrando que as próprias leis discriminam africanos negros na Europa:

– Na Europa imigrantes não podem votar. Mas se você é africano branco, de dupla nacionalidade, o direito de votar é garantido por uma lei. Quando lei pisa na maioria, é obrigação dos africanos se manifestarem. Até porque você tem pessoas numa mesma família com vários tons de pele. Já vi isso acontecer na minha frente. Um parece mais europeu, mais caucasiano, e outo negro”, afirmou.

O angolano destaca o Brasil como o melhor exemplo:

 – “Não há exemplo melhor que o Brasil pra refletir sobre isso. E as pessoas com uma pele mais clara ficam em cima do muro. Se o nosso vizinho não está bem, os problemas dele vão passar o muro e vir para nossa casa também”, disse.

 Questionado pelo mediador sobre a identidade que tem com a própria casa, Kalaf Epalanga mais uma vez retoma a memória afetiva com o passado:

– Sou sustentado por pilares muito concreto, oprimidos durante muito tempo. Mas existe uma memória antes da chegada dos portugueses, onde construo minha identidade. Tenho a sorte de ter isso presente no meu nome, Kalaf Palanga. Sei o que é ser órfão. É duro, muito duro não ter um passado. Saber que sua memória vai parar num ponto específico é muito violento. Não existe dor maior que você vai andar três, quatro, cinco gerações assim. Mas posso dizer que meu nome é Epalanga e imediatamente eles puxam minha biografia. Quando digo meu nome eles perguntam: é do sul ou do norte ? Meu nome é do sul, eles sabem que está ligado a uma tribo. Quando você me pergunta casa, eu digo: está naquelas pessoas. Por isso que acho que o trabalho que o brasil tem que fazer, essa cura, expurgação… nem sei se é possível fazer. O que eu acho possível é avançar, ir pra frente. Pra trás é muita dor. Os nossos velhos são as nossas casas”, disse.

 

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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