OPINIÃO

Karim Aïnouz e o Oscar

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Karim Aïnouz despontou com um filme primoroso, mas que muitas vezes critiquei: ‘Madame Satã’. Critiquei porque é sobre um protagonista fantástico, com um som ruim. Vi no cinema e na televisão, e muitas vezes lamentei as dificuldades da técnica no cinema nacional pós-Retomada. Isso melhorou muito, ainda bem. E Madame Satã ficou marcado na memória de muitos brasileiros como uma obra esteticamente ousada (a fotografia, escura, reforça a dureza da vida e a boemia), que lançou Lázaro Ramos no cinema, e que retrata uma figura que tinha tudo para ser relegada ao esquecimento.

Depois, o diretor fez ‘O Céu de Suely’, quase um road movie sobre uma mulher que volta de São Paulo para casa, no interior do Ceará, com um filho pequeno e muitos sonhos não realizados. Hermila (que tem o mesmo nome de sua intérprete) quer viajar, e resolve rifar uma noite com ela mesma, para conseguir dinheiro. O mote pode aparentar simplicidade, ou provocar repulsa, mas o filme de Karim é tão poético e com poder de identificação tão grande, que é difícil não se encantar. 

Karim ainda dirigiu ‘Alice’, uma série da HBO protagonizada por Andréia Horta que é a cara da juventude hipster de São Paulo nos anos 2000; ‘O Abismo Prateado’, inspirado na canção ‘Olhos nos Olhos’, de Chico Buarque, com uma atuação premiada de Alessandra Negrini; e ‘Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo’, outro road movie que acompanha um geólogo, o então pouco conhecido Irandhir Santos, pelo interior do Nordeste.

A obra-prima do cineasta brasileiro é ‘Praia do Futuro’, que se passa entre Fortaleza e Berlim, as mesmas cidades entre as quais ele mesmo se divide. Protagonizado por um trio forte – Wagner Moura, Clemens Schick e Jesuíta Barbosa – o filme lança luz sobre o pertencimento, a busca por identidade, por identificação. É de uma delicadeza, ao tratar de temas muito profundos, que emociona. Saí do cinema querendo abraçar o Karim e agradecer pela entrega àquele trabalho.

Não é à toa que atores foram citados em todas as menções a filmes neste texto. Karim Aïnouz tem uma habilidade notável para a escolha e direção de atores e em praticamente todos os seus filmes os intérpretes são premiados. Dão vida a personagens que centralizam as histórias (quase não há arcos paralelos aos dos protagonistas) e que falam mais com as expressões e com o gestual que com palavras. São personagens solitários, que precisam preencher vazios e enfrentar preconceitos, mas que nunca estão parados. Estar em movimento é a saída para esses protagonistas.

É este Karim Aïnouz que acaba de ter um filme indicado pelo Brasil para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro, ‘A Vida Invisível de Eurídice Gusmão’. Inspirado no livro homônimo de Martha Batalha, o filme enfoca duas irmãs, uma delas uma pianista prodígio, que são separadas à revelia pelo pai. A obra levou o prêmio ‘Um Certo Olhar’ do Festival de Cannes este ano, e tem atuação de Carol Duarte, Julia Stockler e Fernanda Montenegro.

O filme estreou sexta-feira (30), no Brasil, no Festival Cine Ceará, com homenagem a Karim Aïnouz. E apesar de não tê-lo visto, já torço demais por ele.

 

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