ENTREVISTA, Principal

Khrystal: “Sempre quis vencer em Natal e, humildemente, venci”

Khrystal vive um momento especial na carreira. Longe de casa desde o início de 2018, quando mudou de mala e cuia para o Rio de Janeiro, vem brilhando nos palcos cariocas como uma das sete protagonistas do musical Elza, que celebra a trajetória e a obra da intérprete Elza Soares. O espetáculo fica em cartaz no Rio até o final de setembro e segue em temporada para outras capitais do país. Natal deve receber o musical somente no próximo ano.

O espetáculo vem emocionando quem assiste e tem sido bastante elogiado pelo público, incluindo anônimos e alguns artistas consagrados. Semana passada, Caetano Veloso viu o musical e não se conteve. Foi ao camarim falar com as atrizes, chegou em casa, escreveu um belo texto e publicou nas redes sociais. O compositor baiano citou nominalmente todas as atrizes e cantoras do espetáculo. Sobre a natalense Khrystal, foi categórico: “tem uma dicção de diamante… e como canta!”.

Como tudo na vida da cantora e compositora potiguar de 37 anos, a participação dela no musical Elza foi uma conquista pessoal. Khrystal viu o anúncio no Instagram, se inscreveu, fez o teste e passou. Guardadas as devidas proporções e os períodos distintos, Khrystal e Elza guardam muitas semelhanças. O passado humilde, a luta pela sobrevivência, as dificuldades no início de carreira e os nós que todo artista brasileiro precisa desatar para chegar aonde deseja.

Com três discos lançados, incluindo dois de músicas autorais muito bem avaliados pela crítica especializada, Khrystal está feliz e adaptada à nova cidade. Nesta entrevista, ela conta como está a repercussão do musical, fala sobre atual momento da carreira e projeta novidades para um futuro não tão distante.

Agência Saiba Mais – Como tem sido a repercussão do musical Elza ?

Khrystal – Maravilhosa, é uma montagem muito bem produzida, bem realizada, celebra Elza e todas as lutas que ela representa, tem tocado as pessoas e eu tô muito feliz e honrada de estar vivendo isso ao lado de tanta gente bacana.

Além de cantar e compor, você costuma pesquisa antes de gravar ou até criar. Ainda assim, algo te surpreendeu na história da Elza ?

O que mais me pega nela é o fato de ter passado tanta dificuldade na vida… material, imaterial e ainda assim se manteve leve e amorosa perante a vida. Estar perto dela é celebrativo sempre. Uma preta vencedora, produtiva, pensadora, provocativa… da altura de seus mais de oitenta anos, vive, arrisco dizer, seu melhor momento. É uma inspiração. Na música ela me pegou em muitos pontos. Ficou conhecida como sambista e de fato o é, mas sempre cantou de tudo que tocou sua sensibilidade e no musical eu passo por esses caminhos outros. Canto, por exemplo, o respeito que ela tem pelas prostitutas e um lamento pela morte de um de seus filhos. Elza canta sua vida, seus sentimentos mais profundos e isso me pegou muito. A vida autorizou Elza a cantar, não é truque. Isso é bonito.

Khrystal em cena canta o respeito de Elza por prostitutas

Como foi o encontro com a Elza, o que ela disse à você, o que disseram uma para outra ? 

(Risos). Foi muito gostoso, como já disse, Elza é muito astral. Na ocasião íamos fazer fotos pro (jornal) Globo e era semana de estreia. Fizemos um trechinho da peça pra ela ver, ali mesmo, na sala de seu apartamento. Ela se emocionou, agradeceu muito e disse que no teatro já sabia que ia chorar bastante, o que de fato aconteceu. Nos desejou sorte e nos abençoou. Conversamos sobre a estreia, sobre a alegria dos encontros e sobre Roberto Taufic, que ela ama e eu também.

Como rolou o convite para integrar o espetáculo ?

Eu vi a chamada para os testes no instagram, me inscrevi, fiz o teste e passei.

Como tem sido a troca de experiência com as outras seis cantoras que protagonizam contigo o espetáculo ?

Ahhhhh… as Elzas são babado! Mulheres lindas, fortes, potentes e muito diferentes entre si. Larissa, Júlia, Laís, Verônica, Janamô e Késia são grandes artistas, no dia a dia é um aprendizado atrás do outro e eu só agradeço por tanto acolhimento.

Larissa Luz, Janamô, Júlia Dias, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacorte e Verônica Bonfim.

Sua carreira não começou agora nem é de hoje que você recebe elogios públicos de artistas consagrados. Chico César, Lenine, Alceu Valença e vários outros artistas já enalteceram seu talento.  Quando acontece agora, como com Caetano Veloso, que escreveu um texto citando nominalmente seu nome, e outros artistas que viram o espetáculo, isso ainda mexe com você ? Como você reage ?

Acho que até pelos anos de estrada, fui ficando mais tranquila com isso. Más é lógico que mexe, principalmente quando essa pessoa embalou sua vida, como é o caso de Caetano na minha, uma herança de minhas irmãs. Ele ficou muito comovido com a peça, foi no nosso camarim depois pra falar, pra agradecer..poxa.. eu e Késia cantamos “Língua”, um tema dele que reascendeu a carreira de Elza, foi um troço muito emocionante. Ele querendo saber de onde eu era.. e eu: “sou lá de Natal” e ele.. “é, extremo nordeste, que beleza..” uma pessoa extremamente doce, educada, o elenco todo ali, amando aquele homem, foi lindo. Minha reação é sentir gratidão.

Caetano Veloso foi ao camarim cumprimentar as atrizes após o espetáculo

Como você analisa sua evolução como intérprete a partir do teu primeiro disco Coisa de Preto até o musical Elza ?

Sinto que muita coisa mudou de lá até aqui e mudará ainda um tanto, ainda tenho muita vida pra viver. Mas aos 37 anos me sinto uma intérprete mais consciente, mais pronta e uma mulher mais tranquila perante o mundo.

Natal carrega aquele eterno carma de Cascudo de que não consagra nem desconsagra ninguém. Você acha que para o artista ganhar visibilidade, mesmo hoje com a internet, ainda tem que sair da cidade e seguir carreira no eixo Rio/ São Paulo ?

Passei a vida respondendo essa pergunta com cuidado. Sempre quis vencer em Natal e acho, muito humildemente, que venci. Gravei meus discos e os lancei em Natal, sempre com o público chegando junto, me apoiando, comprando meu barulho. A imprensa sempre abriu espaço, programas de TV, festivais, torcida em peso quando precisa de votação na TV, shows de carnaval inesquecíveis. É muito reconhecimento e sei que viver a vida toda em Natal foi muito importante pra isso. Sou Potiguar e isso é uma realidade que só me orgulha e isso vai comigo pra onde eu for. Mas cheguei aqui no Rio no início do ano e vi tudo que pode ser facilitado para o meu trabalho se eu me mantiver aqui. Então estamos assim. Tenho minha casa em Natal e tenho minha vida no Rio.

“Sempre quis vencer em Natal e acho, muito humildemente, que venci”.

Você já lançou três discos, dois autorais, com ótimas críticas de veículos especializados em música. O que vem depois do musical Elza na carreira de Khrystal ? 

Vem uma parceria nova (que ainda não posso contar), um single para recomeçar os trabalhos. Muita saudade de gravar e tocar ao vivo, vem coisa massa por aí, tô animada!

Você já fez cinema e está fazendo um musical, que é música, mas também é teatro. Você tem se sentido à vontade no papel de atriz ? Como foram essas experiências ?

Hoje me sinto um pouco mais à vontade com essa coisa de ser atriz, é diferente mas é parecido com a música, vem me acrescentado muito, me solicitando de maneira rica.

Khrystal nos preparativos para incorporar Elza Soares no palco

Você tem encontrado brecha para compor novas canções ? Como tem sido a rotina no Rio de Janeiro ?

Folgo três dias e trabalho quatro, sempre à noite, uma rotina deliciosa para uma boa notívaga. No tempo livre eu falo com a família, participo dos shows dos amigos, vejo balé, vou ao cinema, recebo amigos de Natal e sim, tenho feito novas músicas.

O espetáculo no Rio vai até 30 de setembro. E depois, como está o calendário do musical ? Tem previsão de Elza ser apresentado em Natal ?

Tem sim e 2019 é o ano, sei que tem Recife também. Quando a temporada do Rio acabar, faremos Salvador, dou um pulinho em casa e seguimos para temporada em São Paulo. Acredito que o musical tem vida longa.

Elza Soares passou muitas dificuldades antes de se tornar a estrela da música brasileira que é hoje. De certa forma, é uma história que se assemelha à sua. Você pensa nisso ? Elza lhe inspira ? O que vocês duas têm em comum ?

Vivendo Elza todo dia no teatro me faz falar de mim também. Tem coisa que é bem parecido. Ela fica pra mim como símbolo de Fortaleza, luz e superação.

“Elza fica pra mim como símbolo de fortaleza, luz e superação”

Sua vida também dá um musical ? 

Como a vida de qualquer um. Às vezes a gente coloca o sofrimento como um privilégio de um ou outro e eu não tenho esse entendimento. Sofrer faz parte de estar vivo. Quando nasci a primeira coisa que fiz foi chorar, acredito que você também… está no pacote. Acho que dá um musical a história de alguém que fez dessa óbvia realidade uma história bonita pra contar. Elza fez, eu ainda tô correndo atrás.

As sete cantoras do espetáculo com a estrela maior, Elza Soares

Saiba Mais: Caetano Veloso sobre Khrystal: dicção de diamante

Artigo anteriorPróximo artigo
Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *