DEMOCRACIA

Latuff reage aos ataques à charge publicada em prova no Marista: “O bom policial não se identifica com essa charge”

O chargista Latuff se pronunciou nesta quinta (3) sobre a polêmica em Natal provocada pelas charges de autoria dele usadas em uma prova do Marista, escolar particular da capital. Os desenhos trazem personagens negros, num contexto de abordagens policiais na periferia. As figuras faziam parte de uma prova aplicada para alunos do 8º ano do colégio Marista, escola religiosa e uma das mais tradicionais da capital. O pai de um dos alunos não gostou do que viu e postou a crítica numa rede social com imagens da prova. Na postagem, o pai sugere que o Marista se posicione sobre o assunto e que exija exame toxicológico dos professores.

Em um vídeo de pouco mais de dois minutos, Latuff diz que esse tipo de intimidação e patrulhamento ideológico não é novidade. O chargista também argumentou que nem a polícia civil, nem a militar são críticas de arte e que não devem interferir no conteúdo de prova de escola, isso caberia apenas à instituição de ensino e aos professores.

“Sobre charge entendo eu, sobre ensino entende os professores e a escola. A polícia tem que se ater às suas atribuições em relação à segurança pública. Infelizmente, as questões de desvios da polícia no Brasil são um problema muito sério, mas que não conseguimos debater porque são um tabu. Todo aquele que decide discutir violência policial sofre algum tipo de reprimenda. Por isso que me identifico com o movimento dos policiais antifascismo, porque o bom policial não se identifica com essa charge. Queria expressar minha solidariedade com os professores do Marista, não se intimidem porque ainda estamos numa democracia”, ironizou.

Em nota, o colégio Marista explicou que a questão, aplicada durante uma prova na última segunda-feira (1), tinha o objetivo de abordar temas como comportamento humano e a convivência social nos dias atuais, tendo como eixos temáticos a verdade, mentira, respeito, violência e intolerâncias. A escola ressalta que, em nenhum momento, teve a intenção de desmerecer a profissão de policial, tão importante para a sociedade, e ainda se desculpou por ter causado qualquer situação constrangedora à categoria.

O post do pai do aluno já foi apagado das redes sociais. A agência Saiba Mais entrou em contato com ele, mas para preservar a identidade do filho, o nome não será revelado. Numa conversa, breve, o pai do estudante explicou que apagou o post porque não tinha qualquer intenção de ofender os professores.

Não é o que pensa o coordenador-geral do Sindicato dos Trabalhadores de Educação Bruno Vital, que se solidarizou com o professor e afirmou que a situação mostra o tempo em que vivemos, no qual professores são vigiados e combatidos como se fossem inimigos, ao invés de pessoas que contribuem com a sociedade.

“A atividade faz uma reflexão, algumas pessoas podem concordar e outras não. Mas, esse é um fato que existe, principalmente entre os negros, quando observamos as estatísticas de qual é a população que mais morre, que está desempregada. Além de não compreender o sentido da charge e achar que ela sequer deve ser colocada em discussão, o pai ainda acusa os professores ao pedir que façam exame toxicológico. Ao invés de pensar que professores têm função de formar, acham que somos sujeitos perigosos. É um cenário de perseguição ao pensamento, à criação do conhecimento. Temos visto isso com a pandemia, esse tipo de raciocínio que vai contra a ciência e nega a doença. É um sintoma do processo de fascismo na sociedade”, avalia.

A Associação dos Subtenentes e Sargentos da PM e Bombeiros Militares também se pronunciou sobre o assunto. Em nota, a ASSPMBMRN lamenta a associação do policial militar à violência, discriminação e racismo.

“Compreendemos que as charges têm uma função linguística de crítica e expressão de opinião por parte de seu autor. Contudo, diante das três ilustrações seguidas com o mesmo teor de crítica ao policial militar, nos preocupamos com a imagem que tem sido transmitida deste profissional às crianças e adolescentes, e perante a sociedade como um todo. Reconhecemos as limitações que enfrentamos diariamente em nosso ofício, mas reforçamos que os policiais militares, em sua maioria, são comprometidos com a segurança e bem-estar da sociedade, se dedicando a servir e proteger a população. E, como profissionais com esta função, merecemos respeito”.

 

 

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