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Legado da Copa: o que Natal prometeu em 2014 e não entregou até hoje

A cidade-sede imaginada pelo Governo do Estado e pela Prefeitura de Natal para receber a Copa do Mundo de 2014 jamais saiu do papel. Pelo menos não da forma como o Rio Grande do Norte “vendeu” a capital potiguar à Fifa em abril de 2009, um mês antes da organizadora do mundial de futebol anunciar as doze cidades brasileiras contempladas com a oportunidade de sediar jogos da competição esportiva mais tradicional do planeta.

O documento, chancelado pela PricewaterhouseCoopers (PWC), uma das maiores empresas de consultoria do mundo, indicava a realização de 105 intervenções (a maior parte delas públicas) necessárias para adequar o Rio Grande do Norte ao “padrão-Fifa”. O custo total da Copa do Mundo, neste primeiro projeto, seria superior a R$ 6 bilhões e deixaria um ‘legado’ de infraestrutura, saneamento básico, transportes e turismo para o estado.

No entanto, quatro anos depois da Arena das Dunas receber quatro partidas da primeira fase do mundial e quase uma década após o lançamento da pedra-fundamental da candidatura natalense, quase nada foi executado. Ou melhor, praticamente nenhuma obra que geraria impacto direto para a população foi executada de forma completa.

Aproveitando o gancho do início da Copa do Mundo de 2018, a ser disputada na Rússia, a Agência Saiba Mais se debruçou sobre o “Projeto Natal 2014”, encabeçado pela ex-governadora Rosalba Ciarlini e pela ex-prefeita de Natal Micarla de Souza, para medir o impacto efetivo do projeto para a capital potiguar. A série de reportagens especiais será publicada ao longo do próximo mês, seguindo o andamento da 21º edição do torneio disputado por 32 seleções de futebol.

O “primeiro capítulo” desta série fala sobre mobilidade urbana e transportes. Estes dois itens, juntos, significavam um total de 16 obras a serem realizadas no estado. As ações foram divididas entre a Prefeitura de Natal, o Governo do Estado e o Governo Federal. O custo inicial projetado para investimentos era superior a R$ 1,1 bilhão e envolvia, entre outros, a construção de estradas, abertura de vias e inauguração de um novo aeroporto na região metropolitana de Natal.

Mobilidade Urbana

 

Maquete virtual da avenida Engenheiro Roberto Freire: obra fictícia

A construção do complexo Dom Eugênio Sales, no entorno da Arena das Dunas, talvez seja apontada como o principal legado da Copa do Mundo para a mobilidade urbana de Natal. O complexo conta com viadutos, túneis e passarelas e foi construído para liberar o tráfego em um dos maiores gargalos da capital. Construído ao custo de R$ 222,5 milhões, e ainda com obras pendentes, principalmente no que diz respeito à drenagem da área afetada, o equipamento de mobilidade não está descrito no caderno de encargos entregue à Fifa.

O documento produzido pela PricewaterhouseCoopers aponta como fundamentais obras de revitalização da Avenida Engenheiro Roberto Freire e da Via Costeira, a construção de um terceiro acesso de ligação entre as zonas Norte e Sul da cidade, além da manutenção de estradas no interior do estado e a execução do anel viário de Natal, conhecido como Pró-Transporte. Nenhuma destas obras, no entanto, está concluída. Algumas sequer foram iniciadas, seja por problema de projeto ou entraves ambientais, como no caso da revitalização da Roberto Freire.

O Governo do Estado espera inaugurar ainda neste ano o anel viário de Natal, o Pró-Transporte, e encaminhar a finalização da terceira ponte sobre o Rio Potengi, que ligará a zona Oeste de Natal ao acesso sul do aeroporto de São Gonçalo do Amarante. No entanto, segundo o Departamento de Estradas de Rodagem (DER/RN) não é possível afirmar quando as obras estarão finalizadas. As demais, não há prazo para execução.

Abaixo, listamos as obras de mobilidade urbana empregadas no relatório encaminhado à Fifa em abril de 2009 e a sua situação atual:

Via expressa norte-sul

Terceira ponte substituiu projeto original abandonado

Plano executivo: construção de uma via de integração entre a Zona Norte e a Zona Sul de Natal. Sem estudo de viabilidade ambiental ou projeto concluído. Alto risco de desapropriações. Sem custo inicial definido.

Execução: o Governo do Estado está construindo uma terceira ponte sobre o Rio Potengi que fará a integração entre a zona Oeste de Natal e o acesso ao aeroporto de São Gonçalo do Amarante. Embora não seja uma via expressa entre as zonas Norte e Sul, surge como uma terceira opção de deslocamento entre as regiões da cidade. O projeto original foi deixado de lado devido ao excesso de desapropriações previstas e impactos ambientais.

Acesso ao novo aeroporto

Plano executivo: Programa Via-Metropolitana previa a construção de 29km de estradas até o novo aeroporto de Natal, construído em São Gonçalo do Amarante. Custo estimado de R$ 80 milhões. Sem detalhamento do projeto. Risco médio de execução.

Execução: no mês passado, o DER anunciou a liberação do acesso sul para o aeroporto de São Gonçalo do Amaranto. O trecho que liga a BR-304 ao aeroporto está 99% concluído, segundo o Departamento Estadual de Rodagens. Apenas esta etapa da obra, com 12km, consumiu R$ 76 milhões. O acesso Norte, a partir da BR-406, foi entregue ainda em 2014. O orçamento atualizado em 2016 indicava que os acessos custariam R$ 94 milhões, R$ 14 milhões a mais do indicado inicialmente.

Prolongamento da Prudente de Morais

Plano executivo: criação de corredor expresso entre a Arena das Dunas e o aeroporto de Parnamirim. Custo de R$ 28 milhões. Risco médio de execução.

Execução: com a desativação do aeroporto Augusto Severo, em Parnamirim, o prolongamento da Avenida Prudente de Morais perdeu o seu principal sentido, que era ligar por meio de uma via expressa o terminal a Arena das Dunas. Ainda assim, a obra é considerada um dos principais braços de mobilidade urbana da região metropolitana de Natal, por oferecer mais um acesso às BRs 101 e 304. A obra consumiu mais de R$ 30 milhões.

Duplicação do acesso a Praia da Pipa

Plano executivo: duplicar o acesso à Praia da Pipa. Estrada com 24km de extensão. Custo da obra: R$ 46 milhões. Risco médio de execução.

Execução: projeto não saiu do papel. O Governo do Estado chegou a anunciar um plano para construir um novo acesso à mais famosa praia do Rio Grande do Norte, mas também não executou a obra. Atualmente, não há previsão para executar este serviço.

Remodelação da Via Costeira

Plano executivo: manutenção e implantação de melhorias na RN 301 (Via Costeira) entre Areia Preta e o trevo da Roberto Freire. Custo estimado de R$ 6 milhões. Projeto havia sido iniciado em 2006, mas apresentava riscos de execução. Projeto descreve a obra como importante legado para mobilidade urbana da cidade.

Execução: ao longo dos últimos anos, a Via Costeira não recebeu nenhuma obra de infraestrutura. O DER não soube informar se há um plano para adequação da rodovia, que dá acesso aos principais hotéis da capital.

Duplicação da BR-101

Plano executivo: adequação de tráfego na BR-101, trecho no nordeste. 81km no Rio Grande do Norte. Custo total de R$ 404 milhões.

Execução: obra de responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. A duplicação da BR-101, no trecho que compreende o Rio Grande do Norte, foi concluído antes do início da Copa do Mundo. Atualmente, a rodovia passa por um processo de adequação ao tráfego de veículos na Grande Natal.

Recuperação de rodovias estaduais

Plano executivo: recuperação de 500 quilômetros de rodovias estaduais no interior do estado. Sem custo estimado. Risco médio de execução.

Execução: Em 2017, a Confederação Nacional de Transportes (CNT) classificou 54% das rodovias do Rio Grande do Norte como regulares, ruins ou péssimas. Em contrapartida, o DER anunciou a recuperação de 100 quilômetros de rodovias. Ainda assim, o montante é bem distante do previsto para a Copa de 2014.

Transportes

O setor de transportes também era apontado como vetor passível de receber investimentos elevados visando a Copa do Mundo de 2014. O caderno de encargos para o mundial indicava a necessidade de reformas no sistema de trens urbanos e na rodoviária de Natal, no terminal portuário e também no aeroporto Augusto Severo. Além disso, o documento também abordava a necessidade de construção do aeroporto de São Gonçalo do Amarante, que ampliaria o potencial turístico local.

Esse item é bastante complexo. A rodoviária de Natal, por exemplo, foi entregue, por meio de concessão, à iniciativa privada e teve sua reforma para a Copa do Mundo custeada numa parceria público-privada (PPP). Uma PPP também garantiu o início da operação do aeroporto de São Gonçalo do Amarante, administrado pela Inframérica. As adequações no terminal portuário e no sistema ferroviário, porém, não foram executadas de forma definitiva. O aeroporto de Parnamirim acabou desativado depois de passar por reforma.

Veja o detalhamento dessas obras:

Rodoviária

Plano executivo: reforma e ampliação do terminal rodoviário. Risco médio. Influência no aumento turístico em Natal. Orçamento inicial: R$ 2,6 milhões

Execução: reforma e ampliação foram feitas a tempo da Copa do Mundo. Orçamento final: R$ 4 milhões. Investimento privado por meio de concessão.

 

CBTU

Plano executivo: operação com 12 VLTs, sendo 7 na linha norte e quatro na linha sul, além de um reserva. Tempo entre viagens, nos horários de pico, de apenas três minutos. Implantação de estações a cada três quilômetros. Orçamento inicial: R$ 167 milhões.

Execução: a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) não retornou ligações e e-mais enviados pela agência Saiba Mais para esclarecimentos sobre investimentos realizados nos últimos anos. No entanto, em consulta ao site da companhia, fica claro que a CBTU não cumpre o tempo previsto de três minutos de intervalo entre saída de três em horários de pico. Pelo contrário. Por outro lado, a CBTU promoveu a substituição das antigas máquinas por modernos VLTs. As estações dos trens, no entanto, não foram reformadas e nem implantadas a cada três quilômetros de linha férrea.

Terminal Portuário

Plano executivo: Operação de dragagem e derrocagem do rio Potengi. Reforma do terminal de passageiros. Ampliação e reforma do terminal salineiro de Areia Branca, na Costa Branca. Custo estimado de R$ 180 milhões.

Execução: Em nota, a assessoria de comunicação da Companhia Docas do RN, que administra os portos locais, informou que apenas investimentos no Porto de Natal entraram no PAC para a Copa. Segundo a Codern, R$ 73 milhões foram investidos no local para a recuperação do antigo frigorífico, retroárea do Berço 01, ampliação e recuperação da faixa de cais, construção de um dolphin de atracação e construção do Terminal Marítimo de Passageiros.

Reforma terminal do Aeroporto Augusto Severo

Plano executivo: reforma e ampliação do terminal de passageiros do Aeroporto Augusto Severo. Ampliação da capacidade de receber passageiros, saltando de 1,5 milhão para 2,4 milhões de passageiros/ano. Custo da obra: R$ 14 milhões.

Execução: obra foi feita dentro do prazo, mas o aeroporto acabou desativado antes do início da Copa do Mundo.

 

Aeroporto de São Gonçalo do Amarante

Plano executivo: construção de um novo aeroporto em São Gonçalo do Amarante com capacidade inicial para receber até 5 milhões de passageiros/ano. Projeto previa apenas a construção das pistas do novo aeroporto, visto que ainda não havia projeto para construção do terminal. Custo estimado: R$ 130 milhões. Risco médio. Obra tratada como fundamental para alavancar o turismo e a economia do estado.

Execução: o aeroporto de São Gonçalo do Amarante foi inaugurado às vésperas do início da Copa do Mundo. O consórcio Inframérica investiu R$ 500 milhões na construção do terminal de passageiros e administra o aeroporto. Quanto a movimentação de passageiros, no último ano, 2,4 milhões de pessoas passaram pelo terminal. O montante é menos da metade do previsto inicialmente.

 

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