CULTURA

Leia Mulheres, o lugar de fala da literatura feminina

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A criação de grupos que incentivem a leitura de obras femininas tem impedido que autoras como Chimamanda Ngozi Adichie, Octavia Butler, Clarice Lispector e Margaret Atwood passem despercebidas pelas prateleiras, em razão da preferência quase hegemônica das editoras, ao longo dos anos, por nomes masculinos.

No Brasil, o grupo Leia Mulheres, que promove o debate de livros escritos por mulheres, tem contribuído com essa visibilidade às autoras, de clássicas a contemporâneas. O grupo surgiu em São Paulo, em 2015, inspirado na ideia da escritora britânica Joanna Walsh, que em 2014 mobilizou usuários do twitter com a hashtag #readwomen201. Hoje, o grupo tem células em mais de 100 municípios por todo o Brasil.

Em Natal, a ideia chegou um ano depois, em 2016, por iniciativa de Maíra Dal’Maz. A revisora textual conheceu o projeto através de amigas que atuavam em outros estados.

“Com vontade de fazer a mesma coisa, eu entrei em contato com as meninas de São Paulo, responsáveis pela iniciativa desde o início, e elas me orientaram. Como grupo, temos o objetivo de dar essa visibilidade aos livros feitos por mulheres, já que parte da ideia do mercado é ser masculino”, destaca.

Projeto Leia Mulheres acontece em 5 municípios do Rio Grande do Norte

Os encontros acontecem uma vez por mês e um livro é debatido em cada encontro. Além de Natal, o Leia Mulher acontece em outros quatro municípios do Rio Grande do Norte: Mossoró, Açu, Parnamirim e Apodi.

Segundo a fundadora, a ideia é que, dentro de um mercado que gira em torno do consumo, seja possível consumir também a literatura que é feita por uma mulher.

“Quando a gente se reuniu pela primeira vez, a gente não conseguiu fazer uma lista de dez mulheres que a gente conhecia e que queria ler. Isso foi muito sintomático. Nós somos mulheres, somos leitoras, e mesmo assim nós não conhecíamos mulheres suficiente pra colocar o projeto pra frente. Depois do Leia esse mundo se abriu e as referências começaram a chegar de forma intensa”, relata.

Além de Maíra, outras três mulheres mediam o debate. Uma delas é Danielle Sousa, professora de História em uma escola estadual e atuante no grupo desde o início. A mediadora conta que encontrar espaço para os encontros tem sido uma tarefa difícil, já que o grupo tem crescido nos últimos meses e as opções na cidade são restritas.

“Alguns lugares querem cobrar e nós não ganhamos nada com isso. Então, a gente procura um espaço gratuito, que tenha um espaço mínimo pra gente se ouvir e se olhar, já que é sempre uma roda de conversa. No início do grupo, contávamos só com umas seis pessoas, incluindo as mediadoras, e hoje nos reunimos com cerca de 30 pessoas. Já chegamos a fazer debates com quase 50”, conta.

Para Isabela Coelho, também responsável pelo Leia local, o grupo acaba suprindo a carência que existe de obras feitas por mulheres na formação dos leitores.

“Eu sei o quanto é importante pra cada uma sentar aqui, trocar ideia. Modifica o paradigma. Quando se fala em literatura, se falam de homens, então a gente quebra essa narrativa e faz a literatura ser plural. Além disso, também damos vozes à escritoras locais”

Cearense, Thainá Fiuza frequenta os debates desde que se mudou para a capital potiguar. Na época, a mestranda em Bioinformática estava procurando um grupo de mulheres em que pudesse interagir, e encontrou o Leia através do Facebook. Segundo ela, tem lido livros que via de regra não leria caso estivesse fora do grupo.

“Às vezes o livro é de uma mulher que você nunca ouviu falar, especialmente as regionais que são um nicho específico e que talvez você não tivesse acesso de outra maneira. Essa curadoria que elas fazem é muito boa, sempre saio energizada dos encontros”, disse.

Maíra Dal’Maz, Isabela Helena, Danielle Sousa e Laíza Félix são as mediadoras do Leia Mulheres, em Natal (RN)

Jonas Andrade, de 20 anos, visitou o grupo no sábado (25) pela primeira vez. O estudante disse que pretende continuar frequentando as rodas, já que as conversas lhe abriram a mente para diversas reflexões.

“Fiquei com medo de não ser meu lugar de fala, mas aprendi muito. No finalzinho criei coragem e falei também. A escritora desse livro foi a primeira autora potiguar que eu li, não tenho esse hábito”, conta.

Para Maíra, a presença de homens no grupo não só é permitida, como também necessária:

“Eu defendo o que a Chimamanda diz, de que o feminismo só vai conseguir atingir a dimensão que a gente quer se tiver homens como aliados. Do que adianta falar pra gente e só pra gente, se o problema muitas vezes vem do outro gênero? Se esse gênero não pode escutar a gente, estar em locais com a gente, ele nunca vai entender, já que é difícil você se deslocar como homem e se colocar no papel da mulher. Acho fundamental que participem também, apesar de ser bom o fato da maioria aqui ser mulher.”

“Meus poemas são pro mundo”

Regina Azevedo, de 19 anos, é uma das autoras potiguares já contempladas em uma reunião do grupo. No sábado, dia 25, as páginas do livro Pirueta da jovem escritora protagonizaram uma conversa de quase três horas sob a ótica de quase 30 participantes.

“Até agora, foi a melhor experiência da minha vida como poeta. É lindo ver seu texto reverberando. Desde que eu comecei a escrever, sempre quis chegar em alguém. Escrevo poesia porque eu preciso muito, então quando outra pessoa que também precisa muito lê aquele texto e faz sentido pra ela, é a coisa mais linda. Faz sentido escrever”, relata.

Pirueta é a segunda edição de um livro de poemas que trata, entre outras interpretações, sobre a capacidade de se reinventar. Segundo Regina, os escritos são de um momento pessoal em que os amores estavam “começando e acabando”, mas que gera identificação nos leitores por diversos contextos:

“O mais legal é que a pessoa sinta, não importa o quê. Essa identificação que a literatura gera é incrível. Muitas vezes um poema explica um momento nosso, mas pro leitor sempre será diferente. Meus poemas são pro mundo, e quando eles encontram um leitor, eles vivem realmente, eles fazem sentido.”

Além de Pirueta, a estudante, que escreve desde os 13 anos, tem outros dois livros já publicados. Das vezes que morri em você, de 2013, e Por isso amo em azul intenso, de 2015.

Poeta Regina Azevedo teve o livro “Pirueta” debatido por quase 30 pessoas em maio

Livros escolhidos

Janeiro – Garotas Mortas, de Selva Almada
Fevereiro – Parafusos, de Ellen Forney
Março – Nossa senhora do Nilo, de Scholastique Mukassonga
Abril – Heroínas Negras brasileiras, de Jarid Arraes
Maio – Pirueta, de Regina Azevedo
Junho – Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, de Maya Angelou

Os livros a serem lidos no segundo semestre de 2019 ainda serão divulgados.

Leia Mulheres no RN

Apodi
Mediadoras: Jacqueline Lopes, Maressa Libna, Patrícia Raposo e Poliana Raposo.
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Açu
Mediadoras: Dayse Moura, Jaiza Dutra, Luma Virgínia, Nayara Xavier e Yamara Santos.
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Mossoró
Mediadoras: Diana Duarte, Edja Lemos, Fernanda Mesquita e Roberta Pereira
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Natal
Mediadoras: Maíra Dal’Maz, Isabela Helena, Danielle Sousa e Laíza Félix
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Parnamirim
Mediadoras: Ádila Santos, Camila Souza, Fernanda Thayná e Luma Virgínia
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