OPINIÃO

Leite

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Nos primeiros raios do sol ameno do brejo paraibano, há quase duas décadas eu experimentei pela primeira vez um leite de vaca puro. Da teta ao copo, e do copo às minhas papilas gustativas de menino mané mago.

Sr Assis, figura muito importante na construção de minhas lembranças e experiências das feiras de sábado, da lida das criações e das entradas nos imensos bananais de Alagoa nova, fazia a ordenha como um lorde.

A relação da vaca com quem a toca tem que ser sincera e pura, como se o bicho confiasse a sua maior joia somente àquelas duas mãos. Entre caricias, respirações de espera e suaves puxadas, o marfim liquido se apresentava em forma de espuma e de odor doce da vida.

Zeus ao escapar dos dentes de Cronos, se alimentou e sobreviveu devido ao leite de Aix, a cabra de Adamanteia. Isso nos dá uma ideia da importância do leite de cabra na Europa, com seus roqueforts, camemberts e tudo que é variedade de queijo azul, intensos e inebriantes.

O leite é tratado como monarca há pelo menos 6 mil anos. Desde os banhos da aristocracia de Roma até Sr Manel leiteiro, que buzinava em ritmo frenético para anunciar na rua da estrelinha que o leite estava disponível em sua moto com dois cilindros de metal abarrotados. As vizinhas logo saiam com suas respectivas vasilhas pois sabiam que Sr Manel era de confiança e não colocava agua no leite.

Os esquimós bebem leite de foca, com um teor abissal de gordura para aguentar o frio do ártico. Os árabes acham absurdo o consumo do leite de vaca, preferem o de cabra, desde que esteja azedo e quente.

As adaptações gastronômicas fizeram surgir os leites de amêndoas, que é um substituto delicioso para aqueles que tem intolerância a lactose e aos que não são adeptos de proteína animal. O leite de castanhas de caju cozidas é um abraço aveludado na boca e com tudo casa bem.

Já o coco se amostra enquanto pode quando o assunto é leite, a cozinha litorânea brasileira só se compara a tailandesa no emprego do leite de coco. Carlos Alberto Doria, um gigante da pesquisa em alimentação no brasil, diz que o leite de coco deixa as moquecas litorâneas meio apáticas e consensuais, mas já estou providenciando uma feita por Donizete para mandar para ele, com certeza mudará de opinião.

Leite de jumenta para criança fraquinha, para prisão de ventre ou até mesmo como rejuvenescedor, segundo Hipócrates e a sapiência sertaneja. Nos andes as alpacas e lhamas fornecem o liquido da vida ao seu gentio, e chamam a ‘água’ da desidratação que escorre do ceviche de “leche de tigre”.

Na nossa cultura de vacarias, leite vai no arroz, no cuscuz, no doce, na ‘vitamina’ matinal, na canjica, na pamonha, nas coalhadas das selas dos vaqueiros e em tudo que se possa por, até mesmo na farinha para dar ao lourinho/riquinho, o periquito de minha bisavó, que era uma figura de penas verdes extremamente exigente com a temperatura de seu acepipe favorito

Faz tempo que luto para que vovoinha me passe a receita do doce de leite caroçudo que ela faz, creio que ela não quer me dizer para que eu possa estar sempre pedindo para ela fazer. Doce de leite com bolinhas do talho causado pela acidez das raspas de limão que ela põe na panela. Nosso “docinho pra tomar agua depois do almoço” era esse doce de leite caroçudo com uma tora de queijo coalho, leite com leite.

Se o êxodo capitaneado por Moisés fosse nos dias de hoje a direção da terra prometida, que jorra leite e mel, com certeza apontaria para as terras do Cabugi.

Polêmico, como tudo que é intenso, o leite já foi chamado de pus, de secreção, já foi enaltecido demais, desprezado demais, amigo pra uns, inimigo para outros tantos, consenso e dissenso. Fato é que sua força não pode ser subjugada jamais.

Algumas “amebas” com traços hominídeos querem colocá-lo como símbolo de uma “supremacia ameboide” e obsoleta. Já tive raiva, hoje tenho pena, pois creio que esses seres, limitados que são, coitados, nunca conseguirão compreender que o leite representa justamente o contrário de segregação. Pois é ele, a primeira coisa que nós mamíferos, em qualquer centímetro desse planeta, colocamos na boca. Não há um alimento que deveria representar mais a união e a vida que o leite.

Compartilho com vocês uma preparação muito simples, mas que habitou a janta la de casa em muitas ocasiões. Na época, como bom mini humano, tratava com o “ah mãe, de novo? ” de quem não compreendia a função daquela refeição.

Hoje, peno para encontrar um leite tão bom quanto o de Sr Manel para tentar reviver as lembranças do cuscuz com leite. Em dias de bonança mais leite que cuscuz. Lá em mamãe, com açúcar. Lá em papai, com sal. O leite quente extrai um sabor encorpado do milho, que é simplesmente indescritível. Hoje, a um RN de distância, só gostaria de agradecer a mamãe por tudo, e mais ainda pelo cuscuz com leite e açúcar de tantos serenos carinhosos.

 

 

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