OPINIÃO

Lembra do Aécio ?

É bom lembrar que Aécio entrou na disputa presidencial de 2014 com números inexpressivos, mas encontrou no ódio ao PT o Santo Graal que qualquer candidato sem chances sonharia encontrar. Destilou esse ódio como pode, de todas as maneiras, e contaminou milhares de pessoas pelo país. Aécio ajudou a espalhar essa coisa ruim que a gente hoje identifica como intolerância. E o fez porque queria ganhar. Só por isso.

É bom lembrar que Aécio partiu pra cima de Dilma Rousseff, então presidenta tentando a reeleição, sem nenhum melindre. Em um dos embates, que deveria ser um debate, Aécio chamou a então presidenta de mentirosa. Sem medo das consequências. Não é todo dia que um senador da República ergue o dedo na cara da chefe maior do país para chamá-la de mentirosa. Muitos deliraram de prazer. Muitos mesmo. Diziam que Aécio era corajoso, que disse o que todos queriam dizer. O ovo da serpente tinha rachado. Aécio libertou o monstro.

É bom lembrar que Aécio percebeu bem rápido que a estratégia funcionava. Até então as campanhas políticas no Brasil exploravam apenas a esperança (tudo vai mudar) ou o medo (“Eu tenho medo” – DUARTE, Regina). Aécio nos presenteou com seu ódio. Vendo as intenções de voto subirem, fez acusações virulentas, discursos inflamados, odes à maioria calada que Nixon imortalizou. Let’s make Brazil greater again. Virou baluarte da moral. O candidato anticorrupção. O salvador da pátria. O cidadão de bem. Em seu nome, irmãos se digladiaram nos grupos de Whatsapp, amizades foram desfeitas com o peso do unfollow, o pior do brasileiro veio à tona sem nenhum pudor. É bom lembrar.

A propósito, é bom lembrar que os autodenominados “cidadãos de bem” veneravam Aécio com um amor quase hedonista. Ele era denotativamente um homem-branco-hétero-cis e dava eco em seus discursos a tudo que os metaforicamente homens-brancos-héteros-cis acreditavam – a misoginia, o machismo, a homofobia, a truculência, a arrogância, o elitismo, o discurso de soluções fáceis e impostações perfeitas. Os autodenominados “cidadãos de bem” adoraram essa combinação. Foi assim que o melhor argumento para não votar em Dilma passou a ser “ela é uma ridícula”. A nossa política sempre esteve à beira do esgoto, mas foi naquela eleição que deram descarga.

É bom lembrar que Aécio quase empatou com Dilma. Foram 54,5 milhões de votos para a petista contra 51 milhões do tucano. Numa eleição marcada pela abstenção de mais de 20% da população, a diferença entre os dois não chegou nem a 4% dos votos válidos. E aqui peço desculpas para me repetir: é bom lembrar que 51 milhões de brasileiros acreditaram em Aécio – muito embora eu continue achando que muitos não se enganaram: sabiam exatamente em quem estavam votando, e votaram porque era isso mesmo que queriam pro Brasil. A eleição mais acirrada das últimas décadas quase elegeu o primeiro a ser comido.

É bom lembrar que Aécio comemorou antes da hora com seus amiguinhos brancos-héteros-cis. Aliás, um recado: Caro Luciano Huck, não adiantou nada apagar fotos de Aécio da sua timeline. Aquele instantâneo dos dois decepcionados ao saber o real resultado das urnas é eterno. Refletia o que 51 milhões de brasileiros estavam sentindo. Dilma Rousseff ganhou. Dilma Rousseff foi eleita. Dilma Rousseff foi a escolhida pelo povo. É bom lembrar.

É bom lembrar também que Aécio pediu recontagem de votos. Inconformado com a derrota, fez um escarcéu em rede nacional e contou com a mãozinha sempre generosa da mídia que, tempos depois, receberia a alcunha de golpista. A mesma mídia, inclusive, que construiu Aécio. A imagem de rapaz perfeito. O sorriso sempre alvo. As imagens milimetricamente pensadas para agradar. É bom lembrar que teve bastante mídia nessa história, viu?

É bom lembrar que Aécio acusou Dilma de uso indevido da máquina pública e nunca conseguiu provar nada. E depois esperneou no Senado para impedir os projetos do Governo. E capitaneou o processo de impeachment como se uma vingança. E conseguiu. Dilma foi deposta sem que nunca se tivesse provado qualquer crime de responsabilidade, Temer assumiu a presidência da República e o Brasil voltou ao mapa da fome. Agradeçam ao Aécio.

É bom lembrar que no famoso áudio de Romero Jucá, vazado pela Folha de São Paulo em meio à guerra que foi o processo de impeachment de Dilma Rousseff, Aécio foi citado com bastante carinho por Sérgio Machado, ex-líder do PSDB no Senado. Em um trecho icônico, Machado diz que “o primeiro a ser comido vai ser o Aécio“. E ainda completa: “Quem não conhece o esquema do Aécio?”. O vazamento causou a queda do então ministro do planejamento do Governo Temer, Romero Jucá, que virou líder do governo no Senado e vice-líder no Congresso Nacional. Com Aécio, não aconteceu nada. Aparentemente, se todos sabiam do esquema de Aécio, ninguém estava a fim de dizer.

Por falar em áudio, é bom lembrar que as investigações que levaram o senador mineiro ao banco dos réus também têm seu sucesso radiofônico. Dentre as pérolas dos áudios de Aécio, destaco a que ele sugere matar o próprio primo caso este assine uma delação premiada. Não dá pra saber se foi uma piada de mau gosto ou uma verdade corriqueira que, de tão corriqueira, saiu como galhofa. O que a gente sabe é que foi dita por um senador da República. Senador que representa o segundo maior colégio eleitoral do Brasil. Senador que quase foi eleito presidente da República em 2014. Quase.

É bom lembrar que há um ano Aécio foi afastado da função de senador pelo STF. Corrupção passiva e obstrução de justiça. E isso desencadeou uma crise institucional tão grande, mas tão grande, que mobilizou Governo Federal, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal para resolvê-la. Ninguém nunca explicou direito porque Aécio era importante a ponto de unir os três poderes da República em torno do seu nome. Mas em 30 de junho de 2017, menos de dois meses depois do afastamento, o STF autorizou a volta dele ao Senado ao mesmo tempo em que negou o pedido da PGR para sua prisão, alegando que Aécio tinha uma carreira elogiável. Com o Supremo, com tudo.

É bom lembrar. Porque esta semana Aécio, que foi algoz convicto de uma mulher contra a qual nunca se provou nada, que conseguiu 51 milhões de votos dizendo que lutaria contra a corrupção, que apoiou as descabidas reformas do Governo Temer jurando que era pelo bem do país, virou réu na Lava Jato. Por unanimidade. Com provas contundentes. E com uma defesa risível. Ele alega que estava apenas pedindo um empréstimo de 2 milhões de reais a Joesley Batista. Ele ainda tem coragem de alegar alguma coisa.

51 milhões de Aécios querem esquecer. Mas é bom lembrar.

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Patrício Júnior
Patrício Jr. é escritor, publicitário e jornalista. Escreve às quartas-feiras.

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