OPINIÃO

lembranças e vozes

Eveline Sin escreve às quartas-feiras na agência Saiba Mais
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passam anos. dias. o tempo. e carrego comigo um exercício. lembrar de vozes. vozes das pessoas que amo me interessam mais. basta fechar o olho e se concentrar na voz de quem você quer lembrar. isso tem que ser repetido sempre pra que o som da voz não se perca nas loucuras de nossa memória. dia desses me dei conta que estou esquecendo a voz do meu avô. há mais de 20 anos ele virou delírio. e há mais de 20 anos faço sempre esse exercício pra não esquecer de sua voz. que desespero. o som da voz dele está sumindo. eu fico aqui pelejando pra me agarrar no último fio de sua língua. eu não quero imaginar que não olharia de pronto para trás se ele me chamasse pelos cantos dessa cidade torta. numa curva. se de cabeça baixa num lugar qualquer, não levantaria na hora, na primeira sílaba pronunciada. daquele jeito dele. todo mundo tem um jeito com a palavra. um jeito da fala. a do meu avô era relíquia. eu não posso esquecer. me agarro de novo em sua língua.

a voz de minha avó é tão viva. ela virou de lírio ano passado. porque minha avó só podia virar flor. Peixes. um perfume. doce de padaria. um raio. nuvem carregada. um filhote de tartaruga correndo pro mar. céu aberto. um coração batendo em toda pessoa. qualquer coisa mansa. um bicho. qualquer coisa forte. um rinoceronte. minha avó é qualquer coisa linda. o silêncio. a voz. vivemos mais tempo juntas. está mais nítida. enquanto escrevo consigo ouvi-la aqui, pendurada na minha orelha. certeira nas expressões. simples, simples demais. minha avó era uma casa de barro molhada no meio de uma floresta fechada de verde. minha avó era verde. era azul também. minha avó era um mar. era mais chão que mar. era uma raiz. raiz forte. eu tenho um medo danado de esquecer da voz dela. muito mais do que o medo que sinto agora por perceber que estou esquecendo a voz de meu avô.

enquanto o vento
corta tua garganta
as folhas varrem
o terreiro
a água que corre
pelas telhas
vira bica
nos teus olhos
me pintando
não procuro
mais palavra
essa despida
faca
despedida
afia nosso
sim.

e tem a voz do amor. feche os olhos. lembrou? feche os olhos. lembrou? de novo. lembrou? agora. lembrou? mais uma vez. lembrou? fechei meus olhos. lembrei. me chamou. tem a voz dxs amigxs. lembro da voz de todxs elxs. das mais antigas. da criança que cresceu. a voz do meu pai. a voz da minha mãe. a voz de uma mãe é a voz dos pássaros. é a voz da mão segura. forte. um peito. a voz da minha mãe é o seu coração batendo no meu ouvido. tem minhas vozes preferidas de meninas. minhas. e tem a nossa voz que é um grito de todas elas. e tem o nosso grito. e tem o tempo do grito. que é agora. pra que nossa voz seja ouvida. e mais que isso. pra que nossa voz seja lembrada. sem exercício. chegue longe. gritemos alto nesse tempo de horror.

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Eveline Sin é artista, poeta e grafiteira. Escreve às quartas-feiras.