DEMOCRACIA

Leonardo Boff: “Lula é refém da política punitiva contra os pobres”

Teólogo e um dos maiores intelectuais progressistas do país, Leonardo Boff foi o convidado na quarta-feira (13) do projeto Na Trilha da Democracia, iniciativa criada em 2016 pela Adurn-Sindicato em parceria com o SindPetro e a Frente Brasil Popular.

Ligado à esquerda progressista e muito próximo do ex-presidente Lula, Leonardo Boff é um dos principais expoentes da teologia da libertação, corrente da igreja católica nascida na América Latina que parte da premissa de que o Evangelho faz a opção pelos pobres.

Durante o evento, Boff emocionou o público ao falar do estado de saúde e de espírito do ex-presidente Lula e chorou duas vezes, ao lembrar a reação de Lula diante da morte do neto Arthur e falando sobre as condições do Brasil em meio a um governo sem rumo.

A vinda de Boff a Natal faz parte das comemorações pelos 40 anos da Adurn-Sindicato em 2019. Nomes como o dos jornalistas Luís Nassif, Paulo Henrique Amorim e da ex-presidenta da República Dilma Rousseff já passaram pelo projeto Na Trilha da Democracia.

O teólogo Leonardo Boff conversou com jornalistas na terça-feira e falou sobre conjuntura política do país.

Questionado sobre o papel da igreja na conjuntura atual onde movimentos sociais e sindicais vêm sendo perseguidos pelo Estado, ele afirma que a igreja está reassumindo um papel de denuncia em favor das minorias sociais:

– A igreja está novamente despertando para uma dimensão profética porque se dá conta de que as medidas que estão sendo tomadas, como projetos sociais já abandonados e a reforma da Previdência, vão prejudicar os mais pobres. A igreja está assumindo uma posição de denúncia. Ela não tem a hegemonia do discurso, mas vem se colocando ao lado dos mais pobres. A igreja historicamente sempre esteve ao lado do poder e compunha o quadro social e político como instância de equilíbrio, mas sempre ao lado do poder. A partir dos anos 1950 com profetas, como Dom Helder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, a igreja foi um dos grandes baluartes em defesa da democracia, dos direitos humanos e do enfrentamento à ditadura militar. Dela nasceu a conferência nacional dos Bispos do Brasil, a primeira do mundo, que tomou duas decisões: a primeira foi a opção pelos pobres, contra a pobreza e a favor da justiça social. A segunda foi o apoio à luta pela reforma agrária. Os profetas morreram, veio a democracia e ela seguiu mantendo a defesa dos direitos humanos e a opção pelos pobres. Sob os papados de João Paulo II e Bento XVI ela foi colocada sob controle porque diziam que estava se politizando demais, mas na verdade a igreja sempre se politizou, só que sempre do lado da direita. Aqui no Brasil se politizou ao lado dos grupos mais minoritários em termos de direitos, mas maioria em termos numéricos.

A situação do país após a vitória de Jair Bolsonaro tem preocupado Leonardo Boff. Ele vê o atual governo sem rumo:

– A situação brasileira é bastante grave. Um voo cego e sem rumo. Nossa crise é uma das mais graves, nós estamos dentro de um estado de exceção pós-democrático, sem lei, atropela leis, não respeita a legalidade das coisas. A situação é dramática porque ninguém sabe para onde nós vamos. A diferença do nosso governo para o deles é que nós tínhamos dignidade. Estamos aguardando uma decisão para um rumo no nosso país que até agora não surgiu”, lamenta.

Após a campanha eleitoral, Leonardo Boff criticou o ex-candidato à presidência Ciro Gomes em razão dele não ter se engajado na campanha de Fernando Haddad no 2º turno. Em resposta, Boff foi chamado de “bosta” por Ciro. Sobre o episódio e como ficou a relação entre os dois, o teólogo afirmou que o respeita, mas o considera um coronel nordestino:

Considero o Ciro Gomes uma liderança importante do nosso país. Os contatos que eu tive com ele me deram a impressão que tem o Brasil inteiro na cabeça. Agora ele não deixa de ser um coronel nordestino. Muito autoritário e muito centrado num projeto dele de ser presidente. Não é um projeto de nação, mas um projeto individual dele. Isso está dificultando criar uma frente ampla, suprapartidária, política, social. Porque ele se propõe ser o líder dessa frente. Eu acho que a própria frente deve escolher seus líderes, de forma colegiada, para não cairmos nessa coisa monarquista de um líder carismático. Mas não é por isso que vou deixar de reconhecer a importância dele para a democracia, os méritos da trajetória política dele. Mesmo com as limitações pessoais que ele tem, um homem que não consegue se auto-dominar, que perde o equilíbrio. Eu disse a ele uma vez: “faça aquilo que Napoleão fazia”. Toda vez que ele discutia com seus generais, ele antes de responder contava até dez. Aconselhei o Ciro a fazer isso. Toda vez que ele me via fala: “Boff, só que eu conseguido chegar até cinco e me vem uma raiva tão grande que tenho que falar”. É o estilo dele, eu respeito. Se isso ajuda o desenvolvimento da democracia é o povo quem vai dizer.

Amigo íntimo do ex-presidente Lula, preso desde 7 de abril do ano passado na carceragem da Polícia Federal, Boff acredita que o petista seja refém de uma política punitiva a que os pobres vêm sendo vítimas no Brasil:

Está ficando claro que a prisão de Lula é política. Todos os juristas nacionais e internacionais condenam a sentença. Se condena por um ato de ofício, sem materialidade. Visitei Lula duas vezes, ele está tranquilo, mas indignado. Ele não aceita nem prisão domiciliar. Ele está indignado e nós também. O STF faz parte de um golpe tramado pelos herdeiros da casa grande que nunca aceitaram um presidente que veio da senzala. Lula é refém de um tipo de política punitiva dos pobres. Converso com muita gente e me dizem: “foi o único presidente que pensou nos pobres”. Não contamos com o apoio senão das ruas. Que falta nos faz um Brizola, que tinha liderança popular e poderia mobilizar multidões. Mas Lula sabe que não está sozinho. Da última vez que falei com ele, me disse: “estou numa solitária, mas não sou solitário. Estou com Deus e o povo do meu lado”, afirmou.

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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