CIDADANIA

Lideranças indígenas lançam campanhas de arrecadação para enfrentar a pandemia

Embora ainda não seja possível calcular os prejuízos econômicos provocados pelo Coronavírus no Rio Grande do Norte, Tayse Campos sabe muito bem o que o Covid-19 representa para as comunidades indígenas: fome. Ela é coordenadora da Associação Comunitária Indígena do Amarelão, em João Câmara. Com uma economia articulada em torno do beneficiamento de castanha, da comercialização em feiras livres, e do etnoturismo, os povos indígenas estão entre os mais afetados pela propagação do coronavírus no estado.

A situação é tão preocupante que várias lideranças da Articulação dos Povos Indígenas do RN (APIRN) lançaram campanhas para arrecadar dinheiro, alimento e itens de limpeza e higiene para as famílias que ficaram sem renda por causa do isolamento social provocado pela pandemia. A demanda é alta. Só o Território Indígena Catu dos eleotérios, em Canguaretama, necessita de 50 cestas básicas por semana, enquanto o Território Indígena Tapará, em Macaíba, precisa de 55 cestas básicas semanais.

No Território Indígena Amarelão, em João Câmara, 156 famílias das 340 que moram na comunidade tiram seu sustento exclusivamente do beneficiamento da castanha de caju, que chega na comunidade in natura, vinda da Serra do Mel/RN, do Ceará e do Piauí, é beneficiada pelas famílias indígenas, e comercializada em Natal, no bairro do Alecrim, no centro administrativo do governo estadual, nas praias, e também na Paraíba e em Pernambuco.

Mas “com a pandemia do coronavírus, essa semana as famílias não conseguiram mais comercializar a castanha. Já tem um alerta que provavelmente a castanha in natura não vai chegar na comunidade na quantidade suficiente por pelo menos 30 dias”, o que torna “a situação desesperadora”, segundo Tayse, pois “além do risco de contrair o vírus, as famílias indígenas do Amarelão não têm como conseguir alimentos”. Das 1,1 mil pessoas que moram no Território, 250 são crianças de até 12 anos.

Thayse Campos coordenadora da Associação Comunitária Indígena do Amarelão, em João Câmara. (foto: Rodrigo Palmares)

No intuito de manter a fome longe da comunidade, Tayse lançou uma campanha nas redes sociais para conseguir alimentar as 156 famílias por pelo menos dois meses. A liderança calcula que o Amarelão precisará arrecadar 1.248 cestas básicas de 30 kg, o que representa 37,4 mil quilos de alimentos. Para atingir a meta, “pedimos a colaboração de quem puder ajudar. Precisamos de alimentos não perecíveis, leite, material de limpeza e higiene pessoal para distribuir durante pelo menos oito semanas para 156 famílias”. Tayse Campo, porém, não é a única que está arrecadando recursos para a sua comunidade. Outras lideranças estão fazendo o mesmo apelo para amparar as famílias que ficaram sem renda. As campanhas estão sendo divulgadas no perfil da APIRN: @indigenasdorn

O momento é grave, confirma a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), já que o modo de vida comunitária pode facilitar a rápida propagação do vírus dentro dos territórios indígenas.

“Epidemias são terríveis para a sociedade, mas sabemos que para os povos indígenas o impacto é ainda maior. A gripe, a varíola e o sarampo foram algumas das doenças introduzidas em nossos territórios por não indígenas e que exterminaram muitos dos nossos antepassados. O coronavírus é mais uma dessas ameaças. É preciso ter um olhar direcionado aos povos indígenas com o aumento da pandemia mundial. Os efeitos para nós podem ser devastadores!”, alerta a APIB.

Com terras em processo de demarcação, o Rio Grande do Norte contabiliza 14 comunidades indígenas politicamente conscientes e articuladas: Apodi (Etnia Tapuia paiacú); Caboclos (Etnia Potiguara); Assentamento Marajó (Etnia Potiguara); Amarelão (Etnia Potiguara); Serrote de São Bento (Etnia Potiguara); Açucena (Etnia Potiguara); Assentamento Santa Terezinha (Etnia Potiguara); Cachoeira/Nova Descoberta (Etnia Potiguara); Tapará (Etnia Tapuia); Catu (Etnia Potiguara); Sagi Trabanda (Etnia Potiguara); Jacú (Etnia Potiguara); Ladeira Grande (Etnia Tapuia) e Lagoa do Mato (Etnia Tapuia) -, além de uma população indígena em contexto urbano crescente.

Recursos arrecadados através de campanha online para acampamento Terra Livre serão redirecionados para reduzir impacto da pandemia

Mais de mil famílias indígenas moram no território potiguar. (foto: Rodrigo Palmares)

Há menos de um mês, as lideranças da Articulação dos Povos Indígenas do RN (APIRN) estavam engajadas em uma campanha online através da plataforma Benfeitoria para participar do Acampamento Terra Livre, em Brasília, entre os dias 27 e 30 de abril, mas diante da disseminação do coronavírus, a Articulação dos povos indígenas do Brasil (APIB) decidiu adiar a realização da 16ª edição do ATL, maior mobilização indígena do país e uma das mais importantes no mundo. Enquanto aguardam a divulgação de uma nova data, as lideranças indígenas em todo o país se preparam para enfrentar a nova pandemia.

Apesar de considerar o evento uma oportunidade para “mostrar que estamos vivos, lutando, cobrando, ocupando e que precisamos de direitos e assistência”, como resume Rodrigo Palmares, um dos articuladores da comunicação da APIRN, as lideranças indígenas do estado decidiram redirecionar o dinheiro arrecadado através da campanha online para a compra de cestas básicas e itens de higiene e limpeza para as suas comunidades.

O Coronavírus veio para desestabilizar todas as articulações. Sendo assim, pelas prioridades, estamos editando essa campanha para que ela possa suprir os males que a quarentena irá trazer. As comunidades indígenas do RN sobrevivem da venda de castanhas, alimentos em feiras livres e etnoturismo. Com o isolamento causado pela pandemia essas comunidades ficarão sem renda e correm o risco de passar fome”, explica Juão Nÿn, um dos articuladores da campanha.

Há um problema, porém. Se a meta de R$ 5 mil não for atingida até o dia 10 de abril, todo o valor arrecadado será devolvido aos doadores e a Articulação dos Povos Indígenas do RN (APIRN) perderá a chance de redirecionar as doações para a compra de materiais de higiene, limpeza e alimentos em meio a uma das maiores crises já enfrentadas pelas comunidades indígenas no Rio Grande do Norte.

Saiba como ajudar:

*Para contribuir com a campanha online (e garantir que a cota mínima seja atingida e os recursos sejam direcionados para o atendimento das famílias que ficaram sem renda por causa da pandemia), basta acessar o link da campanha Indígenas do RN no ATL 2020 :

https://benfeitoria.com/indigenarn.

*Para doar qualquer quantia diretamente para as lideranças das comunidades, basta destinar a doação para as seguintes contas bancárias:

Tayse Campos – Território Indígena Amarelão

Caixa Econômica Federal – Conta Poupança
Operação 013
Conta 39.286-8
Agência 0760
CPF 053.501.324-82
Contato: (84) 9 92208750

Banco do Brasil – Conta Poupança
Variação 51
Conta 22.817-6
Agência 0727-7
CPF 053.501.324-82

Manoel L. D. Nascimento – Território Indígena Sagi Trabanda

Caixa Econômica Federal
Operação 013
Conta 31583-8
Agência 1101
CPF: 736.341.824-15

Kaline Bezerra Felipe – Território Indígena Marajó

Caixa Econômica Federal
Operação 023
Conta 26406-9
Agência 0760
CPF 703.664.444-33
Contato: (84) 99106-1479

Francisca da Conceição Bezerra – Território Indígena Tapará

Caixa Econômica Federal – Poupança
Operação 013
Conta 2605-0
Agência 2758
CPF 751.718.484-91
Contato: (84) 99435-1633

José Luiz Soares (Luiz Katu) – Território Indígena Catu dos Eleotérios

Caixa Econômica Federal – Conta corrente 01
Conta 3372-3
Agência 1101
CPF 029.861.564 -95
Contato: (84) 99122-6024

*Para doar alimentos não perecíveis, leite, material de limpeza e higiene pessoal, basta entregar a doação nos pontos de arrecadação a seguir:

Rua das Mangueiras, nº 43, Nova Parnamirim, Parnamirim (Próximo ao Shopping Ayrton Senna)

Rodrigo Palmares (84) 98104-1025

Rua João Vidal, nº 17, Capim Macio, Natal
Renata Layse (84) 99857-0466

Mais informações:

Comunicação da Articulação dos Povos Indígenas do RN (APIRN)
Rodrigo Palmares: (84) 98104-1025

 

 

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