OPINIÃO

Limitações 60

Evitando assuntos mais sérios para não correr risco de infartar. É tanta gente boa morrendo, amigos queridos, eu, por enquanto, quero continuar por aqui. Não vou falar de política e nem de futebol, mas das limitações que o cara quando é jovem sempre zomba, pois acha que nunca vai sofrer destes males.
Quinta-feira, dia nublado, resolvi, sem carro, mudar meu itinerário de caminhada-corrida. Nada de praia de lixo naquele dia. Saí de casa, Princesa Isabel, última parte, e subi pela Potengi até chegar na esquina com a Hermes da Fonseca, passando pelo meu velho Atheneu de guerra, e pela  Biblioteca Câmara Cascudo, ainda fechada, pelo quarteirão enorme que pertencia ao ABC – campo, quadras e clube – que os “gatos” comeram.
Segui subindo a Hermes da Fonseca, antes do Colégio Auxiliadora, calçada meio deserta, andando rápido, notei que assustei uma senhora que ia na frente. Ela me olhava desconfiada, meio de banda, com medo. Não vi outro jeito: comecei a cantar bem alto um samba lindo de Cartola e aumentando o volume no verso que diz  “rir pra não chorar, rir pra não chorar” que traduz bem nosso momento de Brasil. A mulher entendeu, perdeu o medo, sorriu.
Mais na frente, o JL, meu estadinho do Tirol, onde fiz minha estreia como jogador-sonhador de futebol, vestindo a camisa do juvenil do Força e Luz. Meu amado campinho acabado, abandonado por José Vanildo da Silva, o “Coveiro do JL”. Fiquei olhando por entre as grades corroídas pela ferrugem, mas nada vi, tudo fechado. Interditado, abandonado, mas mesmo assim palco dos jogos das bases, do Estadual Sub 19 que começou neste sábado. E amanhã, segunda, sem público, sem alegria, sem visibilidade, tem um clássico ABC x América, e que ainda tem proibição da torcida. Fujo apressado, o JL naquele estado me faz chorar.
Continuo subindo. Pouca gente sabe, mas sou fã incondicional daquelas ruas que encerram no pé do Morro de Mãe Luiza. Se pudesse comprava uma daquelas casas grandes para amanhecer o dia sentindo o cheiro de mato que vem lá de cima, e ouvindo o canto do pássaros, natureza ainda. Gosto tanto que parei numa delas, uma rua depois da ED. Estranhei o olhar mal de um cara, parecia ser o vigilante. E lá vem ele. Antes, parou, falou alguma coisa com outro sujeito e se aproximou mais um pouco com a mesma cara feia.  Não contei conversa, ensaei, endureci, fiz olhar de doido e compuz uma carranca muito mais feia e enraivada que a dele. Funcionou. Eu continuei olhando as casas, as ruas, com interesse redobrado, provocativo mesmo, e ele tirou a vista. Estava preparado para mandá-lo à puta que o pariu, pois, vejam só a loucura, eu já estava imaginando ser aquele sabujo desconfiado um bolsominion revoltado.
E segui subindo minha caminhada. Passei pela AABB, lembrando que nunca havia, nos meus tempos de menino, ensaiado passos por aquelas bandas. Era muito elite para meu gosto. Cheguei na frente do 16RI, imaginei: só falta agora um samango desse do exército querer me interrogar. O soldadinho de guarda nem me olhou e eu atravessei passando na lateral do Aéreo Clube, tive até vontade de dar uma entrada para ver como estavam as coisas por lá, mas não. Desci em procura da Praça Augusto Leite, onde dá para encontrar os equipamentos de ginástica para a comunidade em bom estado de conservação. Era minha intenção os aparelhos.
Nos aparelhos a razão do texto e todo esse arrodeio. Pois bem. Fiz os costumeiros, braços, pernas, quadris, músculos, etc, cem, cem, cem e olhei para o lado e vi as rampas de alvenarias (um elevado em que você se deita, seu corpo fica embaixo e suas pernas no alto, os pés presos por cordas estrategicamente colocadas para ajudar no exercício) construídas  junto com a praça, onde os moradores faziam seus exercícios de abdominal. “Tô precisando”, pensei. Altinha as danadas, mas eu subi, aprumei o corpo velho já cansado da caminhada, prendi os pés nas cordas postas na parte de cima e iniciei a contagem.
Ainda aguentei umas duas sessões de 50. Parei arfando. Eita,dureza! Não pensei que fosse tanto. Me preparei para sair. O dilema se deu: meus músculos da barriga, do torax, não conseguiam me levar até onde estavam meus pés presos para que eu me soltasse e descesse da rampa.  Me agoniei. Como diabo ia sair dali agora? Olhei prum lado, para outro, não tinha ninguém pra me ajudar. Se eu soltasse os pés me lascaria com tudo no chão. Gente, que vergonha! O corpo velho pesado, o buchão que nunca tive, me traindo. Me rolei pra um lado, para outro, soltei os pés das cordas, minhas pernas despencaram lá de cima, mas consegui segurar o bucho e o corpo sobre a rampa, minha sorte, me segurei, me apoiei, consegui, morto de vergonha e de surpresa, me levantar. Desgaçados 60 anos cobrando a conta.
Ufa!!!  Sentei no banco. Respirando aliviado já pensando em alongar e voltar para casa. Escuto um grito. Olho na direção do som, sai um doidinho, torcedor do América, ele vinha dando as maiores gargalhadas, me cumprimentando, falando da rádio, da tevê, pedindo um alô. Depois de muito conversar, o fio do égua sai com essa: “mas Edmo, eu tava ali só filmando, quase que você não sai dali da rampa do abdominal”. Disse isso e caiu na risada. Eu olhei pra ele, uma vontade…
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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos