CULTURA

Livro digital reúne relatos íntimos e poéticos de mulheres durante a pandemia

“Fazia Calor e Usávamos Máscaras”. Essa cena incômoda dá título a um livro digital com 17 textos escritos por diferentes mulheres durante a pandemia de covid-19. A publicação foi organizada pela artista visual potiguar radicada no Rio de Janeiro Lara Ovídio e será lançada nesta quinta-feira (17) no site archive.org com visualização online e download gratuito no link.

Andrea Pech, Edzita Sigoviva, Elisa Elsie, Enero y Abril, Maíra Valério, Maria de Cristo, Maria Vitória Canesin, Mariam Day, Mariana do Vale, Mariana Tesch, Mariana Tokarnia, Mykaela Plotkin, Ludmilla Alves, Priscila Maia, Sofia Bauchwitz, Vanessa Ximenes e a própria Lara Ovídio compartilham recortes de suas vidas durante o isolamento social em 2020.

São relatos íntimos, muitas vezes de seus diários pessoais, divulgados inicialmente em lives nos perfis @40antenasDC e @vulvarevolucao do Instagram.  Também foi criada a conta do projeto @faziacalor.

Lara Ovídio adianta que os textos são intensos, alguns engraçados, outros duros. “Era muito forte a sensação de que a gente tinha um registro potente do momento que a gente tava vivendo e uma capacidade de identificação enorme cada texto tem em si”, conta a organizadora da coletânea.

A seleção das personagens foi afetiva. Participam mulheres que fazem parte do seu convívio, que têm sua admiração e que escrevem profissionalmente. “Fui conversando com mulheres que eu sabia que tinham um trabalho relacionado com a escrita. Fossem artistas visuais que usavam a palavra ou jornalistas e poetas. Fui conversando e perguntando se estavam desenvolvendo alguma coisa durante a quarentena”, lembra.

Para Lara, que se dedica a diários desde 2014, um dos principais elementos que conectam as histórias são a paisagem da casa e as cenas que passam pela janela.

“Quando falo do que passa na janela às vezes parece ser um quase nada, mas naquele momento a gente tava tendo panelaços no país inteiro, projeções, uma campanha super intensa pra derrubar o presidente, pra não derrubar ministro da Saúde,… É como se essa crise política e sanitária aparecesse impregnada dentro dessa casa, que era a única paisagem possível de acessar, a casa e o que se acessa da janela”, detalha a artista, ao ressaltar também que sendo escritos por mulheres, as narrativas apresentam a realidade de trabalhos domésticos e reprodutivos não-remunerados.

O feminismo aparece também no projeto gráfico, assinado pela mexicana Enero y Abril. A cor roxa, mais precisamente o tom “morado”, remete à luta pela libertação das mulheres. E o verde é uma alternativa para compor a o livro que editado em dois idiomas, português e espanhol.

“Era muito importante fazer nos dois idiomas pra reativar o sentimento latino-americano que entre os brasileiros, por causa da divisão da língua, acaba se perdendo. Porque a gente não fala espanhol, acaba esquecendo que é latino-americano. A gente queria que essas realidades que são tão próximas não tivessem que atravessar essa barreira da língua”, explica Lara, enfatizando a intenção de fazer com que essas vozes circulem livremente.

Lara Ovídio

Natalense, Lara Ovídio vive hoje no Rio de Janeiro. Ela é mestra em Artes Visuais pela UFRJ. Investiga o cotidiano como trincheira anticapitalista e as narrativas pessoais como possibilidade de reescrever a História oficial. Trabalha com vídeo, fotografia, performance, instalação, texto e projeção.

Em 2020, foi finalista do XI Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia e do 3º Prêmio Select de Arte e Educação. É professora de fotografia e editora da Revista VAN no IFRJ, Campus Belford Roxo.

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

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