OPINIÃO

Livro e censura

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É impressionante como os fascistas de plantão, fazendo referência à saudosa Fernanda Young, não se cansam de ser cafonas. Repetem suas mesmas e velhas táticas ridículas de opressão, dentre elas, principalmente, a censura.

A atitude do senhor Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro, de determinar que a graphic novel “Vingadores: a cruzada das crianças” fosse recolhida da Bienal do Rio, foi exatamente isso: mais uma atitude anacrônica de silenciamento. O suposto argumento alegado foi de que a obra apresentaria “conteúdo impróprio”. Resultado: todos os exemplares disponíveis em diferentes estandes foram rapidamente vendidos na manhã de sexta-feira, 6 de setembro, para deleite geral nosso, “os imorais” que teimam em resistir. E leem.

Fascistinhas de hoje e de sempre apelam para essa estratégia há muito já estragada, nas suas paranoias de um mundo uno e totalitário. O que fazem para calar qualquer discurso divergente de seus padrões de “correto” e “bom”? Negam, boicotam e queimam livros. Afinal, já dizia Voltaire em um de seus panfletos satíricos, “O horrível perigo da leitura”: os livros dissipam a ignorância, a custódia e a salvaguarda dos estados bem policiados. Foi assim, por exemplo, na Alemanha nazista e na China maoísta. É assim no Rio de Crivella.

A censura aos livros, como se sabe, não é de modo algum fato recente. O primeiro índice de livros proibidos pela Igreja Católica foi lançado pela Inquisição Romana em 1559. A censura a livros e obras, assim, sustenta-se e se sustentou desde sempre no lema da “boa moral e bons costumes”. Alberto Manguel, por exemplo, em seu livro “Uma história da leitura”, nos conta o caso de um cidadão chamado Anthony Comstock, que, em 1872, fundou em Nova York a “Sociedade para a Extinção do Vício”. Seria cômico se não fosse trágico: aquele primeiro conselho efetivo de censura nos EUA teria longa duração e causaria a destruição de “160 toneladas de literatura obscena”.

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Na América macartista, a perseguição aos livros também foi intensa. O período compreendido como macartismo faz referência a Joseph McCarthy, senador americano que promoveu verdadeira “caça às bruxas” no período de 1950 a 1956, buscando como alvo não só obras tidas como “obscenas”, mas também tudo que supostamente representasse uma “ameaça à segurança nacional”. Nessa esteira, os quadrinhos também sofreram perseguição, insuflada ainda mais pelo psiquiatra Frederic Wartham, em cuja obra “A sedução dos inocentes” afirmava, em tom moralizador, que as revistas em quadrinho, um tipo de “subliteratura”, não só atrofiariam o cérebro como promoveriam a delinquência juvenil e a servidão sexual de seus jovens leitores.

Assim são os fascistinhas de hoje e sempre: apoiados fortemente num discurso (pseudo)cristão, criam um demônio a ser exorcizado, materializado sobretudo na forma de livro. E são tão cafonas (para não dizer truculentos e toscos), que não perceberam ainda que essa tática é inútil. Como afirmou Foucault certa vez, “ali onde há poder, há resistência”.

Continuemos resistindo. E lendo.

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