OPINIÃO

Lockdown: Governo deveria ter pulso e fazer, mas população teria que colaborar

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Nesta segunda-feira, 1º de junho, faltando um mês para o início do segundo semestre deste maldado e estranho ano de 2020, o Brasil chegará, certamente, à terrível marca de 30 mil mortos pela Covid-19. Longe ainda do pico, sem um Ministério da Saúde que leve a questão a sério, com um genocida sociopata no governo e caminhando para igualar ou ultrapassar os EUA como o país com mais casos e óbitos da doença sem cura e sem vacina no Mundo. É o que temos.

Temos também governadores dos Estados da Federação confrontando o tresloucado que ocupa a cadeira da presidência e realizando ações sérias e eficientes contra a propagação do Convid-19 e tentando que o sistema de saúde não entre em colapso. Governadores que começaram o processo, de maneira geral, muito bem, mas, agora, com pressão dos empresários e comerciantes, e o cansaço com o isolamento social, estão tendo que “negociar” flexibilização de serviços e atividades.

Quando o momento era justamente do oposto. Segundo todos os especialistas sérios, com a chegada agora do pico da doença e do contágio, o isolamento era para ser ainda mais intensificado. Quase todos os infectologistas e Conselhos de Saúde recomendam a prefeitos e governadores o “lockdown”, termo anglófilo que significa fechar tudo, trancar tudo, ninguém entra, ninguém sai. Seria a forma mais adequada de enfrentarmos o vírus para, depois, acelerarmos a abertura gradual para então algo próximo daquilo que chamamos de “vida normal”, como muitos países estão fazendo.

Em São Paulo, estado, claro, com mais infectados e mais óbitos, o governador João Dória, que começou o processo como referência no combate e gestão de crise, já fala em abrir o comércio. No Rio de Janeiro, idem. Aqui no nosso rincão, o Rio Grande do Norte, a governadora Fátima Bezerra resiste a decretar o lockdown. Tem seus motivos. O primeiro é a pressão explícita das entidades comerciais e empresariais justamente pelo oposto, a flexibilização (que também oficialmente não aconteceu). O segundo é a falta de colaboração dos prefeitos dois dois maiores municípios do Estado, Natal e Mossoró, geridos por Álvaro Dias e Rosalba Ciarlini, adversários políticos de Fátima e com um olho na pandemia e outro olho na eleição municipal deste ano.

O terceiro motivo, eu arriscaria, é que o Governo sabe que uma vez decretado lockdown não teria como garanti-lo por força de lei. O efetivo policial não dá conta da população e dos bairros de cada cidade. Ainda que desse, teríamos de contar com um fator: a consciência e a colaboração da população. De uma população que parece pouco disposta a colaborar mesmo com o isolamento atual. Os dados mostram isso, índices de isolamento entre 38% e 40%, baixos para garantir a baixa da curva em um estado onde os leitos de UTI já estão lotados.

Quero falar agora da postura da população. Parte dela parece não ter compreendido que estamos uma pandemia com um vírus letal e sem vacina por aí. Ou então se julga imune ou que não passa de uma “gripezinha” aos moldes do energúmeno que nos preside. Este e esta parcela da população parecem não ter ciência que nesta segunda 1 de junho chegaremos a 30 mil mortos pela Covid-19. E, pode ter certeza, neste mesmo dia 1 vários bairros de Natal e Região Metropolitana estarão lotados de pessoas andando nas ruas como se não houvesse amanhã. Uma vez decretado lockdown estas pessoas o respeitariam? Ainda que com comércio fechado e o máximo de estabelecimentos de portas cerradas, estas pessoas – como parece estar acontecendo – não inventariam uma saída qualquer, um motivo, um pretexto?

Em poucas saídas nas ruas do meu bairro, devidamente seguro, percebo muita gente, em especial aquele perfil tão criticado aqui – homem/hétero/branco/classe média/cinquentão – vivendo uma vida absolutamente normal; bebendo na calçada de distribuidoras de bebidas, batendo papo em porta de padaria, puxando assunto em fila de lotérica. Com lockdown, que aparato policial fiscalizaria cada um desses estabelecimentos, desses bairros, de cada rua?

Conversando com minha irmã que mora em Londres e com amigos e amigas residentes em Portugal e Espanha, eles relatam como a população “comprou” a ideia do isolamento e depois, com a curva de mortes e contágio descendo, a da flexibilização. Uma flexibilização e tentativa de volta à normalidade com segurança, sem a porralouquice e o gosto por puxar papo e por aglomeração que parte do brasileiro parece ter.

Trocando em miúdos: lockdown no Brasil, pelo menos no rincão onde moro e que conheço, tem tudo para não dar certo. Infelizmente.

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