OPINIÃO

Loucos, Santos e Chapados

“Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa
hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite”.

Quando esses versos foram recitados por Allen Gisnberg no dia 07 de Outubro de 1955 na Galeria Seis, em São Francisco, o mundo ainda vivia o auge dos chamados “trinta anos gloriosos do capitalismo”. Naqueles dias, uma euforia circundava o ocidente: a vitória sobre a Alemanha nazista e sobre o Império japonês parecia ter aberto o mundo para que o sonho americano de uma democracia liberal capitalista pudesse finalmente cumprir suas promessas. Somado a isso, a arquitetura dos Estados de bem estar social europeus e do new deal de Roosevelt dava às classes trabalhadoras do mundo industrializado um motivo para achar que a vida de seus filhos seria melhor que a deles mesmos e que fazer uma revolução proletária não seria lá uma ideia tão urgente assim.

A despeito desse sentimento de alívio e euforia, vivenciado após o morticínio que se seguiu às duas grandes guerras mundiais, havia, do outro lado da chamada cortina de ferro, uma ameaça que pairava como um espectro, um fantasma, uma sombra de um duplo opositor, sobre um ocidente industrializado e próspero. Um oponente a altura, ameaçando o destino manifesto que os norte americanos haviam imaginado para si mesmos como sacerdotes do grande templo da sociedade de mercado, estendia sua zona de influência sobre metade do globo terrestre, mostrando aos senhores da guerra estadunidenses que, a despeito da derrota do nazi-fascismo, as armas precisavam estar sempre lustradas, carregadas e prontas para o uso.

A revolução que desmantelou o antigo império dos Czares na Rússia se posicionava diante da utopia liberal como uma parede, um muro, um bloco de contenção, servindo não apenas como oponente a ser batido, mas também como projeção espectral de todos os pavores que só uma boa dose de ideologia consegue construir.

No fim das contas, o estado geral de ânimo nos países que ficavam do lado de cá de Greenwich era de uma mistura bipolar de euforia e paranoia que levou Allen Gisnberg aos tribunais para responder a um processo por “obscenidade” em função dos conteúdos homossexuais explícitos que emergiam dos versos de O Uivo.

O irônico é que a batalha em torno do confisco e da proibição de circulação do livro de Ginsberg não apenas levou o nome da chamada “geração beat” ao centro das manchetes de jornal mundo a fora, como também marcou um limite para influência autoritária do macartismo e da caça as bruxas no campo do mercado editorial.

A beat estava profundamente ligada, já naquele tempo, ao lúmpen marginalizado das cidades industriais da América do Norte. Tal fato fazia com que, a despeito dos seus membros serem identificados pela patrulha conservadora com a vaga alcunha de “comunistas”, seus expoentes se aproximassem muito mais de estratos complemente excluídos da sociedade norte americana do que da classe média branca proletarizada que servia de base para os sindicatos e as organizações da esquerda clássica marxista.

Excluídos de todo tipo, tais como garotos de rua (Neal Cassady), viciados em drogas (William Burroughs), alcoólatras (Jack Kerouac), ex-presidiários (Gregory Corso), homossexuais judeus (Ginsberg) e doutores pela Sorbonne (Lawrence Ferlinghetti), se misturavam em uma malta de relações afetivas, literárias e psicossexuais, sem uma organicidade clássica das instituições revolucionárias marxistas ou mesmo das vanguardas formalistas do começo do século XX.

Os personagens que compuseram a Beat nos anos 50 transitavam em busca de um espaço literário, em contato direto com os extratos realmente marginalizados da sociedade norte americana, fluindo pelas estradas que levavam de uma costa à outra, formando uma rede, uma costura de conexões existenciais, afetivas e literárias, que constituiu o embrião dos movimentos contra culturais que iriam povoar o imaginário da rebelião na segunda metade do século XX.

Aquilo que podemos chamar de “contracultura”, que se espalhou como fenômeno de rebelião pelo mundo nos anos de 1960 através do Rock e se desdobrou por toda segunda metade do século XX criando trincheiras de sublevação contra cultural juvenil entre hippies, punks, head banggers, darks, clubbers e grunges; tem seu débito evidente com o movimento de escritores dessa geração, que publicaram seus textos a partir da segunda metade dos anos de 1950, mas que já cultivavam o material estético existencial de sua literatura desde a segunda metade dos anos de 1940.

Muita gente boa, como Claudio Willer, tradutor de Ginsberg, indica que se fala da Beat como uma “segunda onda da vanguarda”, que emergiria depois que a reação fascista que dizimou a primeira onda dos anos 20 e que se expressa tanto com os Angry Young Men britânicos, os existencialistas franceses, como com a geração de Ginsberg, Kerouack e Burroughs.

A palavra Beat ou Beatnik (fazendo alusão pejorativa ao Sputnik dos soviéticos) apareceu pela primeira vez para o público em um artigo de John Chellon Holmes, publicado no The New York Times em 1952 intitulada “Essa é a geração beat”. A partir dai, o que seria um “movimento literário” passa a ser visto como um “movimento geracional de caráter contra-cultural”.

Segundo Ginsberg o termo teria surgido de uma conversa entre Kerouac e Hebert Huncke. No calor de um debate turbinado por jazz, álcool e Benzendrina, em que Huncke teria dito: “isso não é uma geração, é uma geração perdida”, usando pra isso a gíria de rua “Beat” que fazia referência ao fato de que todos estavam “chapados” ou “batidos” (beat) demais para compor qualquer coisa que se pudesse identificar com uma “geração”.

Essa “geração chapada” se distinguia frontalmente da juventude de esquerda que era influenciada pelo marxismo-leninismo. O próprio Ginsberg (cuja mãe militou em grupos trotskysitas da esquerda operária de Nova York antes de ser internada em um manicômio) se considerava comunista até viajar para Cuba, Tcheco-Eslováquia e outros países da então chamada “cortina de ferro” nos anos sessenta. Após esse contato com o modelo de socialismo de inspiração soviética, o poeta passou a defender a tese de que a CIA e a KGB faziam parte do mesmo complexo ideológico-militar e que a polícia comunista, o FBI e o departamento de narcóticos norte americano eram parte de uma grande burocracia policialesca planetária que se retroalimentava e que controlava as sociedades modernas.

Da ilha de Castro, onde chegou como convidado especial do governo, com toda pompa e deferência, acabou sendo expulso após fumar maconha, fazer sexo com jovens poetas, dizer em público que achava Che Guevara um “Cura de paróquia” e insinuar que Raul Castro era gay.

Na Tcheco-Eslováquia, Ginsberg desembarcou em 1968, às vésperas da eclosão da “Primavera de Praga”. Na cidade de Kafka, foi saudado como “Rei de Maio” (Kraj Mahales) e desfilou em carro aberto junto com cem mil pessoas em uma espécie de “carnaval fora de época” regado a maconha, ácido e a melhor cerveja Pilsner da Bohemia. Na oportunidade, teria tido uma conversa com o dissidente soviético, Yevgeni Yevtuschenko que disse ao colega estadunidense: “Vi que você é um homem bom. Aqui, ouvimos muitas coisas a seu respeito, que é um pederasta, escândalos, mas eu sei que não é verdade”; ao que Ginsberg teria respondido: “É tudo verdade”.

Foi justamente nessa brecha, aberta pelas vanguardas literárias da década de 50, pelo Jazz be bop e pelas experiências do expressionismo abstrato que a última grande vaga de rebelião do século XX na banda ocidental da terra, começou a ser gestada. Enquanto o mundo se equilibrava entre duas estruturas ideológicas, fazendo aquilo que o filósofo alemão Peter Sloderdijk indicava como a mais arriscada experiência política da história humana (o confronto entre socialismo soviético e liberalismo anglo-americano), os santos, loucos e chapados beatniks encontravam a fissura na armadilha ideológica que emparedava o mundo, apontando para um caminho onde um novo espírito de ruptura pudesse penetrar.

Não é a toa, por isso mesmo, que tenha sido Ginsberg, William Burroughs e Jean Genet, como uma geração anterior de pais fundadores, a terem estado na linha de frente dos protestos de Chicago contra a guerra do Vietnã, uma década após a leitura de O Uivo na “Galeria Seis”.

Nesse começo do século XXI, muitos de nós, que participamos ou flertamos com as travessias dessas rebeliões, em um percurso que nos conectava com as gerações de nossos pais e avós, em uma linha genealógica que remonta aos discípulos de Dionísio, ou aos rebeldes gnósticos da autora da cristandade; nos encontramos perplexos diante do avanço de forças conservadoras que pareciam superadas. Mesmo sacudidos por uma dessas curvas da história que nos pegam desprevenidos, é fundamental retomar às fontes genealógicas da rebelião se quisermos reintroduzir potência onírica na ansiedade humana de liberdade e reagrupar a tribo para os difíceis anos que virão.

Como indicava Jack Kerouac, transeunte das estradas, em On The Road, imbuído do espírito do Zaratustra de Nietzsche, acerca de quem devemos buscar, quando nos encontramos perdidos em labirintos de espelhos, cercados de sombras: “(…) porque as únicas pessoas que me interessam são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam ou falam chavões… mas queimam, queimam, queimam como fogos de artifício pela noite”.

A forma expandida desse artigo foi publicada no livro Rebelados da Cultura: Revoltas e Antropoéticas, do selo Caravela Cultural. Organizado pelos professores Alex Galeno, Fagner França e Lucas Fortunato

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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