OPINIÃO

Lua de fel

A eleição de 2018, para muita gente, eu incluso, foi um ponto fora da curva, uma espécie de delírio coletivo, uma aberração histórica. Acontece. A eleição com 57 milhões de votos de um deputado do “baixo clero” limitado intelectualmente, tosco, preconceituoso e com sonhos ditatoriais foi assustadora. Na verdade o que se viu foi mais que um mero processo eleitoral, foi uma experiência social na qual parte da população se via representada justamente pelos defeitos que enxergamos  em Bolsonaro. Um grupo correspondente a 10% ou 15% da população brasileira, que flerta com fascismo e tem horror a diversidade. Mas, para parte do eleitorado, o que aconteceu foi uma espécie de um casamento de conveniência, quase circunstancial, o que fez com que a eleição de dois anos atrás se assemelhasse a uma “lua de mel” (para usar uma analogia com casamento, como Jair tanto gosta) entre o candidato brucutu e o eleitor.

Mas, casamentos não são perfeitos. E a lua de mel entre Bolsonaro e o eleitorado parece ter acabado ontem, domingo, 15 de novembro de 2021.

Claro que não era o nome dele na urna. E obviamente uma eleição é diferente da outra, mudam as conjunturas, as circunstâncias, os fatos. Mas, também não podemos dissociar pleitos e comportamentos coletivos uns dos outros. Se em 2018 o eleitor celebrou o antipetismo, o armamentismo, o “bandido bom é bandido morto” e a truculência, em 2020 o eleitorado preferiu nitidamente a moderação. Candidatos que se preocupem mais com gestão do que com “ideologias”.

Vamos aos nomes, dados e números concretos: Dos 6 candidatos a prefeito de capitais apoiados explicitamente por Bolsonaro, quatro (São Paulo, BH, Recife e Manaus) perdem já no primeiro turno e apenas dois (Fortaleza e Rio de Janeiro) avançam ao segundo: um deles, Crivella no Rio, inicia a disputa bem atrás. Em São Paulo, Russomano saiu da liderança para o quarto lugar com meros 10%.

E a derrota maior do bolsonarismo nem foi a derrota de Russomano em SP ou Carluxo ter menos votos que um professor de História do PSOL (Tarcisio Costa). Foi Rogéria Bolsonaro, ex de Jair, mãe de Carluxo e do senador Flávio, mal ter 2 mil votos e não ter sido eleita vereadora no Rio. Mesmo apoiada pelos três em todo o material de campanha. Esse fato em si mostra uma possível nova conjuntura pós-eleições 2020.

Boulos diz que sua ida para o segundo turno em São Paulo é o início da derrota do bolsonarismo. Ele é bom em frases de efeito. Mas, não está errado e pode estar enxergando longe. O bolsonarismo sabia do simbolismo de um candidato ligado ao Movimentos dos Sem Teto e a causas progressistas na maior cidade do país e a campanha de Russomano tentou desqualificá-lo com fake news e disparos de zap. Não conseguiu. Talvez o eleitorado também tenha cansado das fake news enviadas pelo zap.

Em Natal, os dois candidatos identificados com o bolsonarismo, um delegado e um coronel, ficaram perdendo para o petista Jean Paul Prates e para o vencedor Álvaro Dias, político das antigas que dialoga com todos os lados e por mais defeitos que tenha não ataca a democracia, como disse ontem em entrevista a mim o professor Wellington Duarte.

Pelo twitter ontem, Bolsonaro esbravejou que a Esquerda tinha saído derrotada das eleições e jogou sua bilis atual em quase tudo. Já conhecemos o modus operandi de Jair. Quando ele está confortável, fica irônico e debochado. Quando se sente acuado, ele ataca. Portanto, sentiu o golpe de ontem, e em termos familiares a derrota da mãe de Carlos e Flávio deve gerar traumas internos.

Já quanto ao eleitorado, os assessores menos puxa sacos de Bolsonaro já devem estar dizendo a ele que a lua de mel do bolsonarismo com o eleitor já terminou. E que em 2022, dependendo dos desdobramentos da Economia e dos efeitos finais (?) da pandemia, ele pode ir para a outra ponta da relação, e experimentar uma verdadeira “lua de fel” com quem vota. Esperemos.

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