DEMOCRACIA, ENTREVISTA

Luciana Genro: “O PSOL não é um puxadinho do Lula”

Fotos: Vlademir Gomes/Ilustração: Gabriel Novaes

Qualquer pergunta que se faça a Luciana Genro, 46, a resposta voltará com a mira apontada para os 13 anos de governo do PT. Uma das principais lideranças do PSOL no país, a gaúcha de Santa Maria voltará a disputar um mandato de deputada federal pelo Rio Grande do Sul em 2018. Para ela, o PSOL precisa se desvincular por inteiro da sombra do partido da estrela vermelha, mas todas as análises da política brasileira passam, em seu discurso, pelos governos Lula e Dilma.

Advogada com pós-graduação em Direito Penal e mestre em Filosofia do Direito na USP, Luciana Genro teve um posicionamento diferente ao da bancada do PSOL na Câmara dos Deputados durante os desdobramentos do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. Embora também fosse contra o impedimento, defendia eleições gerais já naquele momento. Os colegas de Partido fecharam posição em favor da continuidade do mandato da então presidenta. Em razão desse conflito estratégico, retirou seu nome da lista de candidatas do Partido ao pleito majoritário nacional do próximo ano.

Nesta entrevista à agência Saiba Mais concedida em agosto, Luciana Genro confirmou que o nome de consenso no PSOL para disputar a presidência da República em 2018 é o do deputado federal Chico Alencar (RJ). Ela defendeu a Lava jato, não vê qualquer possibilidade de aliança com o PT mas, em nome do fortalecimento da democracia, espera que o ex-presidente Lula possa ser candidato e disputar as eleições do próximo ano.

 

SAIBA MAIS: Porque ainda é tão difícil falar em unidade na esquerda brasileira?

Luciana Genro: Primeiro a gente tem que definir em cima do que a gente quer construir unidade. É obvio que precisamos enfrentar o Temer, as reformas, o desmonte do setor público… são lutas concretas que vamos travando no dia a dia. Uma unidade eleitoral pressupõe um programa e, ao meu ver, esse programa que precisamos oferecer ao Brasil está totalmente distante do que significa e o que foram os 13 anos do governo do PT, de Lula e Dilma. É um programa que de fato possa apontar para uma transição onde, a partir de medidas concretas de interesse da população, possamos romper com essa ordem e com esse modelo político. Então a primeira questão a se discutir não é a possibilidade de se fazer uma unidade. Uma unidade sempre é possível, mas em cima de que programa queremos construir essa unidade? O PSOL está fazendo seu debate, nós temos um congresso em dezembro e, a partir dele, vamos apresentar nossas propostas e, inclusive, um nome do Partido, que provavelmente deve ser o do deputado federal Chico Alencar para encabeçar esse processo de construção de uma alternativa de esquerda coerente para o Brasil.

Mas nesse momento de polarização, com ânimos mais acirrados, essa unidade não é ainda mais necessária para o campo da esquerda e, consequentemente, para o país?

Claro que sim, mas eu volto ao que eu disse: unidade em cima do quê? o PT gostaria que o PSOL virasse um puxadinho do Lula, mas nós não vamos ser puxadinho do Lula, nós não vamos ser puxadinho do PT. O PT e o Lula tiveram sua oportunidade de governar e veja onde nós estamos hoje. Veja a situação que o Brasil está hoje. Então não vamos fazer uma unidade sem princípios simplesmente para colocar de volta o Lula no governo. Em hipótese alguma o PSOL vai se prestar a esse papel. Nós vamos enfrentar a direita, o Bolsonaro, o Dória, seja lá quem for o candidato da direita, mas com as nossas propostas, com o nosso programa, e o povo vai fazer sua escolha.

Não vamos fazer uma unidade sem princípios simplesmente para colocar de volta o Lula no governo”

 

E o PSOL já tem um programa para o Brasil?

Nós temos o programa de 2014 que eu vocalizei como candidata, que foi um programa bastante debatido e construído com muita unidade dentro do PSOL. A partir dessa proposta de 2014 vamos desenvolvê-la para atualizar de acordo com a realidade do país hoje.

Uma das críticas que você faz ao PT é em relação à ausência de reformas estruturais durante os 13 anos dos governos Lula e Dilma. É possível fazer reforma estrutural com esse Congresso?

É difícil, mas é necessário tentar. Se o Lula tivesse tomado o impeachment porque tentou mudar a lógica da política tradicional do toma-lá-dá-cá, se tivesse tentado e levado o impeachment porque fez uma reforma tributária que taxasse as grandes fortunas para aliviar a classe média, que fizesse os ricos pagarem mais impostos, os bancos pagarem mais impostos, o grandes empresários pagarem mais impostos… eu estaria dando vivas a esse Governo por essa luta, mas o Governo nem tentou. Ao contrário, o Governo sucumbiu às oligarquias do Sarney, do Collor, às políticas neoliberais, manteve a politica econômica ipisis literis conforme o interesse dos bancos e do capital financeiro. Então, ninguém esperava que o PT fizesse uma revolução socialista no Brasil, obviamente que não. Mas pelo menos tentar fazer reformas que mudassem a estrutura política e econômica do país. O PT não fez sequer uma reforma básica, democrática, que é combater a corrupção. Ao contrário, o PT se adaptou a essa lógica do Governo imbricado com a corrupção do setor privado, então assim fica difícil fazer qualquer tipo de unidade que possa vir a reproduzir essas mesmas práticas.

Por outro lado o PT argumenta que foi o partido que mais combateu a corrupção ao fortalecer instituições como a Policia Federal e o Ministério Público…

É verdade, é verdade… fortaleceu a Polícia Federal e o Ministério Público que desmascararam os lideres do próprio PT que estavam participando dos esquemas. E ao invés do próprio PT dizer “muito bem, Polícia Federal!”, “muito bem, Ministério Público!“, que estão investigando a corrupção, eles alegam que estão sendo perseguidos pelas instituições que eles próprios deram força para combater a corrupção. Então é um discurso completamente desvinculado da realidade. A corrupção é estrutural ao sistema e, qualquer partido que chegue ao poder e que não mude a estrutura do sistema, vai ser contaminado pela lógica de governo, que foi o que aconteceu com o PT. Muito embora o PT tenha tipo boas intenções de fortalecer a Polícia Federal e o Ministério Público, que foi uma criação da Constituição de 1988, e não uma criação do PT. Mas de fato ganharam mais autonomia, mais verbas, e conseguiram fazer um trabalho que não está isento de erros, o Ministério Público comete erros, a Polícia Federal comete erros, o poder Judiciário comete erros, aliás o nosso sistema penal é um desastre e, evidente, a corrupção precisa ser combatida.

Por falar no poder Judiciário, há de fato “um grande acordo nacional para estancar a sangria?”

Há uma tentativa. O que ocorreu no TSE, na votação da chapa Dilma/Temer foi uma grande aliança entre o PMDB e o PT, através dos seus advogados, para conseguir que o TSE alegasse a legalidade da chapa, para que a Dilma não perdesse seus direitos políticos e pudesse ser candidata, como deve ser (candidata) a deputada federal em 2018 pelo Rio Grande do Sul, e o Temer pudesse continuar, né? E graças a esse acordo o Temer seguiu porque ali naquele momento da votação da chapa a crise politica era brutal, veio a delação do Joesley (Batista, dono da JBS) e ele estava por um fio. E o TSE botou a pá de cal para impedir que o Temer caísse e depois, na votação da autorização para o prosseguimento do impeachment, o PT e a CUT, que têm força social e real e poderiam mobilizar, como mobilizaram a greve geral de abril, não fizeram nada, não chamaram nenhuma passeata… então está na cara que eles querem, junto com o Temer, estancar a Lava-jato… tanto é que o discurso do PT é um discurso contrário a lava-jato, como se tudo fosse uma grande conspiração contra o PT, onde a gente está vendo o Aécio processado, o César Maia preso [na verdade quem está preso é o ex-governador Sérgio Cabral], o (Eduardo) Cunha preso, o conterrâneo de vocês, o Garibaldi preso [quem está preso é Henrique Alves], então toda uma casta política está sendo atingida. E isso é bom ou ruim? Ao meu ver, é bom. Agora o poder judiciário e o Ministério Público não vão oferecer uma alternativa a esta casta política. Quem tem que oferecer uma alternativa somos nós, a esquerda. E nós não vamos nos credenciar como alternativa se nós ficarmos repetindo que a Lava-jato é uma conspiração contra a esquerda porque não é, está evidente que não é. Mas quem tem que construir as condições políticas para que não seja a direita ou o Bolsonaro que capitalize essa descrença do povo nos políticos somos nós, a esquerda. E o PT não está contribuindo para isso com seu discurso e com sua proteção aos seus próprios envolvidos na corrupção, inclusive a própria presidente do PT é uma delas, a Gleisi Hoffman. Então, assim não há como ganhar a confiança da população e se tornar uma alternativa. O PSOL precisa se desvincular completamente desse processo. Precisa aparecer como o partido que foi, sim contra o impeachment, mas não está atrelado ao PT, à Dilma, ao Lula, e tem sua própria agenda e a sua própria proposta para debater com as forças que queiram construir uma alternativa de verdade.

Em que pé está essa frente de esquerda? Há conversas com outros partidos de esquerda, como o PSTU e o PCB, por exemplo?

De maneira formal não existe ainda. Mas todo mundo está sempre conversando, né? Nesses eventos formais que a gente faz, outras forças politicas comparecem e a gente acaba expondo as visões da realidade, nossas ideias sobre o que é o programa. Mas ainda não há uma discussão formal. Isso deve acontecer lá para o final do ano ou início do próximo ano, nos congressos dos partidos, como o PSOL, que fará seu congresso em dezembro e que deve oferecer o nome do deputado Chico Alencar a essas forças políticas da esquerda que querem se unir em torno de um programa.

 

Luciana Genro em visita a Natal em agosto

 

E por quê Chico Alencar, e não Luciana Genro?

Eu me coloquei à disposição do PSOL, mas não tenho hoje o discurso que unifica o Partido. Esse meu discurso sobre a lava-jato e minha crítica à postura que o PSOL assumiu na postura do impeachment porque, como eu já disse, ao invés de dizer “não ao impeachment e fica Dilma, deveríamos ter dito “não ao impeachment, queremos eleições gerais”. Porque a Dilma tinha perdido credibilidade e representatividade no momento em que ela colocou Joaquim Levy para fazer um ajuste fiscal totalmente contrário ao que ela defendeu nas eleições. Eu não sou uma unanimidade no Partido e, além disso, o Rio de Janeiro foi o Estado que mais se destacou nas eleições municipais, com a força do Marcelo Freixo indo para o segundo turno. Então é justo que o Rio apresente esse nome e, nas eleições, a gente possa refletir essa força política que o partido tem lá. Eu achava que o nome ideal era o do próprio Marcelo (Freixo) mas ele não quer, ele vai se candidatar a deputado federal, tem o direito de fazer isso, e vai ser muito bom para o partido ter o Marcelo como deputado federal. E o Chico está cogitando essa possibilidade e vai acabar aceitando. Ainda não está 100% decidido, mas acredito que vai ser por aí…

Que análise você faz da derrota do PSOL no segundo turno das eleições para a prefeitura do Rio? O que faltou para o Freixo derrotar o Crivella?

Acho que teve um peso muito grande da igreja evangélica, onde o Crivella capitaliza muito, e a utilização da calúnia, da mentira, a ideia de que o Freixo era defensor de bandido, esse tipo de coisa que circulava de forma subterrânea e que a gente não conseguia combater. E além disso ainda há um déficit no PSOL, que não é do Rio, mas de todo o PSOL, de enraizamento nos segmentos mais pobres da população. Isso o próprio Marcelo avaliou depois, quando fez o balanço da eleição. Nos falta estar mais na periferia, nas comunidades, então esse é um trabalho de base que precisamos fortalecer. É um problema que temos também no Rio Grande do Sul. Nós sofremos bastante, eu só tinha 13 segundos de TV e despenquei na campanha quando começou a campanha de TV. Isso reflete o sistema eleitoral, mas também essa falta de enraizamento onde os boatos mentiras, calunias e distorções das nossas ideias são disseminados muito facilmente. E além do poder econômico que continuou. Um candidato que acabou na minha frente tinha 5 mil pessoas fazendo boca de urna para ele na eleição. E o que é boca de urna no dia de eleição? É gente paga. Então isso é a força do poder econômico que continuou se produzindo mesmo com o fim do financiamento privado.

Numa entrevista recente, o Lula fez algumas provocações ao PSOL que repercutiram bastante. Assim que passou para o segundo turno no Rio, o Marcelo Freixo avisou que não queria o apoio do Lula. Essa briga entre o PT e o PSOL, envolvendo duas figuras públicas e bastante conhecidas, não é ruim para a esquerda?

Acho diferente o Freixo ter dito que não queria o Lula no palanque dele dessa entrevista que o Lula deu agora. Eu de fato não me lembro do Freixo ter dito isso, mas se de fato ele disse, acho que estava refletindo uma conveniência eleitoral porque a presença do Lula… o PT no Rio é muito queimado… porque esteve com o Cabral, governou com o Cabral todo esse tempo, e não é conveniente ter o Lula no palanque, além desse problema da excessiva identificação que as pessoas fazem entre o PSOL e o PT que nós precisamos desfazer. Esses dias eu andava em São Paulo e um cidadão me abordou dizendo que ‘vocês destruíram o Brasil, estou desempregado, a culpa é de vocês`. Mas eu disse: ‘vocês quem? ` E o rapaz falou vocês da esquerda, vocês do PT…` Eu respondi dizendo não sou do PT, que sou do PSOL, que fui oposição esse tempo todo. Mas ele respondeu “Ah, não interessa, é tudo esquerda, é tudo a mesma coisa.˜ Então precisamos desfazer essa vinculação que as pessoas ainda fazem do PT. E o que o Lula fez foi uma provocação barata e totalmente despolitizada, o que reflete o fato de que ele não tem equilíbrio emocional para enfrentar uma oposição de quem tem moral para fazer uma oposição a ele. Uma coisa é ele sofrer ataques por parte da direita e ele nem dá bola porque, afinal, não tem nada a ver, é outro campo político. Embora a direita não ataque mais o Lula, tanto que não foi a direita que ele resolveu atacar nessa entrevista. Mas quando o ataque vem de quem tem moral para fazer a crítica… porque nós nos rebelamos contra o Lula em 2003, quando ele estava no auge da popularidade dele, aí começou a botar o Henrique Meirelles no Banco Central, a manter a política econômica, a querer botar o Sarney na presidência do Senado. A primeira briga que a Heloísa Helena teve com o Lula foi essa: ele queria que ela votasse no Sarney para presidente do Senado. Então o problema… e que essa ideia de que o PSOL nunca governou e, portanto não pode falar, é uma ideia distorcida de quem acha que governar é fazer mais do mesmo. E nós acreditamos que podemos diferente. É fácil? Não, não é fácil. Se fosse fácil alguém já tinha feito. Mas é isso que nós queremos fazer.

Ninguém esperava que o PT fizesse uma revolução socialista no Brasil, obviamente que não. Mas pelo menos tentar fazer reformas que mudassem a estrutura política e econômica do país”

 

Há um crescimento do fascismo no país por meio de figuras como Jair Bolsonaro. Não há a possibilidade de um mínimo consenso entre esquerda e direita em torno da democracia para reduzir as possibilidades de vitória desse campo fascista em 2018?

Em primeiro lugar é importante não banalizar o fascismo. O Bolsonaro sim, representa o fascismo, representa uma vertente fascista. Mas às vezes o fascismo é usado para qualquer coisa, e o fascismo é uma coisa muito grave e muito séria. E que realmente demanda uma unidade forte, de todos os democratas. E daí não é só a esquerda. Contra o fascismo a gente não une só a esquerda, une todos aqueles que defendem a democracia. Foi assim na ditadura militar, quando o próprio PT estava junto com o PMDB. Eu estava no PT na época, ainda que eu fosse uma jovenzinha, mas éramos do PT, estávamos junto com o PMDB lutando contra o fascismo da ditadura. Então é diferente, são conjunturas diferentes. Mas se tiver uma ameaça fascista real temos que unir todos os que defendem a democracia contra o fascismo. Agora para combater o Bolsonaro, não vejo que a melhor alternativa seja se unir com o PT eleitoralmente porque parte do crescimento do Bolsonaro tem a ver com a desilusão que as pessoas tem com os políticos tradicionais. Se o PSOL se une com a politica tradicional que também é identificada com o PT, nós não vamos conseguir fazer o contraponto ao Bolsonaro. Então, precisamos construir uma alternativa própria que mostre que nós somos uma alternativa anti-sistema porque o Bolsonaro cresce pelo fato dele ser anti-sistema, porque ele não está na casta tradicional, embora ele seja parte do sistema ainda que se mostre fora. E nós de fato somos fora do sistema porque nós não participamos desse modelo de casta politica entranhada do estado que se beneficia do poder para defender seus privilégios. Então precisamos mostrar isso para o povo, essa é a grande dificuldade, o grande desafio que nós temos.

Você já declarou que a classe média costuma se aliar à classe trabalhadora quando a classe trabalhadora tem ganhos reais, está num bom momento. Porém, o que se viu nos últimos 13 anos foi uma disseminação de ódio e preconceito da classe média em relação à classe trabalhadora, especialmente em razão dos ganhos sociais e econômicos dos mais pobres durante o governo Lula. Não há uma contradição no seu pensamento?

Na verdade, talvez eu não tenha sido muito precisa. Na verdade a classe média geralmente se divide, ela não é uma classe homogênea. Tem a classe média que ganha R$ 2 mil per capta, que tem renda familiar de R$ 6 mil e, tem a classe media com renda de R$ 50 mil. Então são coisas bem diferentes. A classe média é tensionada pela conjuntura, ela não tem um projeto próprio. Ou se alia com os trabalhadores, num projeto popular; ou se alia com a burguesia, num projeto elitista. E se divide. E o que a gente viu nesse período foi uma divisão da classe média. Foram os setores mais privilegiados com crescente ódio pela perda dos seus privilégios, seus ganhos, e um setor mais empobrecido que se aliou com o povo. Mas a gente precisa disputar essa classe média para estar junto à classe trabalhadora num projeto popular, democrático, e para isso precisamos ter politicas que dialoguem com ela, como a questão da corrupção, um tema fundamental para dialogar com a classe média por ser um mal terrível no sistema, além de outras questões, como a questão tributária. Quando a gente fala da taxação das grandes fortunas está falando de taxar os milionários para desonerar a classe média, o assalariado. Então são questões fundamentais para que a gente possa ganhar a hegemonia na sociedade. Só dividindo, fazendo discurso voltado para um setor, não vai conseguir ganhar a maioria do povo para o nosso lado e a gente precisa da maioria do povo. Então, temos que fazer uma divisão muito clara entre esse 1% e os outros 99%. E a classe média não percebe isso porque ela acha que é rica, mas não é. A classe média tem um padrão de vida sempre ameaçado pela crise econômica e nessa crise ela está despencando. Só está bem hoje quem ganha no rentismo, quem tem dinheiro aplicado. Quem não tem dinheiro aplicado está ralado, está perdendo poder de compra, pagando mais pela gasolina, luz, água… então a gente tem que disputar esses setores porque eles tem uma condição de vida melhor que o povo trabalhador mais pobre.

O juiz Sérgio Moro é uma figura central hoje na politica brasileira. Como advogada, como avalia a atuação de um juiz que, por diversas vezes, atua como um promotor?

(risos) Mas ele é um juiz típico. É isso que as pessoas não percebem. É que como nem todo mundo é advogado, não é da área criminal, não conhece como é que os juízes normalmente se comportam. E o comportamento do Sérgio Moro é típico. Os juízes em geral são inquisidores, são acusadores, eles não são imparciais. Quando a gente coloca um traficante na frente do juíz, o juíz está sempre buscando a condenação, não está buscando a imparcialidade. Essa é a realidade do nosso processo penal, então eu critico sim o Sérgio Moro pelas suas atitudes. Mas eu coloco ele dentro de um contexto do nosso sistema penal brasileiro. O comportamento dele não é um estado de exceção contra o Lula ou contra o PT. O comportamento dele é um reflexo do estado de exceção que existe no processo penal brasileiro. E tomara que esse processo todo da lava-jato, e essa indignação, essa sim seletiva que existe contra o comportamento do Ministério Público e do Poder Judiciário no caso da Lava-jato, sirva para a gente rediscutir todo o processo penal brasileiro. E tanto o Sérgio Moro é típico que as decisões dele estão sendo, em sua grande maioria, referendadas nas instâncias superiores, mesmo as reclamações que chegam no Supremo têm sido decididas favoravelmente a ele. Então essa é a lógica do nosso sistema penal. E isso é o que precisamos discutir, colocando nas devidas proporções em relação a como que o PT está se vitimizando nesse processo oportunisticamente para tentar desviar a atenção dos malfeitos que fez. E aí transformam o Moro num violão, mas aí vai ter que transformar o Facchin também, o Teori que já morreu, os desembargadores do TRF, porque todos vão se comportar de maneira muito semelhante, embora uma ou outra decisão possa ser revista. Mas o padrão do Sergio Moro é o padrão que se repete no sistema brasileiro e é isso que a gente precisa discutir.

O comportamento do Sérgio Moro é típico. Os juízes em geral são inquisidores, são acusadores, eles não são imparciais”

 

Nessa linha que você defende, o Lula ficará impedido de se candidatar. Caso o TRF referende a decisão do Sérgio Moro…

Não sei, porque não existe decisão jurídica que esteja desvinculada da politica. Primeiro eu deixo bem claro que espero que o Lula possa concorrer. Seria ruim para a democracia brasileira, que já é tão precária, se o Lula não pudesse concorrer. Eu não estarei com o Lula, mas eu defendo o direito dele de concorrer. E acho que é possível que o TRF reveja a decisão do Moro, no caso, porque a vinculação que o Moro faz do apartamento com a corrupção na Petrobras, que é o que dá a ele o direito de ser juiz nesta causa, são frágeis. E depende da palavra do delator. Então com base nesse ponto é possível que o TRF reveja a decisão e que o Lula não seja condenado nesse processo.

E no meio dessa crise política há o crescimento da anti-política, o que abre a brecha para pessoas de outros setores se candidatarem e até vencerem eleições, a exemplo do João Dória Jr. em São Paulo…

São reflexos também do desencanto da política. As pessoas estão buscando alguma coisa que esteja fora da casta, que esteja fora do sistema. E aí se enganam com esses tipos. O Dória por exemplo é um cara do sistema, um cara que fez parte da casta política por muitos anos e, numa jogada de marketing, conseguiu parecer como algo diferente. E como se combate isso? Sendo um partido anti-sistema. Sendo um partido que não compactua com a casta, que defende a investigação dos corruptos e a punição deles, que não capitula para o eleitoralismo, lançando pessoas que não sejam tarimbadas na política, lançando lideranças dos movimentos sociais, das lutas, da juventude, LGBTs, da negritude que precisam de maior representatividade no cenário nacional, lançando figuras que são fora do estabilishment e que verbalizem pela esquerda esse descontentamento do povo com a politica nacional.

Como você recebe as críticas em razão de representar a ala mais radical do PSOL? Há quem chame você de “a Janaína Paschoal da esquerda”. Como você lida com esse tipo de ataque?

(risos) Olha, por incrível que pareça eu não sou da ala mais radical do PSOL, tem gente mais radical do que eu. Eu lido com muita tranquilidade. Primeiro porque eu não fico lendo comentários de facebook, não faço isso. Eu recebo da minha assessoria as informações, algumas mensagens eu leio, mas não leio tudo porque tem muita trollagem né? Tem muita gente que está ali só pra desconstituir, muito fake, então a gente nunca sabe se a pessoa que disse alguma coisa está ali ou é um perfil fake se escondendo atrás do anonimato da internet. Então eu não me preocupo com isso e procuro fazer um debate de alto nível para que as pessoas me critiquem pelas minhas posições reais e não por uma distorção que é feita delas e que facilita essa superficialidade.

*Colaborou Bethise Cabral

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"