OPINIÃO

Ludmilla e a glamourização do tráfico de drogas

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Este é o meu primeiro artigo de 2020 e não tenho o objetivo de polemizar acerca da música lançada pela cantora Ludmilla. Mas quero colocar luz sobre uma clara glamourização em torno do tráfico e uso da maconha, que incide fortemente na cabeça das pessoas, sobretudo aos jovens que já cantam e se preparam para o carnaval.

Para colocar as coisas no lugar, quero reafirmar o meu posicionamento antiproibicionista e de combate à criminalização da pobreza promovido pelo Estado brasileiro. Acredito que o próprio Estado cria e nutre diariamente a criminalidade violenta, as facções criminosas e o tráfico de drogas. Além disso, baseado em uma ideologia falsa de “Guerra contra o tráfico”, o mesmo Estado provoca um extermínio sem precedentes nas periferias do Brasil, onde jovens, negros e poucos escolarizados morrem diariamente vítimas de políticas que não foram pensadas para frear a chegada das facções criminosas nos territórios pobres e abandonados pelo Estado. Não deixando de lado os espaços prisionais, notadamente superpopulosos. Além disso, a polícia militar que mais mata nesta guerra, é também a que mais morre. Ninguém sai ileso. Todos nós perdemos com a falta de políticas preventivas, paliativas e combativas.

Neste amplo contexto, a luta pela autorização ao uso recreativo e medicinal da ‘maconha’ não coube no lugar comum que afirma que o Estado é apenas opressor. Todos os anos, centenas de famílias se organizam politicamente em busca do reconhecimento por parte do Estado de demandas reprimidas pelo discurso criminalizamte de que quem quer usar maconha é pecador ou criminoso. A maconha foi criminalizada, demonizada e é combatida com muito afinco por aqueles que só consideram a dimensão criminológica por trás da questão.

Por todo o mundo, o uso recreativo já é uma realidade. Além dele, o uso medicinal é comprovadamente eficiente e eficaz no tratamento de doenças severas como epilepsia, Mal de Parkinson, câncer, glaucoma, Mal de Alzheimer, ansiedade, esclerose múltipla, doenças inflamatórias, autismo, artrites, alcoolismo e uma outra dezena. Estas doenças são tratadas atualmente por medicamentos extremamente fortes, com efeitos colaterais profundos e que são inacessíveis a grande parte dos doentes. A indústria farmacêutica sobrevive da manutenção destas doenças e não da sua cura.

Regulamentar a produção, distribuição e o uso da maconha, seja recreativo ou medicinal é uma questão não apenas de saúde pública, mas também de segurança. Assim, o movimento antiproibicionista ou canábico luta por este reconhecimento que em poucos casos vêm através do Judiciário, em sentenças extremamente frágeis pela ausência de garantias constitucionais que permitam estudos científicos aplicados à realidade brasileira, pela inexistência de políticas públicas e de redes e ligas canábicas com expertise na oferta da maconha para consumo ou do óleo para tratamento. A Justiça sempre se pauta em experiências pontuais.

Dito isso, não poderia me furtar de avaliar o impacto da música da cantora Ludmilla nos meios de comunicação, nas plataformas e redes sociais, causando alvoroço e brigas acerca do uso da maconha. A letra da música é clara, tratando o tráfico da erva com glamourização, alegria e beleza estética.

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“Sou porra louca, mas sou dedicada. Em casa não falta nada”, é suficiente para um jovem crer que ser traficante ou atuar na estrutura em torno do tráfico é capaz de suprir suas necessidades materiais. “Um dia vou poder falar toda a verdade, a máscara que vai cair diante da sociedade. Bang bang”, trata de empoderamento através deste trabalho e finaliza com uma onomatopéia, figura de linguagem que reproduz o barulho de tiros. “To vendendo a grama da verdinha a um real”, do alface? não. Da maconha.

No videoclipe, uma estufa comporta uma enorme plantação de alface, todos organizados, bem tratados, tecnicamente e esteticamente atrativos. Muita fumaça por todos os lados e no final do corredor da plantação, a balança da Justiça pesando a produção de alface. Ao longo do clipe, pessoas se abanam com dinheiro, muita alegria, muita euforia, muita tranquilidade. Aquele não é, definitivamente, o retrato do contexto do tráfico, mas uma romantização por trás da riqueza que ele gera. Traficantes têm escravos, servos e não trabalhadores. Os ambientes são sombrios, ocultos e comumente cenários de guerra: só há tristeza, medo e sangue por trás do tráfico de drogas.

O movimento canábico não pode ser associado ao que representa a música e seu videoclipe. Não há romance algum nem nas doenças enfrentadas por amigos, familiares e simpatizantes, e muito menos na vida daqueles que querem usar recreativamente. A música não reivindica o direito ao uso dentro da Lei, racionalizado, com respeito inclusive a quem não faz uso. Mas empodera o tráfico, banaliza as mortes e enfraquece a luta de quem precisa fumar ou usar o óleo da cannabis para sobreviver. Pela falta de crítica e pelo contexto político de aguçamento da criminalização da pobreza, este certamente será o hit do carnaval de 2020, cantado quase como um grito de guerra.

 

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Francisco Augusto
Francisco Augusto Cruz de Araújo é cientista social, professor universitário e especialista em Segurança Pública e Violência Urbana. Escreve aos sábados.

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