OPINIÃO

Lugar de fala, lugar de escuta, lugar de respeito

Esta semana, por ocasião das celebrações pelo dia da Consciência Negra, decidi problematizar a questão dos lugares sociais de fala cedendo o meu espaço nesta coluna para a autoafirmação politica das atrizes sociais que de fato experienciam na pele a “consciência negra”. Trata-se de minhas queridas irmãs “siamesas” Claudia e Stephanie Moreira. Duas mulheres negras, intelectuais, artistas, ativistas e que fazem de suas vidas e obras exemplos de atitudes engajadas na luta contra o racismo, as desigualdades sociais e a intolerância religiosa. Apesar de, pelo meu tipo de formação, pela qualidade dos meus títulos (minha pesquisa de doutorado sobre Clara Nunes e de Pós-Doutorado sobre Banda Reflexus me habilitam minimamente, do ponto de vista acadêmico, a debater a questão das afrobrasilidades), apesar mesmo de lutar contra o racismo ajudando a defender grandes amigos negros por toda a minha vida e ser empática às questões que afligem o povo negro, não posso ignorar o fato de que eu mesma jamais sofri racismo. Por outro lado, sofro transfobia, o que me coloca, senão numa posição de igualdade para entender a questão, num lugar de empatia bastante próximo: aquele de quem sabe o que é sofrer com o preconceito. Citando minha querida Sté, por ocasião de me apresentar durante minha palestra ano passado na Pós-graduação de Estudos Afro Orientais da UFBA, onde Sté é doutoranda em Antropologia (formada em ciências sociais e mestre em Antropologia pela UFRN): “Existe sororidade entre mulheres negras e mulheres trans”. Existe sim amigas. Existe sororidade, existe consciência dos lugares de fala, existe serenidade para saber ouvir, existe respeito pelas trajetórias.

Essas duas incríveis mulheres negras, além de pessoas lindas e queridas e verdadeiras, são também artistas muito versáteis, passando pelo artesanato, pela pintura, chegando à dança (especialidades: dança de salão e ritmos afro-brasileiros e caribenhos), à capoeira, aos instrumentos (Sté toca pandeiro e berimabau). Claudia é Graduada e Mestre em Artes pela UFRN, arte educadora nas redes municipal e estadual do RN, uma arretada filha de Iemanjá, dona de sorriso cativante e personalidade forte. Sté, além da formação acadêmica e artística já citada, tem uma forte veia social que vem sendo realizada através da criação em junho desse ano do Quilombo Flor de Milho, na comunidade de São Lázaro em Salvador. Lugar de vivências libertárias, que tem se destacado pela promoção de um escambo cultural e artístico (o qual eu mesma já me utilizei duas vezes) através do qual pensadores ou artistas de variadas origens dão palestras ou realizam oficinas em troca da hospedagem. Através de intercambio similar, Sté está nesse momento na Colômbia, dando oficinas de capoeiras e ganhando aulas de esgrima. Ai ai, Sté, vc é demais! Plural, diversificada, idealista. Claudia, vc é disciplina, preciosismo, lealdade. Vocês juntas são uma dupla de amigas cuja presença em minha vida é muito decisiva, as aprendizagens, os papos, as lutas, devo tanto a vocês meninas. De modo que espero, ao ceder a vocês meu espaço de fala, solidarizando-me, mais uma vez com as lutas de vocês que são, ou deveriam ser, nossas, estar, minimamente, saldando parte de tao grande débito. Assim, a partir de agora, a fala é de vocês:

O corpo negro americano é constituído nas contingências da diáspora e da situação colonial. Quando nos referimos a estudar-nos e a entender-nos temos a compreensão da existência tanto lapidada quanto mutilada, do caminhar pacífico de quem se compreende em uma constante guerra que não buscou, embora seja alvo. Raspei meus longos cabelos afro e agora de longe, sou vista como um homem negro e as armas policiais me buscam. Se nos veem como mulher negra transformamo-nos em alvos piorados pois até nossos irmãos são algozes. A violência é uma constante e por onde escolhemos andar não há espaço para fragilidade. Nossas escolhas moram na liberdade, nosso contrário mora na guerra para mantê-la. Temos corpos em trânsito que caminham por onde mudam as paisagens, o racismo no entanto continua o mesmo.

Há dias em que não queremos lutar, mas essa não é uma escolha, é sobrevivência. No 20 de Novembro lembrando Zumbi, Dandara, Estefânia, agradecemos aos nossos irmãos de sangue e de luta. Às mulheres e homens negros que nos antecederam e que nos fizeram livres para continuar a contar a nossa história aos que nos acompanham agora. Todos os nossos dias são longos e há tempos estamos lutando, cansamos, juntos nos realimentamos e continuamos, nossa luta é plural. Enfrentamos em grupo pois nossas raízes nos fizeram coletivos, de pés no chão tocamos o atabaque e quando o som reverbera pela terra e nos invade pelos pés nos fortalecemos.

As histórias de violência não são contadas nem na escola nem na TV, a informação que desejam circular é de um país miscigenado e de harmonia em diferenças, mas a minha cor é um lugar de negação sendo apontada em expressões racistas que pessoas – sobretudo não negras – custam a entender, nos embates com a polícia apenas extermínio mas nos espaços de visibilidade nossa importância se apaga; ao sermos lembrados pela nossa cultura somos capoeiras, passistas, percussionistas, somos, mas vejam: somos antropólogas e não nos cabe mais servir de ‘negro objeto’. Mais vale que os brancos vão estudar os temas de privilegio e branquitude e nos deixem fora das jaulas dos zoológicos humanos. Oficialmente, eles foram extintos pela metade do século 20, mas a oficialidade das libertações não costuma acompanhar os processos de subalternização contemporâneos pelos quais seguimos passando.

Muito além de estarmos sendo doutrinados por instituições de ensino neocolonizadoras, saímos de um processo de negação das memorias e pertencimentos identitários históricos (menticidio) que tratam de nos incumbirmos da busca pelas nossas raízes em busca da sabedoria ancestral. Lá no começo dessa luta, as mães nos terreiros compravam a alforrias de seus irmãos, muito se correu por dentro do mato e o que antes era mato hoje é beco e morro. Hoje, mulheres negras afrontam olhos alheios com seus cabelos ao natural, livres, ensinando as outras que é bonito sair com nossas coroas sobre as cabeças, fazendo as grandes marcas de produtos de beleza nos enxergarem, negócios de moda afro que tem a frente essas mulheres surgem pensando o nosso colorido e nossos corpos. Mas essa é a ponta mais higienizada desse iceberg. A maioria das nossas irmãs negras não tem a chance ainda de pensar em seus cabelos: o estado não quer que nós tenhamos nossos filhos, não temos condições de dar-lhes de comer, muitas vezes tampouco o direito à justiça e a enterrar nossos bebês, estamos nos referindo ao extermínio da população negra. Somos a maioria das vítimas da violência obstétrica, o feminicídio contra mulheres negras aumentou mais de 50%, enquanto contra mulheres brancas os índices diminuíram. A população jovem assassinada é, em sua imensa maioria, negra, assim como o são também as populações carcerária e manicomial.

A integração do povo negro na sociedade após a abolição não aconteceu, e a abolição continua por se realizar plenamente nesse porvir. A duras penas, hoje estamos cada vez mais presentes em espaços de diálogo, criando coletivos de ações afirmativas, trazendo nossas irmãs e irmãos para dentro dos espaços educativos conseguimos nos defender das forças contrárias que necessitam esconder nossa cor.

Somos um corpo ancestral, nos carregamos todos um dentro do outro, em nossa história. Na diáspora tivemos nossos corpos fragmentados e suturados, tivemos nosso corpo mutilado e reconstruído por uma trajetória de violências ao tempo que se enraizava culturalmente nas terras de além mar. Mas como guerreiras e guerreiros que somos, sobrevivemos.

Aos meus mais velhos todo nosso respeito.”

Claudia e Stephanie Moreira

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Historiadora e Militante LGBT