OPINIÃO

Luto e literatura

Como lidar com um luto?

Ao se perder uma pessoa querida para essa única certeza que temos na vida – a morte, cada um reage à sua maneira. E da revolta à aceitação que um luto implica, muitas são as possibilidades para se tocar a existência com a ausência implacavelmente dolorosa de alguém amado, seja familiar ou amigo. Não importa o quanto saibamos: subitamente, aquela presença tão fundamental na história de nosso viver se faz ausente e a vida, sempre urgente, exige que sigamos em frente.

Estou vivendo a condição de ser, agora, órfã. Minha mãe morreu, ou, como diria Guimarães Rosa, encantou-se. E, diante do peso da insignificância que tudo ao redor assume nestes dias, fui me valer, novamente, dela: a literatura.

Primeiramente, agarrei-me, eu e minha dor, à Chimamanda Adichie e seu “Notas sobre o luto” (Companhia das Letras, 2020), em que a escritora nigeriana desabafa a tristeza de perder seu pai para a Covid-19, e mais: de não poder se despedir de seu ente amado por meio dos rituais funerários habituais. Em meio a uma avalanche de sensações, ela ressalta as lembranças e conversas que suscitam também, junto às lágrimas, alegres recordações. Foi mais ou menos o que meus irmãos e eu experimentamos, na volta do sepultamento. E é exatamente como descreve Chimamanda:

“Às vezes elas (as lembranças) trazem o riso, mas um riso que é como carvões em brasa que logo voltam a se transformar nas chamas da dor.”

E a vida vai seguindo, arrastada. O livro de Chimanda não me conforta de todo, afinal (nunca há conforto pleno), e eu me agarro então à dica de leitura que minha irmã, companheira de luto, coincidentemente lia antes de nossa mãe partir: o mais recente romance de Patrícia Melo, “Mulheres Empilhadas” (Editora Leya, 2019).

Eu já era fã da prosa afiada de Patrícia Melo, em que a intriga policial se mescla com maestria à polifonia narrativa. Mas que consolo foi ler a trama de uma protagonista-narradora advogada que, ainda não resolvida com a morte da mãe na infância, tem que lidar com casos de feminicídios (inclusive de mulheres indígenas) na cidade acreana de Cruzeiro do Sul.

Eu me atrevo a dizer que o livro de Patrícia (que, coincidentemente – mais uma vez – dedica-o a algumas mulheres, dentre elas uma Celina), foi um dos melhores parceiros nestes dias tão difíceis. Foi em trechos como este que achei o consolo de que precisava:

“Minha mãe estava morta. Havia uma pilha de mulheres mortas à minha volta. Todos aqueles nomes que anotei no caderno. Todas aquelas vidas desperdiçadas. Mas eu estava viva. E eu sentia e via a graça da vida bem diante de meus olhos. Revoada de periquitos. Rodeada de indígenas. O rio logo ali. Aqui a floresta. Acho que era por isso que eu estava chorando. Estar ali, viva, era quase como ter conseguido fotografar pessoalmente o buraco negro do universo. Era também uma espécie de poesia”.

Sim, a vida segue e, com todas as dores que há, ela sempre nos sopra, de muitas formas (como por exemplo em meio às páginas de um livro), que devemos celebrá-la.

Gratidão, Chimamanda e Patrícia! Gratidão, mãe!

 

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