DEMOCRACIA

Mãe solo, candidata leva filha para atividade de campanha e é acusada de explorar trabalho infantil

Produtora cultural e audiovisual e professora de inglês, Andreia Souza está disputando vaga na Câmara Municipal de Natal com a candidatura coletiva Bancada Divergente, do PDT. Além de enfrentar as adversidades próprias a uma mãe solo e negra na política, nesta semana “Andreia da Bancada” foi surpreendida com um processo em que é acusada de exploração de trabalho infantil por publicar fotos de atividade de campanha em que estava acompanhada pela filha de sete anos de idade.

“Não temos santinhos, então entregamos cartas explicando quem somos, o que é mandato coletivo, quais são as nossas propostas. E minha filha anda comigo. A gente anda com uma camiseta, com bandeira e vou entregando”, relata a candidata, destacando que a criança, que estuda em escola pública, está sem aulas desde antes da pandemia.

A denúncia foi realizada por meio do aplicativo Pardal e o coletivo, formado por mulheres, considerou que essa ação busca desestabilizar uma campanha propositiva e com pouca estrutura.

“Nossa titular é uma mãe solo, sua filha sempre está com ela. Se deixamos em casa é abandono de incapaz se nos acompanham é exploração. Exploração e trabalho infantil é algo muito sério e cruel. Vai muito além do que vemos nas fotos que usaram como evidência. Além de uma atitude de pura maldade, coloca de maneira frívola uma condição de degradação”, publicou a chapa que é composta também pela Irmã Roberta e a taróloga Julia Paiva, incluindo também com colaboração de Tia Lidi e Natália, todas sem filiação partidária.

A defesa conta com advogado do PDT, porém Andreia revela que a candidatura desde o começo tem dificuldades em encontrar espaço dentro do partido.

Linha política e barreiras

Andreia Souza se considera “artivista” (arte-ativista) e participa de movimentos pela inserção de mulheres na política, como o “Vai ter mulher sim” e “Vote Nelas”, além de ter trabalhos voltados ao combate à violência contra a mulher e combate à exploração sexual infanto-juvenil com ênfase em meninos.

Já passou pelo PT, PMB, PSOL e PP. Após ter participado de curso na escola de formação política Renova Br em 2019, foi convidada e topou ingressar no PDT. Ela considera que não tem um viés político-partidário, mas sim social, uma causa: lutar contra a invisibilidade, colocar em debate a exploração sexual e a violência contra a mulher. “Entrei na política por causas, não por letras”, resume.

Andreia admite que o trânsito em partidos diversos, até mesmo de direita, lhe permitiram ter voz em espaços geralmente negados a mulheres negras. Apesar disso, relata que teve dificuldade em instituir uma proposta de mandato coletivo dentro do PDT (que a nível nacional se posiciona como centro), lembrando também que chegou a pensar em desistir no meio percurso e foi desencorajada pelos correligionários, por ser mulher e, assim, contribuir para o preenchimento das cotas partidárias.

“Disseram que eu ia estragar o sonho de outros homens”, conta, lamentando ter percebido que sua candidatura funciona para o PDT como uma “garantia para outros caras com chances maiores”.

As dificuldades passaram também por questões formais que resultaram em invisibilização de sua identidade. Preta, Andreia teve sua cor registrada na campanha inicialmente como parda. Mesmo tendo formação em curso técnico de Oceanografia e tendo cursado alguns períodos de Serviço Social na UFRN, o registro consta como se tivesse Nível Médio incompleto.

“Quando questionei falaram que em relação a cota eleitoral ia ser cumprido da mesma forma porque é para pretos e pardos, mas eu queria o meu registro. Eu quero que as próximas gerações vejam que nas eleições de 2020 houve um recorte racial de pretos. Foi uma briga grande para a retificação”, conta, destacando que até mesmo o e-mail foi cadastrado com erro.

Andreia da Bancada critica ainda o fato de mulheres receberem menos verba do fundo eleitoral que homens para usar na campanha. “Mulher branca recebe R$ 2.400; mulher negra, R$ 2.700. Homem branco, 3.400; homem negro, R$ 3.700. A gente como mulher recebe mil reais a menos. Não entendo bem como é que isso funciona”, reclama, ressaltando que as dificuldades em realizar a campanha com valor reduzido se agravam por sua condição econômica diante da pandemia.

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais