OPINIÃO

Máfia de terno e de farda

Leilane Assunção escreve às quintas-feiras, na agência Saiba Mais

Essa semana um grande amigo foi preso. Fiquei chocada, pois creio que não só eu mas a maioria das pessoas sensatas ainda associa o crime ao que ele é e deve ser de fato: violação da vida, do corpo, da propriedade de outrem ou do bem publico, etc.  E porque fiquei chocada? Porque esse amigo não é criminoso, nunca atacou nem atingiu ou fez algo para prejudicar a vida, propriedade, corpo, honra de seu ninguém, sei bem, pois  trata-se de um cara super pacífico, que pouco sai de casa e que apesar do seu porte físico avantajado tem escrúpulos de levantar a mão até para matar moscas, pois como biólogo, entende que elas têm uma importância no ciclo da vida, da natureza. Desculpa aí, viu querido, mas mosca e barata não dá para mim não, mato tudinho que cair nas minhas mãos, srsrsrs…

Brincadeiras à parte porque o assunto é muito sério, pois não só diz respeito à vida, a liberdade desse ser humano, meu caro João, que teve sua privacidade, sua honra, sua presunção de inocência (valor básico de qualquer democracia), sua casa, sua vida invadidas por uma sensacionalista, eleitoreira, estapafúrdia mesmo, intervenção policial na ultima segunda feira 26-03.

A casa do cultivador de todos os tipos de plantas, mui especialmente de cannabis, que tem um claro uso medicinal executado por João (e mesmo que fosse “só” uso recreativo não justificaria a truculência da ação policial) foi brutalmente invadida, sem mandado judicial na data referida. Dúzias de policiais, fortemente armados, alguns encapuzados, fizeram um espetáculo para a sociedade afim de, torpemente de acordo com os interesses do governador do RN, tentar emplacar de alguma forma a hoje patética promessa de campanha de “governador da segurança”.

Como a guerra às drogas não é movida pela racionalidade da ciência acadêmica que há anos vêm demonstrando que as drogas em si não são um problema para a sociedade, mas sim sua proibição é antes movida por racismo, sexismo e poderosos interesses econômicos escusos, além de uma alta dose de falso moralismo, ações como essa da polícia nesta segunda costuma ser aplaudidas por boa parte da população. Enquanto dúzias de policiais foram mobilizados contra um indefeso casal de bons cidadãos que vivem a filosofia do pacifismo e da comunhão com a natureza,  essa semana o RN foi exposto nacionalmente mais uma vez como destino turístico a ser evitado devida à violência homicida de suas ruas com o caso da morte da policial do estado de Santa Catarina que aqui passava férias com seu marido também policial aqui em Natal. Nessas horas me pergunto, se o foco na falida racista e moralista guerra às drogas não sangrasse tantos recursos materiais e humanos da polícia, esta certamente não estaria mais inteira, mais apta, mais preparada e com seu arsenal focado no que realmente importa, naqueles crimes de verdade a que me referi na abertura?

Se alguns dessas dúzias de policiais que invadiram a casa do meu amigo para recolher sementes de maconha (pasmem meu caro leitor, meu amigo foi preso por portar meia dúzia de sementes) tivessem sido mobilizados para reforçar o policiamento da Zona Norte de Natal onde ocorreu o assassinato da PM, será que a mesma teria perdido sua vida? Sem dúvida que não podemos responder com exatidão essa proposição, mas é bem razoável especular que não, ela não teria morrido, sabem por quê ? Porque a quantidade de policiais mobilizados para promover uma espetaculosa prisão que só tinha por objetivo enganar a sociedade com a ideia de que o governo está trabalhando pela segurança, poderia e deveria ter sido mobilizada para fazer policiamento preventivo, inibidor do crime, na cidade do Natal. Os assassinos da PM turista correm a pé pelas ruas, se ao menos tivesse uma patrulha da PM pela região naquele momento teria os prendido facilmente, mas não, onde estavam os policiais de Natal? Estavam na casa do João, meu amigo bonachão inofensivo à sociedade. Percebem, meu leitor, como o foco está errado? O que ofende mais a sociedade, um cidadão em dias com suas obrigações militares, eleitorais e tributárias: cultivar uma planta medicinal milenar na privacidade de sua casa para seu próprio uso medicinal e mesmo recreativo ou pessoas que assassinam seres humanos? Acho que não restam dúvidas a qualquer um de bom senso que me leia, não é?

Felizmente, devido à excelente assessoria jurídica e razoável mobilização dos ativistas e simpatizantes nas redes sociais, nessa última quarta feira dia 28, nosso amigo conseguiu voltar à liberdade, mas, claro, ainda precisa responder pela absurdidade de ser considerado “traficante”. É isso que a guerra às drogas faz: cria, como diria meu caro Rodrigo MacNiven na sua mui feliz metáfora de seu mais conhecido filme, uma “cortina de fumaça”, que impede as pessoas não bem informadas sobre o tema de perceberem, não só o caráter racista, classista e lgbtfobico da guerra às drogas como que os reais traficantes não são caras como o João nem de longe, são caras como Zezé Perrela, Aécio Neves, Blairo Maggi, Pezão e sua turma, ou seja: são grandes políticos, e são eles que fazem as leis e eles querem que isso tudo continue, pois como diria nosso saudoso Cazuza: “Transformam o país inteiro num puteiro, pois assim se ganha mais dinheiro”. Ou seja: como sabemos, todo comércio ilegal, é mais lucrativo, pois não paga imposto e pode praticar o preço que lhe aprouver, fora a falta de controle da qualidade que tem produzido graves problemas de saúde as pessoas que usam. De modo que os poderosos interesses de senhores (homens, brancos, heteros, ricos) como os que citei é que estão por trás dessa mentirosa, torpe, fajuta ideia de que se aumenta a segurança no Brasil aumentando a guerra as drogas.

Como sabem, sou ativista do antiproibicionismo brasileiro, tendo participado da fundação do primeiro coletivo antiproibicionista do RN, o coletivo cannabisativa, grupo que articulou e até hoje compõe a organização da Marcha da Maconha de Natal, que esse ano chega à sua 9ª. Edição. No próximo 31 de maio, compareça, a legalização interessa a toda a sociedade e não só a quem usa, leia e se informe, venha para nossas atividades.

Esse ano chega também a 9 edição do maior evento antiproibicionista do Norte-Nordeste do Brasil (e um dos maiores e mais importantes espaços do país de discussão da temática), o Ciclo de debates antiproibicionistas da UFRN que já recebeu os maiores nomes do Brasil no debate sobre política de drogas. Então, antes de se refugiar em discurso moral que usar drogas é ruim, degradante ou qualquer coisa desse tipo, vamos ler, assistir filmes, documentários sérios, participar de debates e se informar com qualidade porque precisamos urgente entender que o foco de reinvindicações da sociedade está errado, não se produz mais segurança com mais guerra às drogas, e sim com legalização de todas elas, em diversos níveis de controle e distribuição, mas todas elas.

Por isso, todos os que tentam manipular essa informação da sociedade convencendo-a do contrário, chamo-os de máfia de terno (os políticos que citei e outros menos conhecidos) e de farda, afinal, geralmente o policial é também uma vítima potencial da guerra às drogas  como exemplifica o caso da policial de Santa Catarina. É pobre matando pobre, preto matando preto, e o capitão do mato, o “Nho, Nho” rejubilando-se do alto da “casa-grande”.

Os policiais, apesar de ainda acreditar que em sua maioria são bons cidadãos apenas mal informados, alienados numa formação doutrinaria de aspecto quase messiânico, infelizmente jogam o jogo do sistema de opressão, pois muitos estão lamentavelmente convencidos de que é o melhor a se fazer. Conclamo-os a abrirem-se para o que temos a dizer enquanto ativistas, pesquisadores e pessoas que usam o que representa de fato o uso de drogas, abandonando o campo do moralismo e do achismo e se permitindo se informar com qualidade e sem preconceito sobre o tema. Sem dúvida, perceberão, tal como os policiais e agentes de segurança e da lei que assim já o fizeram (para mais informações visitem o site do Leap-Brasil  http://www.leapbrasil.com.br/) o quanto o fim dessa política atual de repressão também será benéfica para os próprios policiais. Mas para aqueles policiais, que estão matando e agredindo nas periferias e que se rejubilam com ações como as que levaram a prisão de João, meu desprezo e, por isso, chamo-os também, Máfia de farda. Responsáveis, dentre dezenas de milhares de mortes como as de Amarildo, Claudia e Mariele.

Policiais, vocês também são trabalhadores, recentemente a greve de vocês os lembrou disso né, então mais empatia por favor, mais humanidade na abordagem, mais respeito com o cidadão pobre e preto, ele não é criminoso por definição não, viu? Acima de tudo, mais apoio para mudar essa triste realidade que hoje a guerra às drogas submete nosso país.

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Historiadora e Militante LGBT