DEMOCRACIA

Mais da metade das candidaturas femininas registradas em Natal é de mulheres pretas e pardas

De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral, foram registradas em todo o estado do Rio Grande do Norte 10.501 candidaturas aos cargos para vereador, vice-prefeito e prefeito dos municípios. Desse total, apenas pouco mais de um terço, 3.568 registros foram realizados por mulheres. O número varia pouco em comparação com a última eleição municipal, realizada em 2016, quando 32,2% das candidaturas eram femininas. A diferença ocorreu na quantidade de mulheres autodeclaradas pardas e pretas a pleitear cargos eletivos nos municípios, que subiu de 47,9%, em 2016, para 53,3% neste ano.

Dessa forma, mais da metade das candidaturas femininas registradas no estado correspondem a esse perfil. Em Natal, mais mulheres resolveram pleitear cargos eletivos. De 190 registros em 2016, o número subiu para 250, um aumento de 31%.

A tendência crescente também seguiu na distinção de raça e cor, com aumento de 54% de mulheres autodeclaradas pardas e negras concorrendo em 2020, indo de 81 para 125 registros. Entram nessa classificação três chapas majoritárias: uma encabeçada por Jaidy Oliveira, do Democracia Cristã, e outra com Tatiana Pires, candidata à vice-prefeita pelo PSB. A terceira formação, seria composta por Elisabeth Lima (PT) como vice, mas houve renúncia da chapa à campanha.

A primeira parlamentar negra a assumir vaga na Câmara Municipal de Natal foi a socióloga Divaneide Basílio, em 2019. A vereadora petista substituiu Natália Bonavides, eleita deputada federal no último pleito. Em 2016, Diva, como também é conhecida, recebeu 2.236 votos e ficou na primeira suplência do Partido dos Trabalhadores, do qual se tornou presidente municipal no ano passado.

Divaneide Basílio tomou posse em 2019 na Câmara Municipal e se tornou a primeira vereadora negra de Natal (foto: Vlademir Alexandre)

Diva é candidata à reeleição e acredita que o crescimento das candidaturas de mulheres pretas e pardas são um acúmulo das lutas do movimento negro no país:

– Significa dizer que nós mulheres negras estamos nos empoderando, nos afirmando e ocupando espaços que são nossos e que muitas vezes a gente não ocupou. O resultado dessa luta antiga simboliza uma construção histórica, uma luta de muito tempo. É importante dizer que a visibilidade das mulheres negras também é um acúmulo para que isso repercuta nas eleições. A gente está falando do feminismo negro em vários espaços, incluindo espaços de poder como a Câmara e as eleições”, diz a parlamentar, que afirma representar no mandato todas as mulheres negras:

– Quando estou na Câmara e me reafirmo como mulher negra tenho muita certeza que não estou falando só de mim, mas de todas as mulheres negras. Mais que isso: sempre falo que uma mulher negra puxa a outra e aqui do meu lugar eu sinto que somos muitas vozes. E sinto também que a gente deixa nossa contribuição, nossa sementinha, não só da afirmação da nossa identidade como mulher negra, mas sobretudo de nós pautarmos políticas de igualdade racial todos os dias na Câmara. Senão for assim a gente não ocupa esse espaço”, defende.

Recentemente, o Tribunal Superior Eleitoral determinou a distribuição proporcional do Fundo Eleitoral e do tempo de TV para candidaturas negras. A decisão só valeria a partir de 2022, mas foi antecipada e já está em vigor nas eleições municipais de 2020.

Dentre os nomes que buscam o legislativo natalense, figura a petista Yara Costa. Aos 24 anos, a candidata é formada em Gestão de Políticas Públicas e preside a União Estadual dos Estudantes do Rio Grande do Norte.

Na série “Me Representa”, criada pela Agência Saiba Mais para dar espaços a candidatas e candidatos a vereador que defendem pautas do campo progressista, ela disse considerar difícil definir qual grupo representaria, tendo em vista que está envolvida com questões das mulheres negras, da periferia, além dos estudantes e LGBTs. Dessa forma, sua pauta se unificaria na busca por eleger uma candidatura que tenha como objetivo trabalhar para as periferias de Natal.

Outra candidata a se enquadrar no perfil é a psolista Tati Ribeiro. Também entrevistada no “Me Representa”, ela afirma que representa “tudo aquilo que a velha política não representa”. “Enquanto os mesmos homens brancos, héteros, continuam na câmara municipal, nas assembleias legislativas, na câmara federal, a gente quer uma política totalmente diferente que represente, de fato, a maior parte da população”, defende.

Advogada e especialista em Direito Administrativo, Aline Juliete (PT) tenta pela primeira vez uma vaga na Câmara Municipal. A campanha da petista também joga luz sobre a importância da representatividade nos espaços de poder:

– Eu represento as mulheres negras de periferia da cidade de Natal, que enfrentam diariamente o racismo na nossa cidade. Tentam nos invisibilizar; falar por nós; duvidam da nossa capacidade intelectual. E o pacto narcísico da branquitude cria obstáculos para que a gente ocupe bons empregos, espaços de decisão política. Mas eu represento também a primeira geração de jovens que acessou o ensino superior nas suas família”, afirmou.

Na mesma linha, Samara Martins se define como mulher, negra, mãe, dentista e moradora da periferia em Natal. Ela concorre pela Unidade Popular, partido recém-criado e que disputa eleições pela primeira vez no país.

– Nós acreditamos no sonho de uma sociedade livre da exploração e de toda forma de opressão, da opressão de classe, de gênero e de raça. Nós, mulheres negras queremos e precisamos ocupar os espaços de decisão política em nosso país. Defendemos a participação popular direta nas decisões políticas que dizem respeito a nossa cidade. A participação política não pode ser só votar, o povo tem que realmente decidir o que vai acontecer, quais são os rumos que a cidade vai tomar. Por isso queremos fortalecer os movimentos sociais organizados e que atuem junto com o mandato. Chega de decidirem por nós, sem nós”, disse.

Brisa Bracchi (PT) é outro nome que debuta nas eleições municipais deste ano. Membro do Coletivo Nacional de Juventude Negra (Enegrecer), cita a composição atual do legislativo municipal como

Acho que antes de dizer quem eu represento, é importante dizer quem a Câmara Municipal de Natal representa atualmente. Esse espaço hoje é composto de 72% homens, 69% brancos e mais de 40% tem mais de 50 anos. Ou seja, de fato, não representam a cara da nossa cidade. Eu sou fruto de uma geração que cresceu com o peito cheio de sonhos e que podia sonhar. Hoje coloco a minha voz, minha cara e a minha disposição para representar um projeto coletivo que quer fazer outra Natal acontecer, que reafirma que outra Natal é possível levando essas vozes excluídas desses espaços de poder pro centro da política e para a Câmara Municipal de Natal.

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