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Make Brazil Great Again!

Carlos Fialho escreve às segundas-feiras na agência Saiba Mais

Quando as urnas eletrônicas de 2014 produziram um resultado final apertado, alçando ao poder um governo em condições mais vulneráveis que uma cristaleira em um curral de rinocerontes, muitas partes interessadas aproveitaram a oportunidade para tomar proveito das fragilidades do executivo federal. Logo, começou-se a falar em “virar a página”, tomar atitudes enérgicas para interromper a crise e recuperar os investimentos e todo um movimento coordenado, impulsionado por manifestações nas ruas e ampla cobertura encorajadora dos principais veículos de comunicação do país.

Foi quando uma voz se destacou em meio a tantas que buscaram opinar sobre a então condição de instabilidade agravada por uma pauta bomba legislativa que apostava no “quanto pior, melhor” de forma que atingissem seu objetivo de impedimento presidencial, rezando na elementar cartilha maquiavélica dos fins a justificarem todo e qualquer meio a que se recorra para alcançá-los. O dono desta voz representava uma importante parcela da sociedade, detentora de enorme fatia do produto interno bruto nacional: a elite empresarial brasileira. Era ele, o presidente da Riachuelo, o potiguar Flávio Rocha.

Em entrevista ao Estado de São Paulo, ainda em 2016, ele afirmou categoricamente que “se Dilma sair, os investimentos retornam no dia seguinte”. Tanta firmeza na declaração serviu de combustível para muitos formadores de opinião favoráveis ao processo de impedimento ou golpe parlamentar articulado contra a presidente eleita. Afinal, Flávio Rocha era o álibi perfeito: vitorioso, bem sucedido, um modelo de gestor opinando sobre uma gestora fracassada, em franca derrocada moral e administrativa. Quem poderia contradizê-lo? Sua entrevista serviu de muleta para os claudicantes argumentos sustentados pelos defensores do impeachment que estava em curso.

Como um assíduo usuário de redes sociais, logo o empresário passou a se mostrar cada vez mais livre e desenvolto, manifestando-se sobre muitos assuntos da política e economia nacional. Enfeitava as vitrines das lojas de verde e amarelo em dias de atos contrários ao governo e postava nos seus perfis, fazia piadas sarcásticas endereçadas a correntes de pensamento diversas da sua. Com a mudança na presidência, passou a apoiar com entusiasmo as medidas do governo Temer e intensificou sua atividade online, apreciando bastante o perfil mais descolado e jovial que a Internet lhe conferia, tornando-se uma espécie de membro honorário do MBL da maturidade. Começou a dar entrevistas em todos os meios e veículos possíveis. Também passou a assinar artigos no Estadão onde, mais do que defender sua visão de mundo e valores, ocupou-se de atacar e denunciar o que ele considera uma conspiração esquerdista ou ameaça comunista que tem por objetivo transformar o Brasil numa Venezuela.

Para justificar tão ativa participação na mídia, decretou o fim do que definiu como “empresário moita”, que se omitia de participar das decisões importantes para os rumos da nação. E decretou a era do “empresário cidadão”, aquele que procura liderar o processo de tornar o Brasil um país mais livre. Tais ações evidenciam uma diferença básica entre Flávio e seu pai, o também empresário Nevaldo Rocha, reconhecidamente de perfil discreto. Certa vez, um jornalista que prestava assessoria de imprensa para o shopping Midway Mall (pertencente à família) disse ao senhor Nevaldo que gostaria de escrever uma biografia sua. O patriarca educadamente, agradeceu, mas não se mostrou interessado. Também são atribuídas ao Rocha sênior ideias como a construção do Teatro Riachuelo e a gratuidade no estacionamento do Midway. Ações bem difíceis de imaginar partindo do filho tuiteiro.

Não vou entrar nos méritos da recente polêmica judicial na qual se envolveu a Riachuelo. Ouvi pessoas que defendem ambos os lados desta disputa e me considero leigo no assunto. Prefiro me ater aqui nas opiniões expressas pelo influencer conterrâneo.

Nada demais em defender uma menor participação estatal na economia e uma diminuição de ações intervencionistas do setor público na vida privada. Também não surpreende que a crença na autoregulação do mercado, presente no discurso liberal padrão tenha lugar de destaque em sua retórica. A exaltação da meritocracia como estratégia infalível de ascensão social onde se diz que o sucesso de alguém é diretamente proporcional ao esforço empreendido, bem como a oposição ferrenha e alarmista de movimentos sociais ou ideias de esquerda são atitudes naturais da linha da qual faz parte. Mesmo uma participação mais ativa do empresariado que tem chamado a si mesmos de “classe produtiva” estão em perfeito acordo com a agenda de sua classe.

O que causa estranhamento e pode se configurar em enorme fonte de rejeição de Flávio Rocha como figura pública é o viés conservador acoplado a suas falas mais recentes. Não é novidade pra ninguém que o empresário tem reais pretensões políticas, já tendo sido inclusive Deputado Federal e até candidato à presidência da República. Tal ambição talvez explique a obsessão pela própria imagem levada a cabo nas redes sociais. Em entrevistas dadas este ano, tem tentado desqualificar o pré-candidato Jair Bolsonaro dizendo que ele é um “esquerdista na economia” e tenta cortejar o eleitor do ex-militar ao dizer que o Brasil precisa de um presidente “liberal na economia e conservador nos costumes” e aponta esta figura, ora ausente do tabuleiro político, como “o candidato óbvio”. Ele nega que tenha a pretensão de assumir este fardo, mas deve-se reconhecer que preenche com sobras os requisitos necessários.

Em outubro passado, quando a turba ensandecida que saiu às ruas batendo panela de camisa da CBF andava meio entediada, resolveu se voltar contra exposições de arte, acusando-as de serem ambientes de pedofilia e imoralidade. Numa exposição em Porto Alegre, membros da milícia do Movimento Brasil Livre (?) agrediram seguidamente pessoas que frequentavam o local, constrangendo-as com gritos e xingamentos. O Riachuelo Boy não só aprovou a ação como cometeu um artigo intitulado “O comunista está nu” que já se tornou referência de vergonha alheia no país, no qual declarava que os artistas estavam, na verdade, executando “um plano urdido nas esferas mais sofisticadas do esquerdismo.” E alertava os cidadãos: “Exposições são só um exemplo.”

Mas acreditem, ele não se conteve aí. Seguiu em frente, denunciando a “associação de capitalismo e picaretagem na dramaturgia da TV,…vitimização das cracolândias, certo discurso politicamente correto nas escolas… Ante tal estratégia, Lênin e companhia parecem um tanto ingênuos”.  Por fim, conclui: “resta zelar pelos valores de nossa sociedade.”

Sua cruzada rumo à combinação perfeita entre liberalismo e conservadorismo parece buscar agradar a classe média brasileira, porém esbarra na lógica. Vejam o que disse a respeito do conceito de “liberal-conservador”, o diretor do “Instituto Liberal”, João Luiz Mauad: “(o termo) liberal-conservador é um oximoro, uma contradição em termos. Os liberais se encontram no meio de uma linha em que os extremos são ocupados, à direita, por conservadores e, à esquerda, por socialistas… a verdade é que podem ser traçadas fronteiras bem nítidas entre essas três correntes.  Assim como os ditos socialistas podem ser mais ou menos radicais (comunistas ou social-democratas), o mesmo ocorre com os conservadores e com os próprios liberais.  Entretanto, nenhuma dessas correntes ou ideologias se funde com a outra.  Assim como não existe “social-liberalismo”, também não acho adequado falar de “liberal-conservadorismo” ou “social-conservadorismo”.”

O desafio da lógica feito pelo empresário tem uma razão de ser. Trata-se de uma estratégia calculada. Ele acredita, conforme disse recentemente no lançamento de uma carta-manifesto em Nova York, que “a defesa da livre iniciativa vai consertar o país, mas não vai ganhar a eleição. O que vai ganhar a eleição é o discurso contra o desarmamento, ideologia de gênero e defesa da redução da maioridade penal”. Ele fez ainda um diagnóstico de que a falta de um candidato da direita se deve ao fato de os postulantes ainda estarem restritos ao discurso econômico que atinge apenas 10% da população e “impregnados pelo marxismo cultural” além de anestesiados pelo “politicamente correto”. Para ele, a defesa do politicamente correto é uma bandeira de uma minoria da população, mas “uma minoria bastante vocal”.

Olha, se ele ou o apoiado por ele quiser se tornar o candidato da sinceridade, tá de parabéns, mas já adianto a todos que este discurso aí tem enorme rejeição ante a opinião pública pelo simples fato de que traz um festival de eufemismos para mascarar o preconceito (politicamente incorreto), a homofobia (combate a uma suposta ideologia de gênero) e ideias bastante alinhadas à perpetuação do apartheid social que vivemos (revogação do estatuto do desarmamento, diminuição da maioridade penal).

Recusar-se a enxergar o enorme contingente da população que vai rejeitar este discurso pelo simples fato de ele ser não só contraditório, mas também elitista, seletivo e muito (mas muito mesmo) preconceituoso é sinal de que o empresário vive numa espécie de bolha, convivendo apenas com pessoas que são simpáticas às mesmas convicções que ele ou ainda rodeado de profissionais que o bajulam sem a menor cerimônia, o que foi possível constatar recentemente entre colunistas do jornalismo potiguar. A distância que ele demonstra de qualquer noção do que é o Brasil real, da convivência mais diversa e plural o conduz a um caminho de extremismo e de certezas absolutas.

Flávio Rocha é o Donald Trump brasileiro e, talvez, seja esse o seu sonho de princesa: tornar-se aqui o que o magnata de cabelo laranja acabou virando lá. O discurso radical e sectário, a atuação desinibida nas redes sociais, a vaidade desmedida, a denúncia insistente de um inimigo imaginário existente apenas em seus delírios mais paranoicos são apenas alguns elementos a aproximarem os personagens. Trump combate moinhos de vento como as “fake news” (notícias falsas), como ele chama toda crítica que recebe, enquanto Rocha denuncia o poder e a enorme influência social de um modelo econômico e sistema de governo que já não existe desde a queda do muro de Berlim. Falta ainda agregar ao seu discurso o “negacionismo” defendido pelo americano, movimento que afirma ser mentira o aquecimento global, mas talvez ele apenas não tenha sido perguntado ainda.

Em todo caso, se tiver a ousadia necessária e a coragem requerida, acredito que será interessante vê-lo se confrontar com a ideia de que o país em que ele vive, talvez a contragosto, não condiz com a imagem que ele criou em sua cabeça. Mas aí, não vai mais adiantar botar a culpa em Marx ou Lênin.

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Carlos Fialho é escritor, publicitário, jornalista e escreve às segundas-feiras