OPINIÃO

mamãe, olha, pessoas que moram na rua

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– mamãe, olha, pessoas que moram na rua.
– tô vendo, amor.
– elas moram na rua porque elas não têm casa. é muito triste.
– é muito triste, meu amor, é um absurdo, né?
– é um absurdo que elas não têm casa.
– é sim, muito.
– eeeeeeee que tal, se elas forem pra nossa casa?

atom,

a primeira vez que você viu uma pessoa dormindo na rua você paralisou. ainda não tinha 3 anos. faltava pouco, mas não tinha. era noite, tava frio, muito frio. e muitas pessoas passavam apressadas de um lado para o outro na confusão da paulista. você caminhava ao meu lado. quando senti que começou a andar mais devagar, quase parando, parou. olhava aquele homem deitado no chão. você parou. perdeu o riso. a brincadeira. seu corpo parado. braços, pernas parados. seus olhos parados. meu mundo parou.

te chamei algumas vezes, você parecia estar em outro lugar, certamente no mundo de dentro de você. que é tudo tão mais justo. tão mais fácil de entender. aqui não é. você vai saber. mas não esqueça de voltar sempre pro mundo de dentro de você.

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continuando nosso momento parado. parecia cena de filme. a câmera nos rodeando numa ciranda sem fim. parando. parou. parou em você. eu te chamei. te chamei algumas vezes. você não respondia. a noite. o frio. o homem no chão. seus olhos sem entender. as pessoas passando. ninguém via. só você. o tempo parado. a câmera. o filme. a realidade cortando nosso peito. o frio cortando nossa cara.

te chamei mais forte. eu toquei em você. você me olhou. a câmera chegou mais perto. você perguntou. mamãe, por que ele está dormindo na rua? a câmera me olhou. eu chorei. é duro explicar pra uma criança esse mundo de fora da gente.

desde então, você sempre me mostra as pessoas que dormem nas veias dessa cidade sem sono.

“as lágrimas vão chorar” você também me disse hoje. minhas lágrimas chorarão sempre porque você me atravessa, tua sensibilidade me refaz.

com todo meu amor, pra sempre sua casa, mamãe.

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Eveline Sin é artista, poeta e grafiteira. Escreve às quartas-feiras.

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