OPINIÃO

Manifesto do silêncio

Uma sociedade que preza pelo conflito, na qual as conquistas de direitos se dão através das vozes nas ruas, dos gritos nos parlamentos, das bandeiras diversas a tremular, do corpo pintado e da marcha popular. Que reclama os assédios, os abusos, as violações brutais de direitos essenciais. Mas há violação esquecida, silenciada nos quartos, na tristeza e no abandono. Nela não há gritos, apenas pequenos gemidos, uma vergonha de não poder, a incapacitação do manifesto de se levantar.

É dessas mulheres que quero falar, e que são milhares agora. Não irão às ruas, não estarão nas marchas, nem mesmo nos auditórios, ao menos irão ao trabalho. São o exército do manifesto da dor, abaladas, enclausuradas em seus quartos, violentadas nos seus direitos mais elementares e não serão ouvidas porquê não podem ir para o conflito direto, e tantos sabem delas, comentam em pequenas conversas, e seguem a abandonar.

As lutas são todas válidas quando a Justiça rege seus fundamentos, mas o silêncio é arma atroz a uma violência que não entra na pauta social.

Tenho um clamor às que lutam pelos direitos das mulheres, lutam pelas vozes silenciadas, todas as que somam forças contra as violações pela falta de acesso a políticas públicas. Ouçam as mulheres emudecidas pela dor.

Tantas irão sucumbir e outras vão arrastar seus traumas. Há centenas de anos, as políticas de atenção à saúde das mulheres pouco avança, as políticas públicas muito menos, doenças como endometriose que tem relato em escritos de Sócrates, ainda hoje não reconhecidas pelo poder público e pelo Ministério do Trabalho, as pesquisas científicas estão guardadas em poucas gavetas de quem deseja que seja diferente.

E foi nesse silêncio que perdi minha companheira para a endometriose.

Nenhum grito, nenhum manifesto, nenhuma sororidade pude acompanhar. Perdi no silêncio após o manifesto solitário do último suspiro.

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