DEMOCRACIA

Manifesto: “Ser um policial antifascista é ter um compromisso real com a democracia”

O Movimento dos Policiais Antifascismo do Rio Grande do Norte lançou recentemente um manifesto no qual destaca a crise na Segurança Pública do Estado pautada pelo discurso beligerante de guerra ao crime e armamentista que tem gerado ainda mais violência.

A agência Saiba Mais publica o manifesto na íntegra:

Policiais Antifascistas do Rio Grande do Norte – Um Manifesto

Outrora região conhecida pelas belas praias, clima ameno e qualidade de vida, o Rio Grande do Norte ostenta hoje o triste título de ser um dos mais violentos do país. Natal é a capital dos homicídios, e, somente este ano, mais de uma dúzia de policiais tombaram em serviço ou fora dele, assassinados tais como outros milhares de cidadãos, vítimas preferenciais da criminalidade, das quais, nós, policiais, juramos defender.

Tal violência é produto de um sistema autoritário e injusto. Com a perda de investimentos em políticas sociais e a valorização profissional, os profissionais da segurança se vem tragados por um turbilhão demagógico de discursos repressivos, que apenas intensificam o problema da violência e não a sua resolução. Não é com base no armamentismo e nem na transformação de agentes da lei em pistoleiros do Estado, que a espiral massacrante do crime irá diminuir em nossa região. Policiais são, acima de tudo, trabalhadores; e como trabalhadores merecem ter seus direitos respeitados, e o principal deles é o devido reconhecimento, com medidas que reformem a instituição policial, dinamizem seu efeito, qualifiquem seus servidores, e, sobretudo, mantenham o compromisso com o Estado democrático de direito.

Somos antifascistas, e por antifascismo deve-se entender o repúdio ao discurso beligerante de guerra ao crime, o proibicionismo que somente gera mais criminalidade, a rejeição a todas as formas de misoginia e homofobia, reconhecendo-se o relevante papel de homens e mulheres nas corporações policiais, independente de gênero e orientação sexual. Defendemos o reconhecimento do direito de greve e formulamos nossa crítica ao equivocado modelo militarizado de segurança, uma herança ditatorial e símbolo de um anacronismo que ainda se mantém na estrutura policial e que necessita de transformação, se desejamos uma polícia moderna de fato.

Abominamos o racismo e a estigmatização social, e queremos uma polícia efetivamente voltada para os mais pobres, para o atendimento das necessidades dos mais vulneráveis socialmente. Investimentos em formação e incentivo ao trabalho científico na atividade policial são fundamentais para a manutenção de servidores policiais que respeitem valores democráticos, e que contribuam, respectivamente, para elucidação de delitos.

Somos contra todo o fisiologismo e clientelismo que marcaram historicamente a formação da cúpula do aparato policial no Rio Grande do Norte, e defendemos mecanismos democráticos de eleição e aclamação dos comandos da Polícia Militar, da Polícia Civil, da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal, do Corpo de Bombeiros e do Instituto Técnico Científico de Polícia.

Queremos, em suma, uma polícia e segurança pública conectados com os reais interesses da sociedade e de milhares de cidadãos e cidadãs norteriograndenses. Integramos, orgulhosamente, o Movimento Policiais Antifascismo nacional, por acreditar que, em todas as unidades da federação, de nosso imenso país, nas mais distintas corporações policiais, os problemas são semelhantes, e somente unindo-se à uma pauta global poderemos combater com vigor o fascismo, nas suas mais variadas representações.

Somos contra o jargão “bandido bom=bandido morto”, porque entendemos que é muito mais relevante para a sociedade termos um: policial vivo=cidadão respeitado. Para isso, queremos uma polícia no marco constitucional, onde os direitos de todos, policiais e demais trabalhadores, sejam efetivamente reconhecidos, e a segurança seja um benefício para todos os cidadãos, e não apenas um subterfúgio para se exercer a repressão pura e simples dos mais pobres e mais necessitados.

Ser um policial antifascista é, portanto, ter um compromisso real com a democracia, com uma segurança pública de qualidade e com o povo brasileiro.

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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