OPINIÃO

Maquete de democracia

João Victor escreve aos sábados

O uso desproporcional da força pela polícia em manifestações públicas é uma das cenas mais recorrentes da vida política brasileira. Você nem precisa se esforçar pra lembrar de alguma manifestação duramente reprimida pelas forças de segurança. Elas acontecem todos os anos, várias vezes por ano. Possivelmente, você até já participou de alguma.

Essa construção cotidiana de repressão, que deveria ter virado algo distante após a redemocratização, é tática comum empregada por governos, de diferentes matizes ideológicas, no tratamento do povo quando esse resolve se manifestar, de maneira afirmativa, pelos direitos que esses governos não querem garantir.

No Rio Grande do Norte, servidores públicos estaduais estão faz 22 meses sem dia certo pra receber os salários. Nos últimos dois meses, categorias essenciais não receberam pagamento algum. Diante dessa situação limite, sensatez deveria ser um elemento em abundância nos palácios e secretarias de governo. Contudo, o governador escolheu abrir a negociação jogando bomba, spray de pimenta e gás lacrimogêneo nos trabalhadores que ocupavam um dos prédios da governadoria.

Dificilmente a sua escolha pela truculência terá uma resposta por parte dos órgãos de controle, da imprensa e da população em geral. Assim seguiremos, daqui uns dias, para uma nova manifestação, onde veremos novas cenas de abuso e truculência, tratando a violência de estado como se ela fosse algo natural da paisagem. Uma obviedade.

Precisamos sempre, diante das rotinas de falas autoritárias que tomam às ruas e os parlamentos brasileiros, lembrar que a democracia só pode ser garantida se os seus cidadãos tiverem respeitados o livre direito de manifestação e de reunião. Esses direitos não são superiores a outras garantias constitucionais, mas também não são inferiores ou de uso ocasional.

O que vemos, repetidas vezes, é uma construção perversa que tenta consolidar na opinião pública a ideia de que a intervenção violenta de forças de segurança em manifestações políticas é um ato necessário e indispensável.

Como se a manifestação de rua, a greve, o protesto fossem direitos de segunda categoria, renunciáveis. Tudo isso amparado por um judiciário já perdido nas contas dos milhares de reais de suas verbas auxiliares.

Sempre estranho imaginar, o que aconteceria ao governador se o salário de juiz atrasasse como atrasa o de um professor?

O uso recorrente do aparato de estado para agredir seus cidadãos, mostra que uma maioria silenciosa ainda consegue tolerar bomba e bala de borracha jogada em professor e estudante, deixando às claras que ainda temos uma democracia em estado de maquete: muito parecida com o que deveria ser, mas ainda frágil, pronta para ser quebrada a qualquer momento.

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Jornalista e militante de direitos humanos