OPINIÃO

Marcos Vinícius

“Ele não viu que eu estava com roupa de escola, mãe?” Estas foram as últimas palavras de Marcos Vinícius, estudante, assassinado pela Polícia do Rio de Janeiro na última semana. Essa frase não tem saído da minha cabeça, ecoa incessantemente desde que a li, as imagens da mãe cobrindo o caixão com a farda escolar manchada de sangue e depois beijando o rosto sem vida do menino são fotogramas que agem como feridas na alma, dessas que demoram a sarar. O Estado que o matou ofereceu condolências e ajuda material para que fosse realizado um funeral, uma vez que a família tinha poucas condições de bancar o sepultamento. Um gesto mínimo que pode ser visto a um só tempo como solidário e humilhante. “Ele não viu que eu estava com roupa de escola, mãe?”

Retrocedo no tempo para agosto de 1992. Não tivemos Copa naquele ano, mas os olhos do mundo haviam se voltado para Barcelona, onde foram realizados os Jogos Olímpicos daquele ano. Teve “Dream Team” de basquete e o Flamengo havia sido campeão brasileiro no primeiro semestre. Eu tinha 13 anos e um irmão mais velho, de 21, com quem finalmente eu estreitava laços de amizades mais firmes. A diferença de idade entre nós havia sido um obstáculo para nossa aproximação, uma vez que éramos também muito distintos nos interesses, temperamentos, opiniões. Tudo isso somando-se ao fato de meu irmão sempre ter sido muito precoce e eu de ter tido um amadurecimento mais lento. Porém, ali, no desabrochar da adolescência, quando chegado o momento de aposentar os “Comandos em Ação” e passar a dedicar mais tempo aos jogos de futebol na TV que aos desenhos animados, meu irmão e eu começamos a convergir. E ele tinha toda uma trajetória de vida e experiências bem (e mal) sucedidas para me passar, evitando que eu entrasse em roubadas ou me apontando atalhos corretos nessa eterna estrada acidentada e cheia de bifurcações que é a vida.

Passamos vários dias de julho daquele ano (férias da faculdade dele e da minha escola) em Caicó, aproveitando a  Festa de Santana (padroeira da cidade). Conversamos bastante, rimos, dividimos um quarto e alegramos nossa mãe com nossa presença e alegria. Foi o início de uma nova era para mim, na qual eu teria um aliado, um mentor a me instruir sobre a difícil arte de falar com as garotas, me ensinar coisas sobre o Flamengo e o futebol em geral, curtir experiências pueris como ver aquele time de basquete dos Estados Unidos dar aquele show, enfim, os pequenos momentos que constroem grandes relações. Só que veio o mês de agosto.

Na madrugada de 16 de agosto de 1992, meu irmão Marcos Vinícius, estudante, foi morto pela Polícia Militar do Rio Grande do Norte. Minha mãe recebeu o telefonema por volta das 2h da manhã. Lembro do telefone tocando em plena madrugada e, quando isso ocorria, já se imaginava que más notícias chegavam àquela casa. Lembro dela trocar algumas palavras com a pessoa do outro lado da linha e a certa altura dizer: “Morreu?” Eu seguia paralisado na cama, em meu quarto. Quando desligou o telefone, ela caminhou até o corredor do apartamento e parou na frente de uma foto de Marquinhos na parede e disse: “Meu filho, meu amor…”. A impressão que tenho é que tudo o que vivi desde então foi epílogo daquele instante.

Aos 13 anos, fui levado a aprender que a maior dor do mundo é o de uma mãe e de um pai que perdem um filho. São vidas destroçadas pelo sofrimento, pela saudade e pelo sentimento de impotência. Num primeiro momento, pede-se justiça, espera-se por vingança, agarra-se a alguma fé, roga-se por todo e qualquer conforto que se possa receber. A revolta incontrolável que encontra no pranto copioso seu combustível primal logo arrefece e dá lugar a uma espécie de transe, uma necessidade de fuga da realidade, algum refúgio comportamental e mental que possam preservar a sanidade possível de quem acabou de perder um filho.

Lembro de uma vez, jantando com meu pai em uma viagem de confraternização com vários médicos da Unimed Natal, onde ele trabalhava na época, que ele olhou pra mim e disse com firmeza: “aqueles policiais que mataram seu irmão… eles vão pagar! Você vai ver!” No preciso momento em que meu pai me disse aquilo, eu torci muito para que fosse verdade. Depois, soube que não era possível. O que podia fazer meu pai contra um sistema corporativista que não puniu ou sequer repreendeu os assassinos? A morte do meu irmão, como a do garoto de Realengo, saiu nos jornais, foi matéria no RNTV, fez com que o então governador ligasse para o meu pai para prestar condolências, mas foi só. Meus pais não tiveram forças para ir adiante atrás de justiça, passando a conviver transtornados por uma dor que nunca termina.

Minha mãe caiu em depressão e tinha dias em que ela nem me reconhecia. Passou mais ou menos um ano assim.  Aliás, até mais. Lembro que até 1994, eu perambulei em casas de tios, sendo acolhido aqui e ali, enquanto ela ia melhorando. Quando se sentiu melhor, intensificou sua vida religiosa. Vivia na igreja, fosse frequentando missas ou realizando trabalhos voluntários de artesanato que doava para a Canção Nova vender em bazares e gerar receita. Meu pai desistiu de buscar justiça e passou a trabalhar no nível máximo do suportável. Até hoje, mais de 10 anos depois de ter se aposentado, segue na ativa, dando plantões, atendendo em UPAs e hospitais. Carrega um trauma tão forte que não assiste a nenhum filme, série ou novela porque não aguenta ver ninguém dando tiros em outra pessoa.

O mais cruel é que, por mais que se esforcem, por mais que tentem, os pais que perdem filhos nunca vão esquecer que um dia os tiveram presentes em suas vidas e que isso foi tirado deles por ações desastradas, inconsequentes e impiedosas.

“Ele não viu que eu estava com roupa de escola, mãe?”

Não, eles não viram. E se viram, não se importam. Seguirão matando estudantes inocentes e chamando de danos colaterais na sua política falida e dispendiosa de segurança pública. Seguirão destruindo famílias para as quais eles não ligam e oferecendo um velório subsidiado ou um telefonema de consolo como se isso consertasse as coisas.

Marcos Vinícius (RJ) e Marcos Vinícius Fialho (RN): ausentes.

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Carlos Fialho é escritor, publicitário, jornalista e escreve às segundas-feiras

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