OPINIÃO

Me perdoa, Juca!

Desde o início da pandemia, notei que um dos principais paliativos para aplacar a solidão provocada pelo isolamento social tem sido introduzir na família um animal doméstico. Até eu ganhei mais um lindo sobrinho peludo: o serelepe samoieda Luke, filho mais novo do meu irmão que mora em Natal (RN).

Essa moda que passou a integrar o novo normal em diversas casas e até nos apartamentos espalhados pelo país e pelo mundo, assim como outras atitudes decorrentes do longo período de quarentena, que muitos imaginavam duraria de fato quarenta dias e hoje já se aproxima de um ano, me fizeram lembrar do Juca, o cão que tentei criar poucos meses antes do advento do novo coronavírus.

Não era nenhum segredo a minha incapacidade latente de criar outro ser vivo além da minha filha. Quando Marina ainda era um bebê, quase matei um peixe que o pai dela comprou, ao trocar a água do aquário: eu simplesmente coloquei água de ozônio, ao invés de água da torneira. Não foi de propósito, lógico.

O pior (ou melhor) é que o bicho, no entanto, resistiu bravamente. Não sem sequelas, obviamente. O beta sofreu uma espécie de mutação, causando o estufamento de um dos olhos, como se fosse explodir, mas não explodiu. Prefiro pensar que ele passou a enxergar melhor, como se tivesse adquirido um super poder, sabe? Não lembro quanto tempo o peixe mutante viveu, mas sei que foi uma vida intensa.

Muitos anos depois dessa e de outras tristes tragédias ocorridas nas raras vezes em que assumi essa difícil missão de ter outra forma de vida, além da Marina, sob minha responsabilidade, quis o destino que eu conhecesse o Juca, um dos cinco filhotes do tipo salsicha, pretinho, que morava com os pais e os irmãos na casa de uma amiga minha, veterinária.

Logo à primeira vista, aquele olhar carente e arrebatador me seguiu e me conquistou como se pedisse “me leva”, o que estimulou meu instinto maternal e me deixou totalmente vulnerável ao desejo da minha filha de ganhar um irmão de quatro patas.

E apesar de ter confessado à minha amiga, então dona do Juca, todo o meu histórico de mãe desnaturada de animais domésticos (e até de plantas, inclusive cactos), além de ser muito honesta com ela quanto às minhas dificuldades e medos de entrar de cabeça nessa aventura, ao perceber meu envolvimento com aquele olhar, veio a proposta: “experimenta ficar com ele, e, se não der certo, você devolve”.

A proposta incluía ainda consultas veterinárias gratuitas eternas e dicas diárias com ela, mas a decisão final veio em forma de fotos fofinhas do Juca, que enviei por whatsapp pra minha filha, que prometeu então cuidar dele como um irmão. Animadas, fomos comprar ração, tapetes higiênicos, coleira, biscoitinhos caninos, para aprontar a casa pra receber o novo membro da família.

Só nos esquecemos de um item que não tínhamos como prover 24 horas por dia e que poderia fazer falta ao pobre Juca: companhia. Não somente dos irmãos, com quem estava acostumado a conviver. Mas a nossa, também, era rara em casa, já que eu passava o dia inteiro no trabalho e Marina na escola.

A consequência disso foi a descoberta, pelos moradores do nosso condomínio e de todo o quarteirão, do mais novo salsicha cantor de ópera do bairro, que uivava em alto e bom som, como se não houvesse amanhã, desde a hora em que eu saía pro trabalho, até a minha volta, mesmo com comida, sombra, água fresca e até tapete higiênico (que de nada servia, porque ele teimava em fazer as necessidades na cama da Marina ou no sofá) à disposição dele.

E quando eu chegava em casa, ele queria dormir no quarto comigo, o que relutei a consentir, mas fui obrigada a aceitar, em algumas noites, pelo bem de toda a vizinhança, que não demorou a reclamar, especialmente dos uivos noturnos após 22h, como se eu pudesse abaixar o volume do uivo do Juca. Meu receio dos julgamentos alheios era tão grande que eu via a hora de me denunciarem ao Conselho Tutelar dos Cães, ainda mais se descobrissem meu histórico de mãe desnaturada de animais domésticos.

Em paralelo, na real Marina não estava sendo lá a irmã que havia prometido, deixando a desejar nos quesitos limpeza e passeio com o irmão. Foi quando decidi que, por maior que fosse a vontade de mantê-lo conosco, as condições não eram favoráveis naquele momento, e ele precisava retornar então para a companhia dos irmãos e dos pais.

Contei pra minha amiga sobre a sinfonia de duas semanas de uivos ininterruptos, argumentei também do nosso já comprovado despreparo, meu e da Marina, para criar o filhote, mas mesmo assim não foi nada fácil assumir a culpa de devolver um filho adotivo, como se rejeitado fosse, sem poder explicar a ele, em linguagem de cão, o quanto hoje, em teletrabalho, me arrependo de não ter tentado mais, e que afinal o problema nunca foi a questão dos uivos ininterruptos, e sim nossa falta de capacidade para criar um ser tão especial.

Por isso, onde quer que esteja, e espero que tenha encontrado uma família melhor, eu só queria dizer: Me perdoa, Juca!

 

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