CIDADANIA

Médica relata drama em Natal: superlotação em UPAs e falta de cilindros de oxigênio para transporte de pacientes

Sábado, 13 de março: “Não tinha mais bala de oxigênio [cilindros usados principalmente quando os pacientes precisam se locomover] em nenhuma UPA de Natal hoje.”

Segunda-feira, 15 de março: “Estou em um Centro Covid de Natal tentando enviar para alguma UPA um paciente que chegou com sintomas gripais e saturando 85% em ar ambiente. Todas as UPAS estão com todos os pontos de oxigênio ocupados! Liguei pra Samu, virão, porém tem 13 regulações na frente.”

Terça-feira, 16 de março: “Se a gente tem três pacientes precisando de intubação e só um ventilador, por exemplo, é escolhido o paciente com mais chances de sobreviver.”

Os relatos são da médica Alessa Andrade, que trabalha na linha de frente de combate à pandemia na capital potiguar. Ela conta que segunda-feira (15), no final da tarde, a equipe conseguiu transferir para a UPA Pajuçara o idoso do qual havia falado mais cedo, mas até isso acontecer foram 6 horas telefonando para as unidades à espera de uma vaga.

Diante da alta de casos, faltam leitos, transporte e até oxigênio. Segundo ela, durante todo o sábado não havia cilindros do gás para transporte de pacientes em nenhuma das UPAS e nem no Hospital de Campanha. A Secretaria Municipal de Saúde nega, julgando se tratar de um “equívoco”.

“Não há falta de oxigênio em nenhum UPA de Natal, as balas de oxigênio foram repostas no sábado, nos dias de abastecimento de oxigênio a SMS Natal pede que se possível o uso seja racionado”, informou, por meio da assessoria de comunicação do órgão.

A médica, entretanto, garante que passou todo o sábado na unidade e teve que lidar com essa ausência. Os cilindros são usados, por exemplo, quando o paciente precisa ir ao banheiro e quando não tem mais ponto de oxigênio nos pontos que são fixados na parede.

“A gente transportou paciente que estava saturando 85% de um setor pra outro na UPA às pressas porque não tinha o cilindro pra transportar com calma. Esses pacientes que precisam de suplemento de oxigênio não aguentam ir ao banheiro sem o cilindro do lado”, contou.

Essa porcentagem exposta pela médica se refere ao oxigênio que existe na circulação sanguínea. Quando está igual ou abaixo de 94 o paciente deve ser internado.

Crise no abastecimento é generalizada

O problema no abastecimento de oxigênio já é realidade. O Conselho Estadual de Secretarias Municipais de Saúde (Cosems) confirmou que pelo menos 60 municípios relataram dificuldades para reposição do insumo.

De acordo com a presidente do Cosems, Maria Eliza, um levantamento foi realizado em todo o Rio Grande do Norte, por meio de questionário, que gerou “angústia e preocupação”. Ela detalhou que há regional de saúde com até 15 municípios afetados.

“Não precisa ter rede hospitalar pra ter a necessidade. Todo município precisa ter oxigênio na rede de serviços”, explicou Maria Eliza, que é gestora no município de Doutor Severiano.

“As variantes do vírus estão muito agressivas e acometendo pessoas mais jovens. Hoje em dia a gente usa 3, 4 vezes mais a quantidade de oxigênio usada em março do ano passado. Por isso as empresas não têm estrutura para fornecer. Não é só o RN que está com dificuldades, enfrentando um grande pico de covid. A dificuldade existe porque a demanda é grande demais. É uma realidade que nos preocupa”, disse a representante do Conselho.

A crise não se limita ao oxigênio. De acordo com Eliza, Parnamirim amanheceu sem sedativos, há escassez de bombas de infusão e elementos como luvas descartáveis tiveram alta nos preços dificultando o cumprimento dos contratos por parte dos prestadores.

Superlotação

Sobre a ocupação das UPAS, a Secretaria Municipal de Saúde de Natal justificou que a cidade recebeu pacientes de Parnamrim:

“Devido ao fechamento da UPA de Parnamirim, nos últimos dia da semana, muitos pacientes vieram para Natal em busca de atendimento para casos de covid neste sábado e 30% da ocupação da UPA Satélite é de pacientes que não residem em Natal. No momento todas as UPAs de Natal estão atendendo acima de sua capacidade”.

A médica Alessa Andrade conta que nos Centros Covid de Natal (Cemure, Nélio Dias e Palácio dos Esportes) todos os dias aparecem pacientes com baixa oxigenação do sangue.

Os Centros Covid geralmente possuem cilindros de oxigênio para serem usados temporariamente, inclusive porque esses pontos de atendimento fecham às 16h e os doentes devem ser transferidos para alguma UPA.

“Na maioria das vezes, o paciente que está precisando de oxigênio, mesmo pouco, tem que ser internado. Nessas últimas semanas, tem sido muito difícil mandar paciente dos centros para as UPAs, simplesmente porque elas estão lotadas de verdade, sem conseguir receber novos pacientes, sem locais disponíveis para colocar esses pacientes conectados ao oxigênio”.

Assim, a UPA é a porta de entrada para internação, de acordo com a médica. A partir daí, o caso é inserido no sistema RegulaRN e aguarda vaga em algum hospital. Quando aparece a vaga, é acionado o transporte sanitário (STS) para realizar a transferência.

De acordo com Alessa Andrade, teoricamente os pacientes não deveriam passar mais de 24h na UPA, mas estão permanecendo até mais de uma semana nessa situação, chegando a ficar até 2 dias sentados em poltronas.

“O fluxo está tão intenso que o STS não dá conta de transportar os pacientes na mesma velocidade que a demanda está exigindo. Em outras palavras: está chegando mais paciente do que está saindo. E hoje foi isso que aconteceu: tentei regular esse paciente do Centro Covid pra alguma UPA, mas todas estavam com todos os pontos de O2 ocupados (na Potengi já tinha até fila pra o oxigênio). O ‘ponto’ só vaga quando o paciente é transferido, morre ou tem alta na própria UPA. Esse último caso é mais raro”, descreveu o cenário, completando que há casos em que o Samu leva o paciente à porta da unidade para que ele entre por meios próprios, já que não aceitam mais pela regulação. “Não tem onde botar”.

Às 15h10 desta terça quase não havia leitos de UTI disponíveis nos hospitais públicos do Rio Grande do Norte. Vinte e um dos 23 hospitais operavam com 100% dos leitos críticos ocupados. A taxa de ocupação estadual é de 97,9% . Apenas o Hospital Regional Telecila Freitas Fontes, em Caicó, tinha duas vagas, e o Maria Alice Fernandes, em Natal, cinco vagas, todas destinadas ao atendimento pediátrico.

Escassez de testes e subnotificação

Nesta quarta-feira (16), o Rio Grande do Norte registra 181.390 casos confirmados de covid-19, sendo 50.577 em Natal. Mas esse número é inferior à realidade, já que não há testes suficientes para quem precisa.

Questionada sobre o protocolo exigido para realização de testes, a SMS informou apenas que fica a critério da avaliação médica.

A médica Alessa Andrade disse que existe uma nota técnica dizendo que os profissionais devem priorizar os casos com comorbidades e fatores de risco para agravar. “Fica a critério do profissional, mas acaba que temos que fazer isso mesmo senão falta teste pra quem tem mais risco de agravar”, resume.

Segundo ela, o centro montado no Ginásio Nélio Dias tinha apenas 100 testes na segunda-feira (15), enquanto foram recebidos cerca de 170 pacientes.

O Cosems informou que a distribuição de testes está sendo realizada dentro da normalidade e que por causa da alta demanda existe ainda atraso nos resultados em alguns municípios, variado entre 24h e até 10 dias.

 

 

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

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