OPINIÃO

Medo de avião

Demorei a escrever sobre esse assunto que me envergonha um pouco. Medo de avião. Mas, como não estou só nesse time…lembro do Canhotinha de Ouro, Gerson, que tinha, tem, verdadeiro pavor de voar. Pois bem, meu filho Filipe resolveu colocar a família toda num pacote e nos presentear com uma viagem. Eu, diversas vezes, disse que não ia, que poderiam viajar, eu ficaria em Natal esperando, ansioso, o retorno deles e as resenhas. O peste pediu meu CPF um dia, eu, desavisado, dei, pensei que era para outra coisa, mas foi para registro da passagem no voo da Azul, saindo de Recife. Estava sem jeito. Tinha que embarcar.

Antes da viagem, o pedido do CPF foi uns dez dias antes do embarque, passei dias atrozes de agonia. Cada vez que me lembrava que teria que subir no avião, escutar aquele barulho, os repetidos avisos das aeromoças, falando até em “caso de pouso de emergência” (viajei bastante quando jogador profissional, e não tinha medo, diga-se) me faziam perder o sono. Muitas vezes, nas minhas corridas, na praia, ao lembrar, me dava uma angústia tão grande que eu parava e ficava olhando o mar, achando que aquele era dos nossos últimos encontros – eu e o mar.

Pior, ainda na praia, cada avião que me passava, acho que a caminho de nosso aeroporto ou em sentido contrário, fazia, de novo, assaltar meu pavor. Torcia, todo dia, para que meu filho tivesse piedade de mim, arranjasse um jeito de me substituir na viagem. Que nada! Chegou o dia. Fomos de carro, de noite, chovendo quase a viagem inteira, mais um pontinho de estresse, de Natal a Recife. Durante o percurso ainda me assaltava, não sei se com alívio, o receio de perder a hora. Não saía de minha lembrança, mas não contei a ninguém, que na primeira viagem do Alecrim, em 1986, o avião da Vasp em que a delegação verde viajava aterrissou na pista daquele mesmo aeroporto com um dos pneus do trem de pouso furado. Era carro de bombeiros na pista que não acabava mais. Viemos saber depois, pois dentro da aeronave parecia tudo normal. Na época, já pensaram, nem tive um tico de medo. O que a danada da idade avançada nos faz…

Carros no estacionamento, malas retiradas, checadas,  lá foi eu de novo entrando no Aeroporto dos Guararapes. Agora estava mesmo sem jeito, não tinha mais para onde correr. A espera. Tomei um café de R$ 11 e a raiva entrou na vaga do medo, mas só por alguns instantes. A cada anúncio de voo, no entanto, me assaltava o tremelique na barriga. Nem mesmo quando pisei pela primeira vez o gramado do Maracanã, em 1986, minha barriga gelava tanto. Depois de uma longa espera, claro, chegamos bem cedo, uma voz roufenha nos chamou. A fila, a checagem, a entrada do apertado avião. Minha nossa, como era pequeno o aviãozinho. Três poltronas de cada lado, um corredor estreito, as malas sacudidas nos maleiros, bolsas menores embaixo das poltronas (que esquisito), gente se espremendo e, evidente, os pensamentos ruins.

Minha netinha Maria Elisa, já havia viajado para Gramado meses antes, narrava o que ia acontecer. “Vovô vai apagar a luz, a moça agora vai falar das máscaras, põe o cinto viu vovô, não esquece…” e a mulher falou pra minha agonia e quando chegou a parte do “pouso de emergência” eu tapei os ouvidos, queria lá saber. Motores ligados, voz do comandante, avisos de praxe, o bicho arrancou, hora da decolagem, 2h40 minutos da madrugada da quarta-feira (19), trens de pouso recolhidos, a subida, parei de respirar, apertei com força a mão de Evânia, pensei que ia ter um passamento, me tremia todo, enquanto meus netos sorriam, meu filho zombava e minha filha Mila e esposa Evânia tinham pena do meu pavor.

Uma viagem tranquila, quer dizer, para quem não tem medo. Um sinal de alerta, aviso para apertar cintos, zona de pequena turbulência, tentativas desesperadas de dormir sem conseguir. E o aperto maior: uma vontade desgraçada de fazer xixi, mas, e o medo de me levantar? Quem passa aperto para ir ao banheiro sabe que não dá. Fui. Vi a luz verde, quando cheguei estava vermelha. Um desinfeliz entrou antes de mim e me obrigou a ficar esperando em frente à aeromoça, morto de medo e vergonha, por um tempo que achei eterno.  A porta abriu, o peste saiu rindo, entrei. Foi o xixi mais demorado que fiz na minha vida. Espremia, espremia para terminar logo, e nada. Nesse momento terrificante, o avião deu uma sacudida,  me agarrei na lateral, molhei as calças e pensei: vou morrer dentro do banheiro. Morri não. Correndo, voltei para meu lugar, sentei-me aliviado. O tempo se arrastava, também eu não tirava o olho do relógio. O pior é que não tinha nada, tevê, filmes, música para ajudar a passar o tempo. Finalmente, terra à vista e sob neblina surgiu São Paulo. O alívio era tão grande (pensava assim, já estamos perto do aeroporto, mesmo que dê problema, o piloto acelera e a gente pousa) que cheguei a dar uma olhadinha pela janela, mas desviei ligeiro a vista. Para meu júbilo, a voz do comandante, cintos apertados, anúncios de hora, temperatura, Aeroporto de Congonhas, alguns minutos, barulho do trem de pouso, aterrissamos.

Não tenho mais nada para contar para vocês. Campos do Jordão, São Paulo, momentos maravilhosos no frio da cidade mais alta do Brasil, depois o deslumbre de São Paulo, Avenida Paulista reaberta, todos os povos do mundo representados, Praça da Sé, Catedral da Sé, miséria dominante, Museu do Pacaembu super, super especial,  Mercado Modelo, restaurantes maravilhosos, Rua Augusta, Ipiranga com Avenida São João, 25 de março e de muita loucura, bairro dos Jardins, a linda história do Bairro da Liberdade, fotos, compras, risos, alegria total no melhor de nossas vidas (nada se compara a viajar com a família, com quem se ama, pena que ainda faltaram alguns titulares) e a tristeza aliada ao medo da proximidade da viagem de volta…

Antes, no entanto, conto essa. Sábado de noite, havíamos passado o dia andando pela cidade. De noite, após o jantar (já estava desde a quarta-feira sem fazer exercícios) saí correndo, fazendo um trecho enorme da Paulista. E fui, fui, fui, lá para as tantas, creio que era perto do final, retornei no meu ritmo de trote alternado. Numa dessas entradas, descidas do metrô, resolvi conhecer, ver como era lá embaixo e se dava sorte de ver alguns vagões passarem. Após as escadas, os guichês, subi outra, um cara na porta, não dava acesso, voltei. Nesse retorno, me confundi, fiquei na dúvida por qual escadaria havia descido. Olhei para uma, arrisquei, subi. Lá em cima, estranho, um canteiro, opa! Lugar errado. Mas fui correndo na direção que achei ser a direção do hotel (tinha como base, na esquina da rua, a loja, enorme, da Centauro, de esportes. Mas nada de chegar no ponto. Correndo, correndo, correndo, estafado já, desisti, entrei numa conveniência, coincidência, uma cearensezinha simpática, cabecinha chata, danada, conheceu meu sotaque na hora, super gentil, mas mangando d’eu disse que eu estava na direção errada. Danou-se! Lá vou eu rodar mais algumas centenas e centenas de metros, até avistar a loja e, outra coincidência, meu filho e meu neto que vinham saindo de lá, me fizeram festa por me ver correndo e caíram na gargalhada quando narrei a presepada. Me perdi na Paulista.

Bom foi isso, depois, domingo, segunda-feira e o terror da viagem de volta. Essa mais complicada ainda, pois todo o percurso, ou quase, o avião tremia como se estivesse com malheita e ainda tinha o componente complicador da voz do comandante que eu não entendia porra nenhuma do que ele dizia. Sentir o avião pousando no Aeroporto dos Guararapes foi uma felicidade, mesmo sabendo que tinha mais quase quatro horas dirigindo pelas BRs que, graças a Lulinha, estavam muito melhores. Sim, sim, medo de avião, mas como vale a pena.

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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