OPINIÃO

Memória do Hotel Reis Magos: mais do que um concurso, um debate sobre a cidade que queremos

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Desde o ano de 2013, quando houve a divulgação da solicitação da demolição do Hotel Internacional Reis Magos (HIRM) para a construção de um centro comercial, após 20 anos de abandono do edifício pelo proprietário, iniciou-se a mobilização em torno da preservação do edifício. A partir da ação do Ministério Público Estadual (MP-RN), no sentido de impedir que o hotel fosse demolido, várias entidades se mobilizaram em torno dessa causa como o Sindicato dos Arquitetos (SINARQ RN), Instituto dos Amigos do Patrimônio Histórico e Artístico-cultural e da Cidadania (IAPHACC), CAU-RN, IAB-RN, ABEA, DARQ-UFRN, Comissão de Direito Ambiental da OAB-RN, além de arquitetos, professores e estudantes dos cursos de Arquitetura da cidade. Neste mesmo ano, o IAPHACC entrou com pedido de tombamento em caráter de urgência em todas as esferas: municipal (Fundação Capitania das Artes – Funcarte); estadual (Fundação José Augusto – FJA); e federal (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN-RN), tendo alcançando, em fevereiro de 2014, o deferimento do tombamento temporário do Hotel Reis Magos pela FJA. Em março deste mesmo ano, sete pesquisadores do Departamento de Arquitetura da UFRN elaboraram um estudo sobre a importância histórica, simbólica e arquitetônica do Hotel Reis Magos, que foi entregue ao MP-RN. Com isso iniciam-se ações que buscavam dar visibilidade ao movimento que até então ocorria no campo judicial, como o abraço simbólico no hotel contra a sua demolição que uniu estudantes, professores e profissionais de arquitetura e urbanismo e o IAPHAAC.

Em 2015, após a divulgação do parecer emitido pelo Ministério Público Federal no Rio Grande do Norte, em favor da demolição da edificação, o coletivo [R]existe Reis Magos passa a promover ações de conscientização sobre o valor do patrimônio edificado, convocando as pessoas interessadas na causa, para que, junto a comunidade organizada do bairro, bem como artistas e grupos culturais locais, participassem e pudessem registrar de alguma forma, o seu posicionamento diante da ameaça de demolição do HIRM. Várias ações foram realizadas diante do prédio com a finalidade de sensibilizar os usuários da praia e ampliar o debate entre os vários segmentos da sociedade.

Outras ações promovidas por diversos setores e representantes da sociedade, tanto no campo judicial, quanto de conscientização através de discussões abertas com a comunidade, publicações e atividades culturais, foram realizadas durante todo o ano, tais como a aula aberta “O valor patrimonial da arquitetura modernista” que foi proferida pela professora Sônia Marques – presidente do Docomomo-BR promovida pelo DARQ/UFRN e DOCOMOMO Brasil. Na mesma ocasião, os alunos do sétimo período do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFRN apresentaram o resultado dos trabalhos desenvolvidos durante o Workshop “Natal: cenários revelados” que teve como objeto de estudo e intervenção toda a área da orla da cidade de Natal, com ênfase para propostas de reuso para o Hotel Reis Magos.

Passados quatro anos, com o desdobramento do processo judicial e movidos pela revisão do Plano Diretor da cidade, o tombamento x demolição do Hotel Reis Magos, volta à pauta do dia. O que se vê na cidade é uma disputa de interesses que mais confunde do que esclarece a população. Como por exemplo, referir-se ao edifício como “ruína”, estágio em que o edifício não se encontra, passando a falsa informação de que não é possível a sua recuperação, ou de que o tombamento fará com que o edifício fique congelado no tempo tal qual está agora apesar dos pareceres técnicos, de artigos já publicados e dos vários esclarecimentos já prestados ao longo desse processo. Percebe-se ainda que opiniões e pareceres emitidos por algumas entidades, conselhos municipais e estaduais não discutem sobre a importância histórica, simbólica e arquitetônica do Hotel Reis Magos apresentada nos documentos que compõem o processo, ou sequer consultaram especialistas no assunto.

Nesse sentido, como forma de qualificar o debate sobre o tombamento do Hotel Reis Magos, partindo do princípio de que a estrutura é passível de recuperação, o coletivo [R]existe Reis Magos em parceria com o IAB/RN e o IAPHACC, lançou o concurso de ideias “MEMÓRIA DO HOTEL REIS MAGOS”, que tem por objetivo, através das propostas apresentadas, discutir sobre as possibilidades de uso que considerem a preservação da tipologia do edifício, que o qualificam como exemplar expressivo da arquitetura moderna brasileira; o direito à cidade e, com isso, promover a educação patrimonial.

Com relação às orientações para o projeto, apresentados no Termo de Referência, observa-se inicialmente que a proposta trata de uma intervenção para requalificação e restauração do equipamento, com possibilidade de acréscimo de área construída no limite das prescrições urbanas incidentes,  compreendendo o projeto de arquitetura de um espaço de caráter público/coletivo destinado ao uso a ser definido pelas equipes participantes, que estejam de acordo com as premissas estabelecidas pelo edital do concurso. Por se tratar de forma específica de uma proposta de intervenção em um bem de reconhecido valor patrimonial, as estratégias de projeto, a serem seguidas tanto para o edifício existente, quanto para possíveis acréscimos, deverão ser definidas com base em três princípios fundamentais, pensados de forma concomitante: Distinguibilidade: quando a requalificação não propõe o tempo como reversível e não pode induzir o observador ao engano de confundir a intervenção ou eventuais acréscimos com o que existia anteriormente, além de dever documentar a si própria; Reversibilidade: quando a requalificação não impede, mas facilita intervenções futuras, não alterando a obra em sua substância e devendo-se inserir com propriedade e modo respeitoso ao preexistente. (KUHL, 2006): Preservação da tipologia do caráter modernista da edificação existente: a proposta deverá seguir a premissa da preservação da tipologia do edifício, que o qualificam como exemplar expressivo da arquitetura moderna brasileira.

Especialmente, deve prever propostas para recuperação / estabilização estrutural do edifício existente, com possibilidade de proposição de estrutura complementar.

O uso a ser proposto para o projeto deve ter por finalidade incentivar o uso coletivo e priorizar a comunidade local, reforçando a memória e o uso do bem pela coletividade, de acordo com os dados apresentados nos documentos de caracterização física e socioeconômica da área.

Dentre todas as equipes participantes do concurso, o júri escolherá cinco equipes finalistas. As propostas serão impressas e irão compor uma exposição no Goiabeira – Semana de Arquitetura promovida pelo Centro Acadêmico do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFRN. Durante o evento que será realizado no período de 29/10 a 01/11/2019, a comissão julgadora anunciará três equipes classificadas que receberão os certificados em uma cerimônia de premiação. Todos projetos apresentados no concurso receberão certificados de participação. De caráter cultural e educacional o concurso premiará as equipes com obras de arte e caixas contendo uma seleção de livros.

Por fim, chamamos a atenção para o seguinte aspecto: Em tempos em que vemos cada vez mais forte a negação da importância do debate democrático das ideias – em que somos cotidianamente bombardeados por discursos e falas de caráter estritamente opinativos; em que se vocifera a negação da ciência e do conhecimento – precisamos demonstrar resistência e resiliência. Precisamos subverter essa (des)ordem. Precisamos trazer novamente Walter Benjamin para nos falar sobre a necessidade de “escovar a História a contrapelo”. Esse é o objetivo do concurso de ideias.

O convite está feito. Organizem as equipes. Vamos discutir ideias. Vamos construir conhecimento. Vamos REXISTIR!

Acesso ao edital do concurso: https://rexistereismagos.wixsite.com/concursodeideias

Eunádia Silva Cavalcante

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José Clewton do Nascimento

 Membros integrantes do coletivo [R]existe Reis Magos.

Membros integrantes da comissão organizadora do Concurso de Ideias “MEMÓRIA DO HOTEL REIS MAGOS”.

 

 

 

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