OPINIÃO

Meninos vestem azul, meninas vestem rosa 

A frase que dá título a este texto foi dita durante uma epifania alucinada pela então recém-empossada ministra da da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do desgoverno Bolsonaro. A frase se celebrizou e virou meme após a fala dela, mas, a verdade é que a frase mais que um clichê é sintomática de como pensa boa parte da população brasileira.

Quantas vezes não testemunhei amigos e amigas esperarem o resultado da ultrassonografia para saber se comprariam enxoval do bebê azul ou rosa? E quantas outras vezes não vi ou soube de conhecidos  que não usaram camisas cor de rosa “por ser cor de mulher”?

Por que falar de um tema tão, digamos, banal em um tempo e um lugar (Brasil 2021) onde os índices de Feminicídio, de violência doméstica contra mulheres e meninas, de estupro e assédio moral ou sexual crescem assustadoramente? Talvez porque sejam faces diferentes da mesma moeda.

Uma moeda que tem como valor maior estigmatizar e fragilizar a mulher desde sempre. Desde o momento em que ela não pode fazer “coisas de menino” (jogar bola, brincar com carrinho, atividades físicas em geral, brincadeiras de rua) e sim induzida a atividades “de menina”, ou seja, coisas mais delicadas como brincar de boneca e de cozinha, na verdade uma reprodução do papel estabelecido para ela na vida adulta: Dona de casa e “do lar”.

O que coisas tão corriqueiras têm a ver com Feminicídio, machismo e sexismo? Tudo. A construção de meninos como “audaciosos e fortes” em contraposição a meninas delicadas e preocupadas com as coisas do lar gera justamente a reprodução desse modelo na vida adulta, com o evidente acréscimo de vida social e sexual, etc. Um modelo onde os homens têm o poder e as mulheres são – na ótica deles e do modelo, claro – submissas e conformadas com esse status. Mas que como não é bem assim, as coisas podem sair do controle. Muitas vezes saem.

Mas, não tenho embasamento acadêmico para tais análises e muito menos é este meu lugar de fala. Na verdade minha ótica é de observador, até como pai de uma filha hoje com 18 anos, mas que desde os 4 odiava vestidos e bonecas e “brincadeiras de meninas”, preferindo muito mais jogar futebol e atividades físicas “radicais”. Ananda nunca quis ser princesa. Sempre desejou ser ninja. E sempre odiou cor de rosa.

Cor de rosa que, por sinal, continua sendo  a preferida entre os designers – homens – para artes que homenageiam, digamos, a Mulher neste Dia 8 de março. Da mesma maneira que por mais que tantas e tantas mulheres critiquem, ainda seja um clichê masculino dar flores para elas neste dia. Mas, sempre pode ser pior. Como aquelas frases de homens bem intencionados mas desconectados da realidade: “Parabéns às mulheres que iluminam o Mundo”, “Sem as mulheres o Mundo não teria graça”, “Homenageio às mulheres na figura da minha mãe que criou sete filhos”, e por aí vai.

Meninos podem vestir azul e rosa. E nós homens ainda precisamos aprender muito também.

 

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