OPINIÃO

Menos de dois anos…

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Faz menos de dois anos que escrevo (quase) semanalmente aqui no Saiba Mais. O desafio era falar de mídias, redes sociais, privacidade, enfim, um pouco sobre nosso cotidiano cada vez mais embrenhado nesse emaranhado de conexões virtuais.

Menos de dois anos.

E aí eu me pego pensando o que eu diria para mim mesmo – meu eu do passado – sobre tudo o que vem acontecendo por aqui no campo midiático depois da ascensão e posse do império das fake news.

Não é que as fake news surgiram nesse último período. É que agora, elas chegaram ao poder e parecem não querer sair mais. Meu eu do passado sabia que era golpe – desde o começo –, sabia que havia uma guerra de (des)informações atingindo nosso país – guerra que custa muito caro e que está sendo custeada por muitos interessados em transformar o planeta em uma distopia hipercapitalista. Mas duvido que imaginasse que tudo aconteceria tão rápido e de forma tão vertiginosa.

Fico imaginando o que o meu eu do passado me diria quando eu contasse o que anda acontecendo à Rede Globo. Preterida pela Presidência da República, que prefere a Record e o SBT. Boicotada pelos seguidores do Mito, que ainda usurparam as palavras de ordem que meu eu no movimento estudantil tanto usou e que agora repetem o que muito militantes repetíamos, que a Globo mente, que a Globo manipula.

E se eu contasse a eu mesmo no passado que, em grupos de whatsapp, muitos de nós precisam defender reportagens da Rede Globo que tratem de direitos humanos para que os fascistas não conquistem os cimamuristas que ainda restam por lá?

O eu de ontem não ia entender nada quando eu contasse que o principal telejornal da TV Brasil está usando as mesmas táticas de negação da realidade para que sua pauta reflita apenas a “verdade” que mais agrada à cúpula do poder, como no dia que saiu o resultado do Pibinho e eles mostraram como o setor de publicidade cresceu em 2019 e como isso, apesar do PIB pífio, demonstrava a pujança econômica do país. E o pior, a audiência deles só aumenta.

Imaginem o que eu mesmo pensaria, meses atrás, se soubesse que a Folha assumiu o papel de defensora das liberdades democráticas e vem fazendo editoriais contundentes contra as práticas autoritárias que vigoram entre os poderosos e que eu mesmo já teria saído em defesa da Folha quando sua repórter foi atacada pelo alto escalão. O que será que ele diria quando soubesse que eu até paguei uma assinatura para apoiar o jornalão paulista depois que o governo anunciou os cortes nas assinaturas para os órgãos públicos?

O eu de hoje não quer nem imaginar o que o eu de antes diria se soubesse que tive que sair em defesa até da Vera Magalhães, a mesma que vai ao twitter dizer que é liberal de direita, depois que ela foi atacada pelo mito supremo e teve até dados pessoais divulgados na internet.

Provavelmente, o eu de ontem não ia entender nada quando eu contasse que a Miriam Leitão é nossa parceira de luta pela Liberdade de Expressão e que até o Marco Antônio Villa teria flertado para o movimento quando sofreu censura na Jovem Pan por falar mal do manda chuva nacional.

A única coisa que talvez não espantasse o meu eu lá do passado é que o candidato eleito em 2018 estaria cumprindo todas as suas promessas de campanha, além de andar imitando, sem nem disfarçar, o presidente dos Estados Unidos na vida real e no twitter.

Pensando bem, se tá difícil para o eu de hoje acreditar que tudo isso está acontecendo, talvez seja melhor o eu de ontem descobrir tudo por conta própria. Ia ser muita coisa pra processar e ele poderia até desistir de fazer os artigos pra Rafael.

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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