OPINIÃO

Menos humanos, menos humanidade

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Levei uma bronca da minha mãe no supermercado. Tudo por que ela achou que eu tinha usado os caixas automáticos para passar as compras e que eu estaria colaborando com o fechamento de postos de trabalho nesse cenário de alto desemprego em que vivemos.

Eu não passei pelos caixas automáticos. Preferi o atendente das compras rápidas, que ainda são mais eficientes que os computadores daquele supermercado e ajudam na complexa arte de embalar as coisas nas sacolinhas na velocidade que a fila exige.

É claro que, em um mundo anticapitalista, eu seria o maior entusiasta de implantar robôs para substituir seres humanos em tarefas repetitivas e maçantes. Isso permitiria que nos dedicássemos à tarefas complexas e que exigissem o melhor da sensibilidade humana. Em uma vida anticapitalista, poderíamos até ganhar mais tempo para o ócio, para o prazer e não apenas para o trabalho.

Mas nesses nossos tempos, o capitalismo deixou de querer apenas transformar trabalho em lucro. Agora, o lucro acontece muito mais pela especulação que pela própria produção.

Cada vez que aumentam os investimentos em tecnologia, encolhem o investimento em seres humanos. Os novos caixas automáticos do supermercado terminam por gerar mulheres desempregadas pedindo esmolas com suas crianças na porta das lojas e nas esquinas da cidade.

Não é tão simples assim, eu sei. É preciso pensar muitas relações para entender os dois fenômenos. Mas me parece bem pedagógico eles aconteçam bem em frente um ao outro.

O supermercado é só mais um espaço do capitalismo que vai aprofundar o processo de automatização dos processos e de desumanização do trabalho. Já foi assim com os bancos, companhias aéreas, serviços de entregas, comércio, indústria. As promessas da internet 5G podem trazer mudanças intensas e devastadoras para o trabalho.

As mudanças estão chegando também para o jornalismo.

Por esses dias, fomos surpreendidos com as contratações da InterTV Cabugi – já que com as demissões não nos surpreendemos mais.

Com um telefone celular e um kit de acessórios, um grupo de jovens jornalistas vai buscar não apenas notícias, mas “curiosidades e acontecimentos inesperados”. A expectativa da empresa é chegar com agilidade aos locais de apuração, inclusive no interior do estado.

As equipes de televisão, que já tiveram de 3 a 4 integrantes, foram reduzidas a uma só pessoa. Com o telefone celular, o repórter chama o uber, faz as imagens e capta o áudio, faz entrevistas e apura as informações que vão compor a narrativa.

Uma só pessoa também será responsável por garantir a correção das informações, a qualidade dos sons e das imagens, o contato com os entrevistados e a entrega do material para a redação. Não resta dúvida que as novas tecnologias permitem melhorar a produtividade do trabalho do repórter.

Mas também é inegável notar o mais novo estágio da precarização do trabalho nas redações. Já era comum ver cinegrafistas e repórteres assumindo a função do motorista. Repórteres de jornal, tirando fotografias com o celular enquanto anotam falas dos entrevistados ou postam conteúdos nas redes sociais. Agora, pelo preço de um repórter, é possível conseguir material suficiente para fechar um noticiário, sem preocupações com a qualidade, claro, já que o objetivo maior é o lucro com a publicidade.

Só que o mais grave de todo esse processo é ver que não há alternativas postas na mesa. Nem mesmo o Sindicato dos Jornalistas vai questionar o que seria um acúmulo de função à terceira, quarta ou quinta potência. A falta de empregos e de opções no mercado de trabalho limitam a capacidade dos trabalhadores questionarem e cobrarem por seus direitos. Pelo contrário, cada um desses trabalhadores vai defender a inovação nas relações de trabalho e a liberdade de trabalhar sozinho – mesmo que intimamente discorde de tudo.

Imaginar utopias é cada vez menos aceitável nos currículos mais desejados pelo mercado.

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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