OPINIÃO

Merlí e a ambiguidade

Foi num diálogo sério, em que eu argumentava o quanto me incomodava a caridade esporádica, que o amigo me fez o desafio: “um capítulo de Merlí trata desse tema. Você precisa ver”. Meses, filmes, séries e vídeos de whatsapp mais tarde, pus-me a assistir aos episódios da primeira série catalã exibida pela Netflix. O protagonista é um professor de filosofia de uma escola secundária em Barcelona, Merlí, em suas relações com os alunos, com a escola e com os pais. Seria uma série banal, tal qual uma Malhação, se Merlí não fosse um professor que, atuando no Brasil, estaria denunciado pelos defensores do projeto Escola sem Partido.

Cabe a mim dizer, como prólogo, que a série faz parte da estratégia global da Netflix de incentivar – por meio de acordos com produtoras locais – a distribuição de conteúdos em outros idiomas. Além de Merlí, outra produção espanhola fez fama no Brasil nos últimos meses: La Casa de Papel. Las Chicas del Cable e Narcos são outros exemplos. A estratégia mostrou-se acertada. O serviço atraiu 8,2 milhões de novos assinantes no primeiro trimestre de 2018.

A produção de Merlí, realizada pela Televisión de Cataluña e exibida anteriormente pelo canal TV3, é perceptivelmente barata. As locações se resumem aos espaços da escola e às casas de alguns alunos. Não há tomadas amplas da cidade, muito menos sequências de ação. A força de suas cenas está na atuação do elenco e nos diálogos elaborados pelo roteirista Eduard Cortés.

Os episódios têm títulos com nome de filósofos. No de Guy Debord, o mote era o compartilhamento de um vídeo íntimo de uma das alunas do liceu. Naquele que tem por título Schopenhauer, Merlí pergunta aos alunos: “por que o mundo está tão cheio de filhos da puta?”. É assim, com perguntas que levam à reflexão de paradoxos cotidianos, que Merlí conquista os alunos a pautarem suas vidas, gerando pequenas revoluções na escola.

A chegada de uma professora trans, por exemplo, é motivo de desconforto e preconceito por parte dos professores. Motivados por Merlí, a turma do segundo ano se subleva e organiza uma partida de futebol, em que meninos se vestem de mulheres e as meninas, como homens. Em outro episódio, o transtorno de déficit de atenção do irmão mais novo de Marc, e o consequente conflito da criança com a professora, são levados à categoria de dúvida ética: deve-se acreditar na docente, que afirma ter sido agredida pelo aluno sem motivo, ou na criança?

Merlí se torna mais atraente quando se percebe que o professor, que se inspira na turma de peripatéticos de Aristóteles, tem uma personalidade que nada tem de mítica ou santa. Sua vida pessoal se revela desorganizada desde o primeiro episódio – ele volta a morar na casa da mãe por falta de dinheiro para pagar o aluguel, e empurra com a barriga, quando pode, a mudança para a independência – e as mentiras que acaba contando para beneficiar os alunos e a si próprio põem em cheque sua legitimidade enquanto exemplo. Nada que não esteja no script.

Está claro que os criadores de Merlí não queriam mais uma novela com a perfeita jornada do herói a garantir índices de audiência. O personagem provoca repulsa e amor, e os alunos caminham fortalecidos com as provocações. Algo que deveria ser motivo de comemoração em qualquer escola do mundo, e que hoje é motivo de condenação em muitos espaços dito educativos em nosso país.

 

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