OPINIÃO

Meu amigo Fabrício

Vivíamos os anos 90 do século passado. Na verdade, já nos aproximávamos do fim do milênio e a Internet, uma rede mundial de computadores, imaginem vocês, promovia a passos largos (ou seriam saltos temporais) uma verdadeira revolução na forma de nos comunicar. Uma das mais significativas e impactantes transformações que se anunciava estava no encurtamento das distâncias. Bem, não se tratava ainda da invenção do teletransporte preconizado pela série “Jornada das Estrelas”, pelo desenho “Os Jetsons” ou pelo filme “A Mosca”. Aliás, tá demorando a inventar essa joça, hein, humanidade?! Se liga! As tais distâncias que seriam encurtadas seriam menos literais e mais, digamos, lúdicas. Poderíamos falar com pessoas do mundo inteiro ao vivo, por horas a fio, pagando tarifa local, sem precisar hipotecar um imóvel ou doar um rim pra TELERN.

É verdade que, com o tempo, descobriríamos que essa tecnologia que avançaria bastante e passaria ao formato portátil, além de aproximar os mais longínquos indivíduos, também teria o poder de afastar os mais próximos, chegando ao cúmulo de que dois comensais evitem se olhar um para o outro, preferindo os irresistíveis e ilimitados estímulos de uma tela de cristal líquido sensível ao toque. Porque por mais que o leque de opções de novas amizades mundo afora fosse escancarado pelas possibilidades oferecidas pela Internet, o comportamento antissocial  a restringir as relações com quem está perto viria para demonstrar mais uma vez a eterna vocação humana para a contradição, a complexidade, a absoluta ausência de sentido. Até porque não se deve levar a sério uma espécie que criou o forró eletrônico,  ri das piadas do Danilo Gentile e forma fila em aeroportos para sentar em lugares marcados.

No entanto, não foi para falar desse nosso isolamento virtual e voluntário que resolvi escrever esta crônica. Na verdade, o recado, a mensagem ou a lição que deixarei como legado desta crônica é positivo. Falarei aqui do meu primeiro amigo virtual e de como tudo na vida, se bem utilizado, pode redundar em boas coisas, como uma bonita amizade de duas pessoas (ou famílias) separados por um oceano geográfico e até cultural (“Tanto, mar, tanto mar”).

Naquele tempo, quando Jesus já não andava na Galileia, pois seu nascimento havia decorrido 1997 anos antes, eu frequentava um espaço virtual, espécie de avô do WhatsApp, chamado MIRC, programa de troca de mensagens que acessávamos no PC e que servia para encontrar pessoas com interesses em comum. Eu costumava frequentar fóruns de cinema, quadrinhos e futebol. Numa dessas noites insones pós-adolescentes, que provavelmente não era uma sexta-feira, quando o jovem aqui provavelmente estaria ligado numa boa sessão de “Cine Privê” ou de “Sexta Sexy” na Band, logo depois do jogo da NBA daquela semana, entrei num canal de bate-papo sobre futebol. Lá, encontrei um camarada natural de Coimbra, Portugal, torcedor do Sporting com quem começamos a trocar ideias sobre aquele esporte que os ingleses inventaram, mas do qual acabaram desistindo depois que virou modinha. Das salas de bate-papo, passamos a trocar e-mails frequentes sobre o esporte bretão. Eram informes mais ou menos mensais nos quais falávamos sobre a situações dos nossos times e perspectivas sobre as seleções. Remetemos de lá para cá algumas publicações locais. Eu mandava umas revistas Placar. E ele me enviava, se não me engano, edições de “A Bola”.

Com a evolução da amizade, os assuntos foram se diversificando. Ele foi trabalhar na TMN, empresa de telefonia de Portugal, eu morei uma temporada de estudos na Califórnia, depois no Rio, ele casou com a Catarina, eu voltei pra Natal, a mãe dele morreu de câncer, tudo relatado de parte a parte em mensagens bissextas. Em 2004, ele veio passar uns dias de férias no RN com a mulher. Em 2006, fui eu que atravessei o Atlântico (tanto mar, tanto mar) e pude conhecer o Avalade e o Aquário de Lisboa, além de uns filmes do Kusturica que ele mostrou. Foi nesta viagem, inclusive, que se deu uma das tantas gafes que constituem uma vasta literatura de mancadas que nomeio como “atos Fialhos”. Eu conversava com um amigo brasileiro na presença dele quando, em dado momento, soltei a frase: “deixa de ser boiola!”. Fabrício, meu amigo português, quis saber: “o que é boiola?” Expliquei pra ele que, no Brasil, aquela era uma designação coloquial para homossexual. Ao ouvir a reposta, retrucou: “Ah, cá gay!” Bem, para os meus ouvidos pouco afeitos ao sotaque patrício e à fala rápida dos nossos colonizadores, acabei traído pela sonoridade e fiquei me perguntando: “como assim ele cagou? O que ele quis dizer com isso? Cagou por quê? Será que essa é uma expressão para dizer que entendeu o que eu disse? Algo como: ah, saquei?” Só muito tempo depois, percebi que ele disse, em bom brasileiro: “boiola aqui é gay.” Que foi o que ele disse ao falar: “cá gay!”

Quando em 2009, acompanhei Nina numa temporada na Espanha, pudemos ir visitá-lo mais um par de vezes. Voltamos a Natal mais uma vez e, sem muita explicação, ou nenhuma razão em particular, nossos contatos foram rareando até que cessaram por completo. A última notícia que tive dele foi quando nasceu o filho, Lorenzo. Mandou uma foto junto com a novidade. Fiquei feliz, cliquei em “responder e-mail” e… nunca respondi. Acabei não o fazendo por não priorizar a resposta em meio a tantos afazeres cotidianos, trabalhos urgentes, compromissos importantes, mas também bobagens e irrelevâncias mil. Por tudo isso, ou por nada demais, o e-mail-resposta para Fabrício se encontra eternamente na pasta de rascunhos do Outlook.

Pior que eu próprio também teria mil e uma novidades para compartilhar. Nina e eu tivemos Isabela, o Flamengo anda jogando bem, a seleção … bem, teve um 7×1 aí, mas até que eles andam dando gosto de ver jogar, teve um golpe no Brasil também, seria bom comentar, li uns livros do Valter Hugo Mãe que achei incríveis e iria indicar pra ele os filmes do Kléber Mendonça Filho. Enfim, há inúmeros assuntos represados nesse tempo todo de silêncio, descaso e negligência unilateral.

Preciso responder aquele correio eletrônico. Seria uma baita injustiça para com a vida, uma ingratidão para com o destino, que eu, por comodismo ou preguiça, perca o único amigo real que fiz no mundo virtual. É isso! Tenho que recuperar o meu amigo, salvar nossa relação de cordial afeição. Vou lhe enviar um e-mail. Espero que o endereço dele ainda seja o mesmo. Mas como? Por onde começar? O que dizer?

Ora, primeiramente, devo pedir desculpas pela ausência. NÃO! Primeiramente, Fora Temer!

Mas isso já é outro assunto que vou ter que explicar pra ele também.

Vamos nessa: “Caro amigo Fabrício! E aí, sumido? …”

 

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Carlos Fialho é escritor, publicitário, jornalista e escreve às segundas-feiras

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